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Dizem que o editor do Jornal Hoje mora numa cobertura no Morombi. Me parece que o editor do Jornal Nacional é vizinho dele. Ouvi dizer que o do Bom Dia Brasil tem uma cobertura no Leblon e o do Jornal da Globo uma nos jardins. Quatro dos sujeitos mais poderosos do jornalismo da Rede Globo moram assim: em torres luxuosas há alguns quilômetros da realidade da população brasileira. No calar da noite, o quarteto deve vislumbrar as maiores e mais importantes cidades do Brasil de cima, com milhões de luzinhas acesas, imaginando os televisores ligados e a influência que exercem sobre essas infinitas cabecinhas. Continuar Lendo »

Claro que a primeira imobiliária seria a tal MT Imóveis. No momento em que essa parte da narrativa se passa, já tinha alugado um apartamento em um outro ponto da cidade há meses. Mas o gostinho da vingança ainda permanecia alí, escondido em algum canto. Na entrada percebi que trocaram a recepcionista. Lá dentro a corretora também era outra, mas reparei nos cantos que a cúpula permanecia: o gerente, o chefão da salinha de vidro e o gordão; provavelmente com a mesma camisa, palitando os dentes. Continuar Lendo »

O Rio Grande do Sul é um lugarzinho que me intriga. Nasci lá e boa parte dos parentes são de lá, mas não me sinto gaúcho. Primeiro porque durante a vida toda vi os gaúchos serem achincalhados sexualmente; cresci em uma sociedade na qual gaúcho é sinônimo de gay. Claro que isso é algo que dá pra relevar, no fundo deve ser como ser são-paulino, ou ser criado pela avó. O fato é que fiquei tanto tempo longe da cultura, tradição e jeito gaúcho que seria injusto sair por aí dizendo que eu sou gaúcho. Além do mais, os gaúchos tem um papel ambíguo na “conquista” de Mato Grosso. Muitos vieram para cá, grilaram terra, desmataram, montaram latifúndios, deram prejuízo pro Banco do Brasil. Além do mais, também não sou muito fã do bairrismo de alguns deles, gente que acha que qualquer coisa que não seja um grenal, o Guaíba, um chimarrão e um churrasco de bombacha, não é algo que preste.

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Pelo o que ela explicou, pagaríamos um aluguel adiantado, no mês seguinte pagaríamos outro. O primeiro era para eles, para pagar pelo serviço de entregar a chave. No outro o dono do imóvel já começaria a receber. Não iria fazer muita diferença no começo, só ia doer na hora sair, pois “pagaríamos” quando fossemos deixar o imóvel. Acho que é aí que está a malandragem, ninguém reclama porque na hora de entrar a facada fica lá paradinha, só dói na hora de tirar. Continuar Lendo »

Lá dentro, uma recepcionista morena chocolate, de corpo galgaz, seios na medida e um olhar obliquo, apertou o botão da porta de vidro liberando nossa entrada e a saída da fria corrente do ar-condicionado. Não concedeu olhares nem abriu sorrisos fáceis, fez somente até onde o protocolo recepcionistico manda e indicou o caminho com o dedo. Entramos na salinha dos corretores. Ar condicionado no último, duas escrivaninhas, um gordão no canto palitando os dentes, e uma corretora de uniforme. “Pois não”, disse. “Oi, tudo bem? Estamos procurando lugar pra morar”.

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O ventilador range no teto e os primeiros raios quentes começam a consumir os 70% da umidade relativa do ar chuvoso de abril na capital mato-grossense. Levantei preocupado, já iam fechar dois meses no Hotel Panorama e nada de achar casa pra alugar. Combinei de dividir teto com um atleticano que conheci no albergue. Júlio, era seu nome. Estava chegando de Belo Horizonte, pegou as coisas colocou no carro e veio. Chegou espalhando a notícia de que o trem tava brabo lá praqueles cantos. Tinha vindo tentar a carreira de professor no promissor mercado do Velho Oeste. Caso não desse certo ia para Palmas, senão Manaus, senão Venezuela, senão, por fim, tentaria entrar rastejando pela fronteira americana. Deu certo, e logo de cara. A coisa funcionou mais ou menos assim. Chegou em Cuiabá no feriado, pegou o carro e resolver esperar no Pantanal, lá encontrou o reitor de uma faculdade, beberam uma, comeram churrasquinho e o cara disse: “Você é formado em que?”. “Em Turismo”, respondeu. “Tem mestrado?”. “Tenho”. “Em que?”. “Educação Ambiental”. “Mas você dá aula de qualquer coisa?”. “Uai, dô ué”. “É que tem uma vaga pra professor de administração, topa?”… “Uh, que maravilha, satisfação”. Pegou o emprego. Mas não ficou muito. Chamaram ele pra outra universidade semanas depois. Alguns meses e já tinha preenchido toda a carga horária na maior universidade particular do estado. Um semestre depois virou coordenador. Viajou para o exterior no fim do primeiro ano. Comprou uma fazenda no segundo. Financiou o mundial do galo dez anos depois e elegeu-se governador com 50 anos. Isso, é claro, em outro tempo espaço, pois aquele sujeito que batia na porta do meu quarto vestindo uma camiseta surrada do atlético mineiro ainda era o semi-desempregado que tinha todas as fichas na mesa da roleta do destino.

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ADAPTAÇÃO

O calor de Cuiabá é lendário. Acho que não existe nada parecido no mundo. Você não pode simplesmente: dar uma andadinha por aí. É um lugar de clima extremo. Deve ser como morar na Sibéria, você não sai de casa sem antes colocar um capote, luvas, gorro, botas. Aqui, sair com sol a pino requer a mesma preparação prévia: óculos escuros, filtro solar, chapéu.

Mas a verdade é que com o tempo você se adapta. Claro, a não ser que você seja como aquelas flores silvestres inadaptáveis que morrem a uma diferença de temperatura de dois graus – até existem algumas delas por aqui, mas todas vivem em estufas de ar condicionado, sem derreter e fundir as células do corpo no solzinho de 40 graus. Mas é como digo: adaptação é fundamental.

Pretendo viver sem ar-condicionado por um bom tempo. Não só por questões financeiras e ambientais, mas por adaptação mesmo. Todas as noites frito na cama rolando de um lado para o outro expelindo suor, girando como um frango em assadeira de padaria, sendo cozinhado por um pequeno ventilador que funciona mais como ventoinha do que como refresco. Mas o que me consola é que em algum lugar minhas células lutam bravamente para manterem-se vivas. E isso é adaptação!

Às vezes é difícil. A água que saí do encanamento já vem quente  (um sujeito que vai ganhar um bom dinheiro em Cuiabá é o que inventar um chuveiro elétrico que resfrie água encanada).  Mas com o tempo você descobre que existem vários níveis de calor. Dizem que na Groelândia eles têm mais de 300 palavras pra definir o branco por causa da neve, se eu tivesse tempo e disposição criava o mesmo tanto para definir níveis de calor. Você aprende a identificar temperaturas, sabe que acender o fogão vai te fazer sofrer, que colocar uma toalha molhada em cima do ventilador ameniza, que passar de bike em frente ao parque refresca, que o asfalto é quase carvão em brasa e que o valor de uma árvore não tem preço.

Adaptação

Adaptação

ESGOTO A CÉU ABERTO

“Existe um tipo de obra muito impopular na construção civil. É o trabalho sujo, aquele que não aparece quando pronto, causa muito transtorno na execução e só é lembrado quando é mal feito(…)”.

Na noite de domingo, após alguns copos de café, digitava estas primeiras palavras. Era o início de um texto que nunca foi publicado sobre a empresa Cuiabá Saneamento. O “trabalho sujo” era uma referência a tarefa em si, de sanear esgotos, mexer com dejetos humanos, encanamento. Sujo mesmo, de sujeira! Estava escrevendo para uma revista de São Paulo, uma dessas publicações apelidadas pelos bussenessesmans de: House-Organs. Geralmente bancadas por empresários barrigudos que sabem bem a importância social que tem uma fotinho margeada por um bom texto elogioso.

Chamei um dos melhores fotógrafos que conheci por essas bandas, Silvio Esgalha, um bom homem, apaixonado por pássaros e natureza. Conheci o sujeito durante a “Caminhada da Natureza” em Coxipó do Ouro, distrito de Cuiabá. A tal caminhada é um projeto da Prefeitura que visa incentivar as pessoas a caminhar no mato. Nada muito grandioso, nem eficiente. Alguns poucos membros da imprensa apareceram por lá, quase tão poucos quantos os participantes em si. Eu mesmo não fui a trabalho; meu amigo Júlio, turismólogo, teve a idéia de ir de bike, cerca de 40 km por estrada de chão. Fomos, e lá estava Sílvio, batendo algumas fotos para a Prefeitura. Caminhada, rios, árvores, animais e, no fim: cerveja. Nada como uma gelada num bar para revelar a natureza humana. Lembraria de Silvio quando tivesse a oportunidade.

“Grande Silvio”.

“Fala garoto, tudo bem?”.

“Tudo. Como vai o trabalho?”.

“Bem graças a deus”.

“Me diz uma coisa, você só fotografa natureza mesmo?”.

“Sim”.

“Então tenho um trabalho pra você”.

“Manda lá”.

“Fotografar umas espécies raras de empresários mato-grossenses”.

“Vamos nessa”.

Não tive muita informação da editora lá de São Paulo sobre como conduzir exatamente a matéria. Teria que ligar para um tal de Borges, o contato da empresa no estado. Até liguei, mas o cara tinha recém voltado de férias do Nordeste e ainda estava no slow motion. Resolvi ir atrás dos contatos por conta própria.

Era um trabalhinho simples, pouca grana, jogo rápido. Essas revistas funcionam assim, um agrado jornalístico, mais ou menos como uma caixa de bombom com o logo da empresa.

Até o momento a coisa mais especial que a Cuiabano Saneametos tinha para a mídia era o fato deles terem comprados 12 tratores da Cater Pilar (empresa dona da revista), motivo principal de um jornalista freelancer (no caso eu) estar sentado na sala de reunião com a diretoria da empresa. Na minha frente estavam dois dos quatro donos do Consórcio, um engenheiro responsável e um deputado estadual.

Eles explicaram que iam limpar o esgoto da cidade com as obras do PAC. Disseram que atualmente apenas 20% da cidade têm coleta de esgoto e demonstraram grande interesse em “salvar o pantanal”. Falaram de sustentabilidade e da importância de limpar a cidade.

(…)É um projeto grandioso, só em Cuiabá são R$ 230 milhões que serão investidos até o inicio de 2011. O Estado vai entrar com 18 milhões, a Prefeitura com 40 milhões e o restante virá direto do Governo Federal através do PAC. “As coisas demoram, mas geralmente chegam em um momento oportuno. Com essa conscientização ambiental, uma obra dessas ganha outra dimensão”, acredita Antônio. O empresário diz que Cuiabá deu um grande salto no começo dos anos 70, mas que agora o Brasil está pronto para redescobrir Cuiabá. “Com essas obras vamos crescer muito. E o que é melhor, crescer de forma sustentável”. (…)

Um dos empresários fez uma proposta de trabalho, queria uma espécie de blog para divulgar o andamento da obra, disse que tinha interesse nesse “mundo virtual”. Acenei com a cabeça. “Quem sabe”, disse sem prometer nada. No final da entrevista marcamos de ir até um dos locais das obras. No caminho, enquanto um deles dirigia a caminhonete importada,  conversaram sobre partidas de tênis e grandes obras de engenharia no exterior. No sol do meio-dia, Silvio fez o que pôde. Clicou os sujeitos com chapeuzinho de obra, caminhando em frente aos tratores da cater pilar. As fotos não ficaram lá muito boas. A obscura natureza humana não é o forte de Silvio.

(…)No caso de Cuiabá o peso ambiental pode ser multiplicado pela importância sem precedentes do Pantanal. O Rio Cuiabá corta a cidade, dá nome a capital mato-grossense e deságua direto no Pantanal. Como lembra João Cândido: “existe uma rixa entre Campo Grande e Cuiabá para saber qual é a capital do Pantanal, uma vez que o bioma fica nos dois estado. Não tenho dúvidas que é Cuiabá, pois toda água que usamos aqui deságua diretamente lá, o Pantanal começa aqui. E isso só nos traz mais responsabilidades, pois se não fizermos as obras de saneamento necessárias agora, no futuro seremos muito cobrados por isso”(…)

Consegui terminar a matéria apertado, horas antes do deadline. No dia seguinte, após uma noite agitada, com o corpo rolando por horas de um lado para o outro tentando absorver a cafeína, cheguei atrasado no trabalho. Na redação os jornalistas agitados cobriam uma operação da PF. O repórter Jonas Campos já estava na rua desde as cinco da manhã, enviando notícias pelo celular para a redação. Quem atendeu uma das ligações foi Marcy, o editor do online. “Já tem os nomes? Sim, pode passar”.

Alguns minutos antes eu havia contato a história toda para ele a fim de justificar o atraso. Disse que passei o final de semana terminando um freela, falei da entrevista e também citei o deputado que estava lá. Provavelmente foi por isso que Marcy fez aquela cara enquanto escutava os nomes através do telefone. Segundos depois de desligar ele olhou para mim um tanto atônito:

- Sabe esses caras que você entrevistou?

- Sim…

- Estão todos presos.

Durante vários meses a imprensa acompanhou de perto as notícias sobre a fraude nas obras do PAC. A TV colocou algumas matérias em rede nacional, mas como o interesse por essa região é pequeno, elas rarearam já na segunda semana. O procurador do município foi preso, o deputado estadual e os empresários também. A suspeita é de que houve fraude na licitação. As empresas já sabiam que iam ganhar. Algumas escutas telefônicas vazaram, o prefeito ficou mal na foto, o governador gostou, a turma toda foi solta na semana seguinte pela justiça, as obras ainda estão paradas e eu e o fotógrafo até o momento ainda não recebemos. O rio Cuiabá continua igual. Ainda manda os dejetos humanos de cerca de 800 mil habitantes para o maior orgulho do estado: o Pantanal.

É… o esgoto de Cuiabá é mais sujo do que se pensa.

Trabalho sujo

Trabalho sujo

Este texto foi escrito em 06/06/2007 e nunca havia sido publicado anteriormente.

Existem muitas figuras carimbadas aqui na região do Médio Norte de MT. Algumas são do bem, outras são do mal, tem a irmã Terezinha, o tenente Taborelly, o prefeito Chico Mendes, os irmãos Guaraná, Márcio Mendes, Bilú o prefeito, Terno o fotógrafo, enfim, são inúmeros. Já tinha pensado em registrar algumas delas, mas o fato é que não quero ficar novamente refém da escrita como aconteceu em minha última viagem à Nova Zelândia; confesso que esse é um vício que me consome e me atrapalha um pouco. No entanto, existe um sujeito que acabou de sair aqui da redação, e, juro, se não contar sua história agora acho que vou ter espasmos epiléticos.

Tudo começou com uma afta na língua. Ela surgiu na véspera da viagem e me acompanhou desde então. No avião, no ônibus, nos primeiros dias de trabalho, nas primeiras semanas, o tempo passava e a merda da afta não fechava. Nessa época o telefone tocou e do outro lado quem falava era um famacêutico. Disse que queria que um repórter fosse entrevistá-lo. “Qual é o assunto”, perguntei com cuidado de não bater a língua nos dentes. “Te digo quando chegar”. Achei meio suspeito, mas contei pra Marcio Mendes, o dono do jornal: “vai lá, é aqui perto”. Tudo é perto em Diamantino. Mas, peguei a caneta, o gravador e sai sob o escaldante sol mato-grossense. Terno, o fotógrafo, veio junto.

Ao chegar, molhado de suor, me deparo com um homem idoso, de camisa branca aberta mostrando uma barriguinha saliente, ao lado de um ventilador e com as mãos sobre o balcão a mirar sob pesados óculos de grau. Ele não nos viu. “Olá, é o senhor que é o seu Braga?”. “Sim, sou eu, que bom que vieram”, disse já reconhecendo que eramos da imprensa. “Por favor, me acompanhem”, disse indicando uma porta aos fundos.

As farmácias do interior nada têm a ver com as Mega Stores decoradas em neon, lotadas de cremes, shampoos, camisinhas e modes que vemos nos grandes centros urbanos. Farmácias dos rincões são lugares ermos, com cheiro de álcool, misturado com acetona, mais iodo e éter e que dão até um certo barato. A reunião secreta seria na salinhas de aplicar injeção, com três cadeiras de madeira e um cavalete para apoiar o braço. Seu Braga ligou um ventiladorzinho que rangeu um pouco antes de pegar o ritmo. Por fim se aconchegou na cadeira, cruzou as pernas e começou a falar:

- Veja bem, eu chamei vocês do jornal pra dizer que eu tenho intenções de ser o próximo prefeito da cidade de Diamantino. Pode escrever ai nesse bloquinho que eu estou dizendo isso.

Fiquei parado com a caneta em riste tentando entender do que se tratava aquilo. Olhei para Terno que mastigava um chiclete e mantinha sua cara de paisagem sob seus óculos escuros.  Resolvi ligar o gravador.

- Parai, deixa eu entender. O senhor nos chamou aqui para dizer que quer concorrer nas próximas eleições municipais?

- Exatamente, vou entrar para a política!

Respirei fundo, apertei a caneta e comecei a escrever:

- Oook!! Então vamos lá… deixa eu ver… por onde começar…bom…qual é o seu plano de governo, seu Braga?

- Não tenho plano!

- Não tem plano?

- Não.

- E qual o partido do senhor, seu Braga?

- Esse é um ponto importante, é uma ótima pergunta meu jovem… Não tenho partido também! Por enquanto! Mas espero que depois dessa matéria no jornal algum partido possa me fazer um convite.

- Então o senhor não tem partido?

- Não!

- Mas o senhor segue alguma linha ideológica?

(Ele ficou meio desconcertado com a pergunta)

- D-desculpa, pode repetir?

- Se o senhor, seu Braga, tem alguma linha ideológica?

- Olha meu amigo, eu não te entendo.

- Se o senhor acredita em alguma vertente política, tem algum ideal, possui um pensamento filosófico… ou… (eu estava só piorando as coisas ele me olhava cada vez mais com cara de interrogação)… na verdade minha pergunta, seu Braga, é: o que motiva o senhor a entrar para o política?

- Ótima pergunta meu amigo! Eu te digo que depois de muitos anos vivendo nessa cidade chegou a hora de eu dar algo em troca. O que me move a ser prefeito é que eu amo aos pobres e despossuídos, amo de coração os pobres.

- O senhor ama os pobres?

- Amo!

- O senhor crê que está preparado para assumir uma prefeitura?

- É ai que eu te pergunto… O que é estar preparado? Estes que estão aí estão preparados?

- Quais são as principais virtudes do senhor, Seu Braga?

- Posso dizer que se for eleito serei um sujeito honesto, sem corrupção, sem picaretagem!

Saímos da salinha e caminhamos em direção a rua. Na porta seu Braga continuava insistindo na seqüência de perguntas que começou no exato segundo em que desliguei o gravador: “Acha que falei bem? hein, como me sai? Como vai ser a matéria?”. Não tinha muito que dizer, apenas baixei a cabeça e disse: “Foi bem seu Braga, fez certinho”.

Terno tirou algumas fotos, mas as imagens ficaram ruins demais. Não sei da onde tirei essa idéia de fazer campanha pro Terno virar fotógrafo do jornal, ele é ruim demais! Sempre que vamos a algum evento ou fazer entrevistas acabo fazendo as fotos eu mesmo. Mas o garoto tem potencial, deve estar aprendendo. Gosto dele e de imaginar que um dia, se Deus quiser, vai conseguir sacar uma foto sem cortar metade da cabeça do entrevistado.

Peguei a câmera da mão do Terno. “Ok, seu Braga, faz uma pose aí de vencedor”…

fash!

"Pose de vencedor, seu Braga!"

"Pose de vencedor, seu Braga!"

Só quando estava no meio do caminho que lembrei da dor na língua, a maldita afta. Resolvi acabar de uma vez por todas com aquela situação, voltei à farmácia e perguntei a seu Braga o que era bom para afta. “Usa isso aqui que passa”, ele me estendeu uma caixinha com pedra ume. Saquei a carteira pra pagar e ele empurrou o dinheiro de volta: “não, não, não se preocupa com isso”. De minha parte insisti veementemente dizendo que não podia aceitar, mas ele empurrava com mais veemência: “não, não, não” e sorria fazendo um gesto para eu ir. Por alguns segundos pensei em jogar aquela caixinha na cara dele e gritar: “Ta pensando o que seu filho-da-puta, que vai me comprar com uma porra de remédio?” e sair chutando o estabelecimento para mostrar indignação. Mas não dá pra fazer esse tipo de coisa na vida real.

…peguei a caixinha e voltei para a redação.

A entrevista não rendeu muito, na verdade não renderia nada seu eu não tivesse ficado olhando para aquela caixinha de “pedra ume” sob o computador. Perguntei pro Márcio Mendes, o dono do jornal , o que eu devia fazer com aquela entrevista?”. “Esquece isso! Muito fraco”. “Não dá pra jogar nem no site?”. “Ta bom, joga no site”. Na verdade tinha gostado da foto, achei que daria uma matéria divertida, mas aquela merdinha de pedra ume em cima do monitor me deixava nervoso. Talvez fosse melhor nem publicar nada e mostrar pro farmacêutico que eu era incorruptível. Mais alguns dias se passaram, e minha afta passou. Lembrava esporadicamente do seu Braga, geralmente quando passava em frente a sua farmácia ou quando alguém citava algum nome para concorrer à prefeitura da cidade. A matéria no site não teve muita repercussão, ninguém comentou muito, o assunto morreu. Até que um dia seu Braga veio para a redação conversar com o chefe.

No final da tarde daquele dia Márcio chega pra mim e diz: “Lembra da matéria do seu Braga?”. “lembro sim, que que tem?”. “Então, dá uma aumentada nela que a gente vai publicar no impresso”. Na hora saquei que o incorruptível Braga tinha corrompido o mais-que-corruptível jornal. Apenas olhei para Márcio e ele disse o que sempre dizia: “É ué, aqui funciona assim! Já te disse isso milhões de vezes!”.

Nessa hora você lembra das conversas de bar na faculdade, da época em que você era um idealista de merda, que acreditava no bom jornalismo, na dignidade da profissão. Aí se vê trabalhando num jornal que cobra 400 reais por matéria… então esse era o preço da notícia? Quatrocentos reais?! Sentado em frente ao computador abri o jornal bem na página com a matéria, numa perspectiva mais ao fundo, a caixinha da pedra ume em cima do monitor… então era esse o meu preço!

No fundo senti até um certo orgulho… não é qualquer recém formado que se vende por uma porrinha de Pedra Ume!!!!!!

PAU RODADO

São Paulo é uma cidade habitada por pombos. Eles voam elegantemente gordinhos sobre as ruas da cidade. Uma vez li na National Geographic que pombos se localizam através das ruas e avenidas construídas pelos homens. Ou seja, pombos são como paulistanos, vivem perdidos por aí. Já aqui em Cuiabá existe uma imensa gama de pássaros silvestres que ainda reina majestosamente sobre a cidade. Estes provavelmente ainda se localizam por rios, vegetação, relevos e devem considerar Cuiabá apenas uma taberna mal freqüentada em meio ao horizonte geográfico do infinito lar mato-grossense.

Cuiabá é conhecida como cidade verde. É um título antigo, provavelmente dado por um prefeito com alto faro para marketing político. Não sei em que situação ou época se cunhou o apelido, mas o certo é que ele ficou apenas no título mesmo. Claro que existem áreas verdes por aqui, e muitas, mas o que quero dizer é que a filosofia geral ainda é para trocar os pássaros todos por pombos. Daí da cidade não ser tão verde assim.

Por alguma razão o modelo de desenvolvimento sudestista ainda encanta a maioria dos moradores de Cuiabá. Não digo o cuiabano em si, pois o cuiabano legítimo (quase extinto) não liga muito para essa coisa de trocar sua casinha de telhado de barro por prédios super-ultra-desenvolvidos. Posso garantir que a maioria dos que anseiam por uma metrópole é mais o povo que vem de fora, os forasteiros, os tais “pau-rodados” – e Cuiabá é uma taberna em meio ao horizonte largamente freqüentada por forasteiros. Nada contra eles, até porque faço parte. Mas muitos ainda vêm com aquele velho pensamento de construir, desenvolver, levantar empreendimentos, fazer fortuna. No fundo querem poder trazer suas família a amigos do Sudeste pra comer no Burguer Kings, e tomar um café no Starbucks.

O sonho de modernizar Cuiabá é antigo. Estava folheando um livro de história da cidade e vi que antigamente muitos dos viajantes, cronistas e pensadores que passavam por aqui deixaram registros críticos sobre a cidade. O alemão Karl Von den Steinen, por exemplo, escreveu em seu diário enquanto repousava em Cuiabá para seguir viagem ao Xingu no ano de 1880: “Os cidadãos cuiabanos são dotados de certa indolência e mesquinhez (…) falta-lhe a disposição para o trabalho (…) as perspectivas do homem cuiabano são muito piores do que ele mesmo pode imaginar” Já o português Joaquim Ferreira Moutinho escrever em 1850: “O principal defeito do cuiabano é a preguiça e a indolência (…) a fome e a miséria são devido à preguiça de um povo que poderia viver em abundância”. Mas nada, nem ninguém, conseguiu o feito de enquadrar Cuiabá no frenesi desenvolvimentista do século XX.

Mas os tempos mudaram! Vivemos (ou pelo menos tentamos viver) na era da sustentabilidade. Mesmo assim o esporte favorito do “pau rodado” é falar mal do baixo número de empreendimentos corporativistas. Mas a tal “indolência” descrita pelos garbosos viajantes, fez com que os cuiabanos “tachapa e cruz” deixassem de se preocupar com o que o povo de fora diz. Para os donos da taberna é sempre melhor prestar atenção nos pássaros do que nos pombos.

Pombos?

Pombos?

Política e mídia se misturam em Mato Grosso. Deputado bom é deputado na TV. E não só em propaganda eleitoral. Pra ser lembrado pela população o político precisa aparecer, sorrir em outdoors enormes, ter um ônibus com a lataria pintada e apresentar seu próprio programa de TV em alguma afiliada local. Um desses camaradas é o nobre deputado estadual Sérgio Ricardo (PR). Confesso que não sou um telespectador assíduo do seu programa criativamente chamado de “Programa do Sérgio Ricardo”, mas estou nesse momento com a TV ligada ouvindo o nobre deputado falar vestido com sua camiseta do Palmeiras e a vontade de escrever me é incontrolável.

Ao que parece o programa dele é todo sábado. É um dos lideres de audiência no estado (pelo menos é bem comentado entre a população). Mas ainda não deu pra sacar muito bem como funciona o tal programa. Após vinte minutos em rede estadual, tudo o que ele fez foi passar hinos de times de futebol e comentar: “ah, esse hino do inter é muito triste, coloca o do grêmio aí”, e aí o sujeito lá na cabine troca: “ah, esse é melhor”. Na chamada para o intervalo passa a vinheta com cenas do deputado distribuindo peixe para os pobre e percorrendo as rodovias do estado com seu luxuoso ônibus estilo cantor pop-sertanejo; com rosto e número do partido pintados na lataria.

Acho incrível a presença constante de políticos nas ruas de Cuiabá. Na maioria das vezes estão fazendo joinha ao lado de uma frase emblemática estampadas em gigantescos outdoors: “Parabéns Cuiabá, sua bonita!” ou “Muito obrigado governador Maggi por trazer a Copa para a gente”. Isso tudo mais os carros adesivados, os pobres (e não tão pobres) com camisetas políticos e os tais ônibus particulares tunados de sertanejo-pop. E o que é mais assustador: estamos há mais de um ano das eleições. Não quero nem imaginar como essa cidade vai ficar daqui uns meses.

De volta do intervalo o deputado anuncia com entusiasmo: “E atenção, hoje tem jogo no Jardim da Glória valendo o Troféu Sérgio Ricardo”. Entra correndo um cantor de lambadão mexendo o corpo todo cantando playback: “e vai no vuco-vuco, e vai no vaco-vaco”. Uma cuiabana vestida com roupas exageradamente típicas aparece e diz: “vou declarar um poesia para você Sérgio Ricardo”, respira fundo e começa: “Sérgio, você não é revista, mas estou sempre Contigo, não é a TIM, mas meu amor por você é sem fronteiras…” e vai seguindo numa lírica majestosa capaz de matar um poeta envenenado.

Ainda me pergunto até quando a população vai aceitar esse tipo de programação? O fim inglório desse tipo de promiscuidade deveria ter ocorrido com a prisão de Lino Rossi, apresentador do “Cadeia Neles”, programa líder de audiência no horário (sic) do almoço! Anos à frente da atração, Lino Rossi, o político que consegui se eleger vereador, deputado estadual e depois federal, bradava contra os bandidos em rede estadual. “Tem que ter pena de morte!”. “A polícia tem que matar, sim!”. “Lugar de bandido é na cadeia!”. Isso até o dia em que foi preso, acusado de ser um dos principais beneficiários da máfia dos sanguessugas. O programa, claro, continuou líder de audiência com outro apresentador. Além do mais, o nobre político foi solto logo em seguida e ainda aguarda julgamento.

Não tive saco de acompanhar o programa do Sério Ricardo até o fim, joguei no mute e vim aqui escrever esse texto. Enquanto digito tem um telefone na tela piscando pedindo doações. Até tentei aumentar pra saber mais sobre isso. Doações? Pra que esse cara quer doações? Mas o controle remoto há dias não funciona e o botão da TV ainda tá quebrado. Preciso comprar pilhas. Jornalistas podem pedir doações?

Doações? pode sim amigo!

Pode sim amigo!

A cobertura de um fato ou evento pela internet tem de ser imediata. Claro que a apuração é o principal, mas o grande negócio de um veículo online é jogar primeiro a informação na rede. Não que isso faça muita diferença para a empresa ou para o leitor, a maioria não está nem aí se quem jogou primeiro a notícia foi a Globo ou a Record. É um lance de jornalista, coisa nossa, joguinho corporativista. Se você não é da área não tente entender. Deve ser como ser corintiano fanático: não leva a nada, pois é alguma conjunção astral-biológica-neuronal-sexual não explicada pela ciência. Furar no jornalismo é uma catarse social pós-moderna sem sentido algum de um profissional mal-remunerado e semi-respeitado. É bom não tentar entender.

Tive um estralo. A melhor solução seria cobrir por SMS. O editor lá na redação colocaria as mensagens no Twitter e pelo menos na twitttosfera a gente furava geral. Não é a mesma coisa, é claro. É como ganhar o primeiro mundial de clubes. Até é reconhecido pela Fifa, mas sem dúvida um tanto sem mérito. O certo seria colocar tudo no site de uma vez, mas nosso sistema tem algumas deficiências. Se o editor publicasse sem antes dar login e logout duas vezes, não apertasse o Crt+v+a+i mais cinco e esquecesse de rezar os dois pai-nosso estralando os dedos, a matéria saia toda desconfigurada.

Mandei umas quinze mensagens para o editor enquanto ele tentava desesperadamante entrar no Twitter. Eu já estava bem mais tranqüilo, rindo da própria esperteza, quando chega a mensagem: “Twitter fora do ar!”. Droga! O jeito era desencanar dessa coisa de online-tempo-real e cobrir como um bom, velho e respeitável senhor de impresso. Sentei-me, cruzei as pernas e pus a pena em tirocínio.

No plenário, o vereador Ralf Leite gritava de braços abertos: “Oh, céus! Oh Deus! o que eu fiz para receber tamanha injustiça?”. Os jornalistas todos vinham abaixo com cada declaração do vereador. Num dos momentos altos do show ele segurou a constituição e disse a plenos pulmões: “Não posso ser cassado. Está escrito aqui, na constituição! E a constituição é a carta magda (sic) da nação”. As risadas na sala de imprensa ecoaram por todo salão e os vereadores puderam ouvir quando um repórter gaiato gritou lá de dentro: “cala boca Magda!”

O erro foi engraçado pela situação toda, mas a sessão inteira transcorreu como um assassinato cruel à língua portuguesa. Em especial um dos vereadores que usou a tribuna. Ele cometeu um genocídio tão grande que poderia ser condenado à morte em um tribunal especial da ABL: “É craro que as denúncia tem de se apurada. Mas a constituição é crara: o voto tem di se secreto. e digo mais: nenhum de nóis aqui é de menas importância que ninguém”, gritava o nobri vereador. Os jornalistas se retorciam de vergonha alheia, alguns até repetiam em voz alta como que grifando os erros do sujeito para o resto, mas a maioria manteve-se mesmo em silêncio. Não sou do tipo que fica arreparando na fluência verbal alheia, mas um camarada que arranja um cargo como aquele deveria ao menos se dar ao trabalho. Sofri com o resto a dor de saber que aquele cidadão era um representante legítimo do povo e tinha salário (fora as comissões) bem maior do que nossos anos de lapidação lingüística podia almejar.

Por fim veio a defesa. O advogado pelo menos tinha um português ajeitado, mas muito mais lavada era a cara do sem-vergonha. Ele montou toda a defesa em cima do fato da Câmara dos vereadores não ter uma constituição própria, o que, na teoria, impedia a sessão com voto fechado: “o voto tem de ser aberto como diz a constituição”, dizia com cara séria. No fim resolveu dedicar um tempinho pra defesa (de fato) do seu cliente. Mas para isso não teve coragem de fazê-lo verbalmente, preferiu exibir o trecho de um vídeo que editou no computador (bem mal-feito) tentando provar a inocência do seu cliente. Mais risadas na sala da imprensa.

Mas não adiantou. Os partidos obrigaram os vereadores a votar pelo pleito aberto pra tentar disfarçar um pouco a evidente sem-vergonhice. Não foi a toa! Uma rápida olhada na turba nervosa que tomava o plenarinho gritando já ilustrava bem a situação. Era a cabeça do pedófilo, ou a revolução.

E tudo correu conforme o esperado. Ralf Leite foi o primeiro vereador de Cuiabá a perder o mandato. Só dois votaram contra: Lutero Ponce e o próprio Ralf Leite. Agora o que é mais curioso. Sabe esse tal Lutero Ponce aí que votou contra a cassação? Pois bem, ele era presidente da casa e foi indiciado pela Policia Fazendária por ter desviado 7,5 milhões de reais da Câmara. Nas ultimas três gestões a mesma quantia foi desviada e ninguém foi cassado. Mas não adianta ficar espantado, não. Convenhamos… desviar dinheiro faz e sempre fez parte do decoro parlamentar brasileiro. Esse negócio de transar com travesti que é novidade…

(Façam suas apostas: Lutera será ou não cassado. Descubram em breve nesse periódico)

Enquanto a coisa toda pegava fogo (literalmente, pois o tenente Lara resolveu incinerar seus apretrechos farrísticos) , eu tentava achar um gabinete de um vereador honesto para negociar um computador. Claro que não estou tempo o suficiente na cidade para saber quem é honesto ou não, por isso pedi ajuda ao repórter Fábio Menegatti, que após pensar um bocado, me indicou um com a seguinte ressalva: “É o menos pior”. O nobilíssimo vereador  indicado concordou e pediu para uma secretária me acompanhar até uma salinha contigua onde ligou um monstro eletrônico de filme futurista dos anos 80. “É um pouquinho lento”, lamentou enquanto o processador rugia mal humorado. Um pouquinho? Pelos meus cálculos aquele troço só iria pegar lá pro final da sessão. “Ok, deixa ele ligado aí que quando eu tiver alguma matéria eu venho correndo e mando”. “Ah, precisa de internet? peraaí que eu vou conectar pra você”, e pegou um fio telefônico empoeirado do chão.

Saí dali com a certeza de que não voltaria – se é difícil imaginar um mundo sem internet, pior ainda é imaginar um sem banda larga.Entrei pelos corredores e me perdi da equipe. Subi um lance de escadas e fui parar no plenarinho, lugar de intensa e nervosa concentração popular. Ali as pessoas seguravam cartazes, faixas e gritavam para o grupo de vereadores acuados na parte de baixo. Era como uma arena romana, com torcida por decaptação, entrada de leões e lutas de espada. Uma mulher do meu lado estava indignada e gritava a plenos pulmões: “Isso é um absurdo, como pode? esse presidente da câmara aí também é pedófilo, e bicha!”, era eleitora de Ralf Leite – Destaco aqui o seu depoimento pois era isolado; a maioria queria mesmo é ver a cabeça do vereador pedófilo numa bandeja.

O suor brotava dos poros como torneira ligada. Lá fora a temperatura ambiente devia estar próxima das 40 graus. No plenarinho o bafo era algo como cinqüenta graus de indignação. “Ladrão, pedófilo, filho-da-puta”. Cada espaço ali era disputado e eu fui abrindo caminho dizendo: “imprensa, opa, imprensa, opa, com licença”.

Sem dúvida que eu não devia estar ali, a sala dos jornalistas era lá embaixo, mas por alguns segundos quis sentir o clamor popular por justiça, bater umas fotos e fazer uns vídeos em baixa resolução. Fui contaminado pelo clima de indignação, não a ponto de começar a quebrar tudo, mas o bastante para desejar que isso acontecesse. Poderia ficar alí até o final, mas entrou aquele sujeito gordaço, esbarrando em todo mundo e causando tumulto. Ele virou pra parede, colocou o polegar na narina esquerda, e chuuuu, mandou bala jorrando uma punhado de catarro que ficou grudado na parede. Depois disso ainda esfregou o que ficou pendurado nos dedos e voltou a assistir a cassação tranquilamente. Nessa hora não pude evitar as constantes dicas de saúde da Sandra Anemberg para evitar a tal gripe suína. Achei melhor me retirar para a sala dos jornalistas.

A câmera e a câmara funcionavam a todo vapor: Fotos, vídeos, depoimentos, poses, xingamentos, flash. A intenção era montar uma galeria de fotos ou um vídeo com os bastidores. Eu e o editor Neto gostamos de inovar e trazer uma visão diferente do que é apresentado nos jornais. Nem sempre conseguíamos. Cada vez que usava a câmera um risquinho da bateria ia embora. Nem percebi quando o troço começou a piscar. Desliguei. Era bom economizar.

Na sala da imprensa cinegrafistas e jornalistas disputavam a cotoveladas cada centímetro disponível. O problema é que ali não dava pra usar o truque da “imprensa, opa, com licença”, mas mesmo assim fui cavando lugar até encontrar Walcir, nosso cinegrafista, disputando espaço com mais cinco ou seis concorrentes. Nesse momento, quando as leis da física estavam prestes a serem quebradas, uma assessora entrou e liberou só os cinegrafistas para entrarem no plenário. A saída de câmeras e tripés aliviou o lugar. E foi nessa hora, quando o horizonte da sala se abriu, que tive o primeiro grande choque do dia. Meus olhos não podiam acreditar no que estava vendo. Era uma mesa, mais ao fundo, onde os jornalistas de sites concorrentes estavam sentados com notebooks, rede sem fio e máquinas digitais. Sempre soube que nosso site tinha problemas de estrutura, mas achava que era uma coisa da situação política e econômica do estado, ou da cidade. Mas que nada! Aquela visão só me deu uma certeza: íamos tomar furo!

Continua…

A cobertura de um dos fatos políticos mais importantes de Mato Grosso começou cedo, por volta das 07h00 da manhã, quando todas as redações de sites, jornais, revistas e TVs se agitavam para ir a Câmara Municipal, no Centro Geodésico da América Latina. Era dia de cassação de vereador. Muito provavelmente o primeiro em toda história do município.

Ralf Leite foi eleito com 3.115 votos pelo PRTB. Político de primeiro mandato, parente de gente importante, filho de PM, ex-bombeiro, chegado de figurões da alta sociedade. Não fez nada de diferente do que se costuma fazer na Câmara, ou seja: nada! Não apresentou projetos, não resolveu problemas, não atendeu a sociedade, mas, em compensação, se envolveu com esquemas, fez alianças escusas, enfim, foi um vereador exemplar. Até aquela noite no bairro Zero Quilômetro de Várzea Grande (região metropolitana de Cuiabá) na qual foi flagrado pela PM cometendo o que a imprensa chamou de “ato libidinoso com um menor de idade”. O tal ato libidinoso os jornais imprimiam como “felação”, ou como é mais conhecido pelos populares: boquete, gulosa, bola-gato ou chupeta. O tal “menor de idade” era um travesti; um guri de 16 anos com prótese de silicone, coxas roliças e um gogó (entre outras coisas) saliente. Naquele momento ele recebia 30 reais para deixar o nobre vereador, representante do povo de Cuiabá, meter a boca onde não devia… Foi um escândalo!

A imprensa cobriu o caso por meses. A população indignada pixou os muros da cidade: “Fora Ralfenômeno!”. Por algum tempo o vereador conseguiu escapar. Várias sessões foram suspensas pela justiça e a velha tática de cobrir escândalos com a pá do tempo já estava quase dando certo. Mas o nobre vereador se envolveu em mais um escândalo: bateu na mulher! Aí não deu. A cena da sua esposa saindo da delegacia de olho roxo correu os jornais e televisão e reacendeu a polêmica. Não tinha jeito. O povo até que é meio bobo (como eles mesmo pensam), mas o tal Ralf realmente abusou. Aquela sessão só saiu por pura pressão e necessidade social.

O carro da TV já estava pronto. Eu ainda procurava a filmadora do online na redação, e nada! Reviramos armários, gavetas, portas e o equipamento não aparecia. É sempre assim. O site não tem lá muito estrutura e a coisa é sempre feita com improviso, gambiarra e paixão. Pra se ter uma idéia, a câmera nem era do nosso departamento, mas acabamos por adotá-la após uma série de empréstimos sorrateiros. E justo naquele dia, uma das coberturas mais importantes do ano, o pessoal do marketing deu um jeito de sumir com o equipamento. Não dava mais tempo, o editor pegou uma máquina fotográfica e disse: “se vira com essa”. Saí afoito com um bloquinho debaixo do braço e uma câmera quase sem bateria no pescoço.

Chegando lá o clima era de revolução; bandeiras vermelhas do MST e integrantes de movimentos sociais agitavam a entrada da câmara enquanto um carro de som tocava músicas de Gabriel Pensador, Geraldo Vandré e Bezerra da Silva. Um caminhão-pipa com oito mil litros de água lavava a parte da frente da Câmara e alguns manifestantes com água e sabão realizavam o ato simbólico. Mas logo a impressão inicial de “revolução” deu lugar a boa e velha jocosidade do brasileiro. Alguns personagens clássicos da fanfarronice municipal estavam lá, como o ex-vereador Tenente Lara (que você já deve ter visto nesse vídeo). Vestido de … de… de alguma coisa, ele colocava fogo, batia com um porrete, xingava e interpretava as mais diversas espetaculosidades. Tinha também um sósia do falcão apelidado de Cumpadre Banga e um integrante do MST que não fez questão de esconder sua homossexualidade desfilando de batom, maquiagem e distribuindo beijinhos envolto na bandeira vermelha do movimento.

No Brasil, desgraça de um é show de outro.

Continua…

Mosquitos são um mal natural de lugares como Cuiabá. Não sou profundo conhecedor da espécie, mas aos poucos vou identificando os hábitos diários dessa praga. Ao que parece eles gostam de umidade, calor e sangue. Agora que o tempo começou a ficar seco eles sumiram um pouco. Mas até algumas semanas atrás era um enxame, davam as caras todos os dias; véspera de chuva então? Vêm em bando, saindo do meio do mato já querendo se alocar sob um teto para chupar um sanguinho quentinho. São bichos traiçoeiros! Nunca perca a oportunidade de matar um quando tiver.

O que mais me irrita nos mosquitos (ou pernilongos) é que são bichinhos abusados. Não são espertos, ágeis, ou sequer preocupados. São quase senadores da república: folgados, espaçosos e adoram uma mordomia. Chegam devagar fazendo barulho, voam meio desajeitados, zunindo no ouvido, dão uma leve olhada ao redor e Zap! Te cravam o bico e começa a sugar.

Não existem estatísticas (por enquanto) sobre o sucesso da empreitada de um mosquito. Mas através de minha experiência ao longo desses cinco meses chuto que em 90% dos casos eles morrem esmagados quando estão prestes a iniciar o processo de sucção. É muito fácil pegar um mosquito nesse estágio. Mas claro, sempre tem aqueles filhas-da-puta que conseguem escapar.

Na minha opinião, uma das coisas mais divertidas para se fazer é matar mosquitos cheios. Aqueles que já beberam um bocado de sangue e começam a voar gordinho, zonzos, como se tivessem saído de uma churrascaria rodízio gaúcha. Geralmente explodem em sangue na parede ou no ar. É como apertar plástico bola, ou atirar na cabeça de um zumbi no vídeo-game. Diversão garantida.

Mosquitos são diferentes das moscas. Perto do design dos Mosquitos, pequenininhos, pernas longas e esguias, as Moscas são como o Fenômeno antes da lipo: roliços, desengonçados, mas de rápido arranque e finalização. É fácil esmagar um mosquito – com um pouco de prática é possivel pegá-los no ar com uma mão. Já as moscas requerem um treinamento de Karate Kid para matá-las. Desconfie sempre de filmes em que lutadores pegam moscas com palitinhos de Hashi e não se admire com aqueles que conseguem pegar mosquitos no ar.

Cuiabá é uma cidade diferente. Não sei dizer exatamente qual foi minha primeira impressão; uma vez que já faz um bom tempo que cheguei aqui. Mas com certeza não foi das melhores. Não é exatamente o tipo de lugar que você vem passar férias. Pelo contrário. A maioria das pessoas que vem para cá chega em busca do Eldorado, do ouro, da terra, da oportunidade.

O povo aqui é até meio complexado com isso. Desde a época que os bandeirantes vinham pra essas bandas escravizar índios e cavar a terra atrás de ouro e diamante, que o pessoal é meio ressabiado com o povo que vem de fora. Não é a toa. Imagina se você fosse um índio da etnia bororo e vivesse da pesca, de rituais, do rio, das árvores, de todas essas coisas que não fazem muito sentido pra nós hoje em dia, e, de repente, chegasse um bando de loucos de São Paulo aterrorizando, cavando o chão, matando e morrendo por pedaços de pedras. Imagina você perder família, amigos, casa, sustento.

Aí pensa que finalmente acaba a desgraça do ouro, acaba o diamante, acaba tudo. Os sujeitos dão um tempo, vão-se embora. E você fica lá, sem identidade, com filhos misturados, meio branco, meio negro, meio índio. O que era uma tribo legítima de bororos bem constituídos, orgulhosos de suas penas e pinturas, vira o que Darcy Ribeiro chama de ninguendade.

E aí, pra piorar, chegam os tais gaúchos e paranaenses. “Vôte!”

Na década de 70 e 80 o regime militar promove a vinda desse pessoal para a região. O exército desmata uma caralhada de hectares e sai distribuindo terras. Era o tal “Integrar para não entregar”. Os milicos achavam que se derrubassem todo o Cerrado mais toda a Amazônia e enchessem de neguinho lá, tava garantida as fronteiras do país. Mas graças ao bom Deus o cuiabano estava lá!

O cuiabano é quase um baiano, só que menos malandro e mais nervoso. Eles são um povo hospitaleiro, modesto, e gente boa, mas não acreditam muito nesse modelo de desenvolvimento sulista, ou sudestista. O paulista e o gaúcho há anos vêm pra cá e encontram uma enorme resistência a aquela habitual labuta frenética da filosofia sudeste-centrista. O mais engraçado é que, aos poucos, a maioria dos novos migrantes adquirem essa malemolência.

Deve existir algum estudo antropológico que explique isso. No fundo os Bororos ganharam a guerra. Essa antropofagia do frenesi laborístico sudestiano deve ser tese de algum mestrado. Confesso que virei meio bororo. Passei a apreciar mais a natureza, dou uma dormidinha à tarde, não me estresso no trabalho, nem corro pra chegar. A vida é melhor e mais sustentável dessa forma.

Se todos os exploradores tivessem parado um pouco pra apreciar a verdadeira hospitalidade e cultura cuiabana, quem sabe a temperatura na cidade fosse hoje um pouquinho mais amena.

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Joanas

“Cuiabá, Cuiabá, Cuiabá…Cuiabá é melhor que Bagdá”

João Eloy, cantor de rasqueado

Richard veio pra Cuiabá atrás de uma garota que conheceu na internet. Joana, uma morena da pele escura. Mistura de índio, negro e pitadas de sangue europeu; um vatapa genético delicioso que o canadense estava louco para provar.

Acostumado a viajar pelo mundo atrás de mulheres que conhece na rede, Richard comprou um guia Lonley Planet Brazil, deu uma folheada e viu que tinha um Hostel no Pantanal. Resolveu conferir. Chegou de bermudão, camisa estampada e pescoço rosa. Era um legítimo ser de Montreal, acostumado ao mundo subterrâneo aquecido artificialmente.

Já Joana vinha de uma linhagem feita para o calor. Pele escura, adaptada para filtrar raios ultra-violeta sem a necessidade de protetor solar, transformava sol em energia sexual.

Richard se hospedou no albergue. Ele tinha vários dólares no bolso, estava disposto a deixar tudo em Cuiabá. Tinha visto umas fotos na internet, parecia ser bacana. Mas então ele adentrou o tal Albergue do Pantanal. “Oh my Good! What a fuck?”

Resolveu que só daria uma rápida bimbada em Joana e sairia fora dalí urgente. Se o albergue com o selo internacional era assim, mal podia imaginar o resto da cidade. Não, definitivamente não era obrigado a aturar esse subdesenvolvimento de quartos pequenos sujos e sem ar-condicionado.

Marcaram de se encontrar no centro, ele foi olhando para o relógio, contando os minutos, doido pra acabar de vez com aquilo. Terminaram se agarrando no pequeno quarto coletivo do Albergue – Joana morava com os pais, cuiabanos de tchapa e cruz que não entendiam bem esse negócio de internet.

O vulcão Joana entrou em erupção. Quando cheguei no Albergue o canadense estava lá fazia algumas semanas. Não sei que fim levou, saí de lá antes dele. Provavelmente acabou deixando os dolares todos por ali mesmo.

Joanas… há 500 anos fazendo esse país turisticamente viavel.

Estou assistindo e lendo “O Povo Brasileiro”. É uma obra do antropólogo Darcy Ribeiro que deve ser lida e digerida com calma, muita calma. Aos interessados segue o link com o primeiro vídeo de um documentário produzido no ano de 2000, após sua morte. Não terminei de ver (nem de ler) ainda, mas fica a dica:

Avante…

A sensação de sair do avião deve ser sempre a mesma – afora um ou outro que chega nos únicos dois dias de frio do ano, é sempre a mesma porrada térmica: do ártico ar condicionado para o desértico calor natural. Os metereologistas nem devem ter muito trabalho por aqui. Desconfio que se repetirem todos os 365 dias do ano que a temperatura vai ser de sol e calor eles vão errar talvez duas vezes no ano. O que tá ótimo (em São Paulo eles erram esse tanto por dia).

Era dia 28 de fevereiro, um dia quente. É verdade que dessa vez era de madrugada. Não que seja grande coisa, o sol frita tanto a cidade durante o dia que a noite ela arde, mais ou menos nem sua pele quando você esquece de passar protetor na praia.

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Aeroporto internacional Marechal Cândido Rondon

O taxi me deixou no Albergue do Pantanal, um com o selo da famosa rede de Hostels conhecida internacionalmente. Aí tá uma dica aos viajantes: é sempre bom confiar no selo da Hostelling International. Eles seguem um padrão, quartos limpos, baratos, práticos e simples. Os viajantes profissionais, de carteirinha, costumam rodar o mundo nesses lugares. Dizem que um Hostel e um guia Lonely Planet é tudo o que você precisa pra rodar por aí. Os albergues são ótimo lugares pra conhecer gente, trocar informações e topar umas gatas. Eu mesmo já dormi em vários e posso dizer: vale a pena!

Outra dica importante é: não confie de jeito nenhum no Hostel de Cuiabá!

O sujeito que montou o “Albergue do Pantanal” é um pilantra de marca maior. Ele não teria a menor condição de adquirir uma bandeira de Albergue Internacional. A mais ridícula fiscalização o tiraria da lista, se é que ele faz parte dela. O problema é que esse negócio de fiscalização tá fora de moda por aqui desde a época em que a coroa portuguesa tinha interesse em impedir que garimpeiros saissem por ai com ouro sem pagar o devido quinto.

Dei-me o luxo de pegar o quarto mais caro. Sim, afinal não era mais um mochileiro qualquer, estava a negócios, mais especificamente indo trabalhar na afiliada da Rede Globo de Cuiabá! É meus amigos… mesmo que o salário não seja lá grandes coisa, o cargo exige certa pompa. É como ganhar um VIP para uma festa chique; você pode não ter dinheiro para tomar drinks caros, mas é bom agir como se tivesse o direito de estar alí.

Mas o recinto era pura decepção com cheirinho de mofo. O barulho do ar-condicionado lembrava a turbina do avião. O pó que saiu de lá de dentro e jorrou pelo quarto parecia um efeito especial de algum filme do Spilberg. Tirei os sapatos e enquanto procurava pelo chinelo uma barata tentou passar impune se escorando pela parede. Crunch! Esmaguei com o sapato.

Merda! Constatei que tinha esquecido o chinelo. Sempre esqueço a merda do chinelo. Caminhei flexionando o dedão apoiando a parte de trás e da frente numa espécie de arco. É uma técnica especial minha que visa tocar o mínimo possível o chão sujo com a palma do pé; adquiri esse dom após anos esquecendo os chinelos nas viagens, tanto que hoje em dia meu pé já adquiriu certa facilidade anatômica para o feito.

Tomei um banho para tirar o suor e deitei ao som da turbina do 767.

Respirei fundo… Sim, estava de volta!

Para a maioria essa é uma pergunta simples, basta olhar o verso do RG. Mas não deveria ser. A pergunta “de onde você é?” envolve muita coisa. Suas origens, raízes, sotaque. Poderia ser apenas uma questão geográfica; sou dalí, daqui, acolá, nasci longe, ou perto. Mas a geografia não é só um detalhe, é tudo.

Nasci ali, nas montanhas, perto do rio, respirando monóxido, no ar campestre. Sou da floresta, da selva de pedra, do carpete, da grama. Eu vim de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Amazonas, Nova Zelândia. E agora estou aqui, em Mato Grosso, pra, quem sabe, um dia no futuro dizer que vim daqui.

Mas no geral tomei a resolução: sou paulistano. Na verdade gaúcho de RG, mas fora o gosto por chimarrão seria injusto me proclamar gaúcho. Em casos como esse, ser paulistano é melhor. É uma cidade relativamente livre de tradições pétreas ou orgulhos bairristas. Não dá, por exemplo, pra olhar e dizer: “você tem cara de paulistano”. Paulistano não tem cara! Paulistano é árabe, japonês, negro, vermelho, branco, mas principalmente: cinza. É um tudo de um monte de coisas todas. Por isso já decidi que sempre é um alívio dizer que sou paulistano.

Isso que por um triz não nasci manauara. Poderia ostentar um RG com naturalidade de Manaus, Amazonas. Mas não deu certo. Minha mãe não confiava nos hospitais de lá e minha avó bateu o pé para que todos os netos fossem gaúchos! (e ela sempre diz isso batendo na mesa ou bradando o braço como colocando um ponto de exclamação depois do: gaúcho!). Mas sei lá, se nessa época me perguntassem e tivesse discernimento pra responder diria que não faria questão de ser gaúcho, podia nascer ali mesmo na selva, sem problemas. Não que não goste de ter nascido lá, mas é que essas coisas, no fundo, pouco importam. Por isso ser paulista é melhor.

Dizem que tem qualquer coisa de especial no primeiro ar que você respira. O primeiro contato dos pulmões com o clima externo, o sopro de vida invadindo o peito e encharcando os alvéolos com o ar úmido do Guaíba. Isso tudo pra semana seguinte se embrenhar no ar amazônico até os três anos de idade. De fato o ar de Porto Alegre tem qualquer coisa de especial pra mim, ou tinha. Lembro bem do cheiro da cidade quando desembarcava na rodoviária. Talvez, inconscientemente, aquele ar remetesse ao instante exato que o sangue borbulhou com o oxigênio do mundo exterior. Essas primeiras impressões do mundo ninguém te tira, nem tampouco explica. O fato é que tanto o ar na beira do Guaíba quanto no coração da floresta já não são mais os mesmos. Sinto falta do ar da Nova Zelândia, por exemplo, mas mais falta sinto do ar dos anos 80.

Morei os três primeiros anos da minha vida em Manaus. Não me lembro de nada daquele lugar, mas, de certa maneira , Manaus gerou meus primeiros padrões cerebrais. Rios, florestas, animais, umidade, calor, por alguns anos o entorno amazônico me moldou como um ser da floresta. Isso até meu pai resolver se mudar para São Paulo e eu adotar a selva de pedras como novo meio ambiente. Desde então subir em prédio e atravessar avenidas passou a ser meu modo habitat…

Talvez eu esteja apenas procurando outro bioma.

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NOTIFICAÇÃO

Um dia vou escrever toda a história do Hotel Panorama. Quero fazer isso depois que sair daqui, uma espécie de relato pós-guerra. Tinha planejado escrever trivialidades nesse meio tempo, falar sobre o clima, hábitos, costumes, mas, como os leitores mais assíduos devem ter percebido, uma tragédia se abateu sobre minha antiga máquina de escrevinhar. Sim, sinto informar, mas ela morreu.

Tudo aconteceu numa segunda-feira, quando voltei do serviço pronto para digitar umas palavras e encontrei meu computador morto. Acontece que a tia da limpeza fez o favor de deixar a janela do meu quarto aberta, dando passagem para uma nervosa enxurrada liquida que invadiu a placa mãe do computador. Sim, choveu, era um temporal. E eu que nunca havia sofrido com as intempéres da natureza me vi como um catarinense desabrigado. Foi uma imagem chocante, mais ou menos como abrir seu quarto e encontrar um velho amigo estripado, pendurado na parede, com sangue por todo canto.

Desde então travei uma batalha jurico-verbal-informal com o dono o hotel. Fato que pretendo contar com detalhes num futuro próximo, quando estiver devidamente instalado numa residência fixa, com ventilador próprio, descarga que funciona e livre de baratas. Por hora só escrevo essa pequena notificação para informar que estou vivo e com computador novo. Sim, pois não dá pra ficar viúvo muito tempo de tecnologia… Nóis vive em pulgueiros, mas conectado sempre!

Por incrível que pareça o verão aqui em Cuiabá é uma das épocas mais amenas. Isso se deve a forte incidência de chuvas. É quente de qualquer maneira, mas a umidade do ar dá uma refrescada. O problema aqui começa mesmo quando terminam as águas de março. Aí tudo fica seco e o rigor do calor, misturado com a fumaça das queimadas, transforma Cuiabá na morada perfeita do coisa-ruim.

Mas como ainda faltam alguns dias para as águas de março fecharem o verão, tratarei do inferno em outra oportunidade. Por ora falo sobre vapor. Enquanto escrevo essas linhas me delicio com o clima quente e úmido da capital mato-grossense. Lá fora o sol do meio dia derrama raios ultravioletas filtrados por grossas nuvens gordas. Aqui, no modesto quartinho do Hotel Panorama, o ventilador geme no teto, refrescando minha nuca molhada de suor. Quando chove, como acontece quase todo dia, o vapor é tanto, mas tanto, que se alguém borrifasse um eucalipto a cidade inteira seria como uma sauna a vapor.

Dias desses entrevistei uma climatologista para uma matéria sobre o Centro Geodésico. Ela explicou como funciona o clima aqui na cidade. Basicamente é assim: Cuiabá é o ponto mais central da América do Sul. Existe um monumento, uma espécie de obelisco (que fica bem do lado do meu hotel, inclusive), marcando o ponto mais central do continente. Ele foi colocado pela comissão Rondon, no ano de 1909. Para quem não sabe, Rondon é o cara que veio do Rio de Janeiro até o Amazonas pregando postes de telégrafos no caminho, o grande desbravador desse país, o herói mor de Mato Grosso. O cara! Não saber quem é Rondon em Mato Grosso é a mesma coisa que ir ao vaticano e perguntar quem é o papa. Você tem que saber quem é Rondon se quiser viver aqui!

Mas enfim, tem esse marco lá. Logo, Cuiabá é a cidade mais ao centro do continente. Isso não ajuda no clima, pois toda influência de ventos oceânicos é nula. A cidade fica a mais de 2 mil quilômetros do Atlântico e do Pacífico. Mar aqui é lenda! Pra piorar, a cidade foi feita numa baixada. Qualquer brisa que venha do Leste esbarra no Planalto Central, já lá no longe do Oeste existem as cordilheiras dos andes. Ou seja, Cuiabá é um buraco quente, um caldeirão de raios UV, sem brisa alguma, embarricada pelos Andes e pelo Planalto, sem qualquer respiro oceânico.

A tal climatologista explicou ainda que o único ventilador da cidade é a floresta Amazônica. Ou melhor, era, já que neguinho foi capaz de destruir o único sistema de ventilação da cidade para vender as peças. Ai, pra piorar, plantaram um monte de fazenda no lugar… latifúndios enormes, que avançam para o norte como uma ola num estádio batendo recordes de faturamento e incrementando o PIB nacional.

Hoje dizem, com orgulho, que o Estado é: o celeiro do Brasil! Alguns dizem até que é do mundo. O que não deixa de ser preocupante, pois, como diria o velho índio: colocar toda a comida da tribo num celeiro de palha num local inflamável? Rá! Quero ver o que indiozinho vai comer…

 

o que indio vai comer?

o que indio vai comer?

Voltei a trabalhar na TV em um momento de relativa tensão. Tudo por conta da mal-caratice das outras poucas emissoras que se aproveitam da ignorância de uns muitos. Veja só você, leitor das bandas de fora, que o esporte do momento em Mato Grosso é atirar pedras na TV Centro América, afiliada da Rede Globo em Cuiabá. Poderia tratar-se da tão esperada e almejada revolução apregoada pelos bolcheviques modernos, a tal revolução não televisionada… mas não! Tudo isso é por conta de uma lenda urbana que quer atribuir à emissora uma suposta má-vontade para com os projetos de “Cuiabá sub-sede da Copa de 2014″.

Mas quais motivos teriam os donos da emissora para tal ato? Aparentemente nenhum, mas jornais e programas de TV da Gazeta acusam a Centro América de boicotar Cuiabá na disputa. E é declarademante! Eles tem um programa que passa ao meio dia chamado “Cadeia Neles”, apresentado por um tal de Clovis Roberto. O sujeito é desses tipinhos que a gente vê na programação da Record ao redor do Brasil; eles parecem que são todos iguais. O fato é que o cara é um malandraço de primeira, começou a falar da concorrente e o negócio pegou.

Um dos motivos que ele alega é o de que o Seu Zahran, dono da Rede Matogrossense de Televisão, estaria de conluio com a emissora carioca para denegrir a imagem do Estado e facilitar as coisas para Campo Grande. Como argumento eles dizem que o empresário mora em Mato Grosso do Sul. Ai a paranóia foi geral: vereadores e deputados foram a tribuna, matérias acusatórias saíram nos jornais, o povo começou a reclamar e as equipes da TV Centro América passaram a ser hostilizadas nas ruas.

Não quero fazer o papel de advogado do diabo e defender a Globo, até porque não tenho procuração para tal nem ganho um salário de Suzana Vieira. Mesmo trabalhando lá tento manter um senso crítico e diria, sem titubear, que estava sendo armado um golpe nos bastidores, caso estivesse. Mas não, a coisa toda é bizarra demais, é pura paranóia urbana misturada com oportunismo dos concorrentes.

Em contra-partida, enquanto o povo perde tempo acusando a TV de boicotar os sonhos de Copa, o prefeito segue com uma propagandinha safada em horário nobre – ele colocou uns cuiabanos rindo e sambando pra no final dizer que se todo mundo pagar o IPTU direitinho a cidade vai ficar bonita pra receber os gringos. Meio cara de pau, mas vá lá…

Não sou especialista em Mato Grosso, mas tenho uma teoria para toda essa demência coletiva. Ao que parece, o estado está jogando no momento uma partida importantíssima contra seu maior adversário, Mato Grosso do Sul. A rixa entre os dois estados é antiga, remonta da década de 70, quando dividiram o antigo Mato Grosso em dois. Foram vários os motivos para a  míngua, um dia escrevo a respeito, mas o importante é que o cuiabano, ou melhor, o mato-grossense, odeia essa história de divisão. Desde então os dois estados vivem às turras numa rivalidade pior do que São Paulo x Rio, Porto Alegre x Curitiba, Manaus x Belém, juntas.

Aos poucos vou sacando o povo daqui. Eles parecem ser gente de brios fortes. Valorizam bastante a própria cultura e adoram tudo que sai desse chão. Mas, sei lá, parece que eles tem um tantinho de complexo de inferioridade. No fundo acho que é por conta do raio da separação. É como perder a mulher num divórcio, você sempre quer mostrar que está bem, que superou, que tá cagando e andando… mas lá no fundinho dá aquela raiva danada por terem te deixado.

Dizem que rixa sempre teve ares de superioridade por parte de MS. Eles comemoram todo ano o dia da “independência”, exibem números melhores no IDH, são orgulhosos das fazendas mais “modernas” e do Pantanal “mais desenvolvido”. Vendo a coisa toda por esse ângulo é fácil entender a força com que os mato-grossenses se apegaram a causa da “Copa”. Ser uma das 12 sub-sedes é uma revanche histórica! Seria como ganhar na loteria e passar de Mercedes na casa da ex-mulher.

Aqui em Cuiabá todo mundo está apreensivo, torcendo, rezando. Qualquer coisa que atrapalhe minimamente é passível de violentas reações, como, por exemplo, o que está acontecendo com a Centro América. Por isso eu digo: o povo e seus brios eu entendo…

Não entendo é os pilantras da Gazeta.

BARÃO DE MELGAÇO

Fotos by: myself

Cuiabá é uma cidade de clima extremo. Morar aqui deve ser algo parecido com o Saara ou a Antártida; não dá pra simplesmente sair por ai. Aqui as pessoas vivem em reverência ao meio, o clima é o ator principal. Faz calor o ano todo, tem um ou dois dias de frio, mas no geral morar aqui é girar incessantemente numa máquina de assar frango gigante.

Talvez por isso os cuiabanos sejam a evolução da espécie. Em uma era de aquecimento global, pode-se dizer que eles são o design do futuro. Talvez no dia em que a Europa começar a arder em 36 graus no inverno veremos um cuiabano passando de touca e luvas no Champs Elisée, como se nada estivesse acontecendo.

Por isso devemos aprender com eles! Recomendo a todos passar uma temporada por aqui a fim de aprimorar a genética. No começo pode ser complicado, mas com o tempo você aprende alguns truques. Um deles é: o suor é seu amigo. Sim, veja você, para a maioria dos paulistanos o suor é algo incomodo, nojento, chato, mas aqui ele faz parte, não adianta correr, ele sempre estará junto de ti. O que é bom, as raras brisas da cidade quando batem no pescoço melado são como breves respiros de hortelã.

Outra dica é economizar nas roupas. Não dá pra ficar trocando de camiseta duas ou três vezes ao dia. O jeito é vestir uma, suar, suar, suar e suar. Você vai ficar melado, mas com o tempo aprende que suor não é sinônimo de sujeira. Talvez em São Paulo seja, pois a transpiração se mistura com o CO2 e toda sujeirada da poluição, mas por aqui é só lubrificante glandular; garanto que se seu desodorante for bom nem vai cheira mal.

O lado bom da história é acordar. Dormir é um tanto dificil, mas acordar é um prazer. Levanto todo dia às seis da manhã para ir trabalhar e posso dizer: não existe sensação melhor! É como acordar ao meio dia, com um sol de rachar invadindo a janela e queimando tudo. Você levanta molhado de suor e vai direto pra baixo de uma ducha gelada.

Não existe maneira melhor de começar o dia.

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