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Memento

Aprendizado

Tinha dificuldade de aprender certas coisas. Menino novo, época de descoberta, muita coisa nova, cabecinha a mil por hora. Horas em relógio de ponteiro, por exemplo, era uma delas, saber a diferença de esquerda e direita, outra. Mas o que lhe deixava verdadeiramente em apuros naquela tarde de um dia perdido da década de 80 era não ter aprendido de uma vez por todas qual que era masculino e qual que era feminino. Sabia ler há pouco tempo, e, além do mais, ou era homí ou era mulhé, ou era macho ou era fêmea, esse negócio de masculino e feminino era palavra demais pras mesma coisa. Coçou a cabeça. Seria mais fácil se tivesse aqueles desenhinhos como tinha na maioria das vezes.

Tomou coragem e entrou. Cruzou a primeira parede de azulejo e viu uma morena de costas, nua, com a pele molhada segurando uma toalha branca. Ela virou com os seios descobertos, bicos grandes em auréola roxas. Subiu a toalha branca assustada, e ele, atônito, com o sangue fluindo diferente nas veias, finalmente aprendeu o significado da palavra feminino.

O suborno

Ela tinha aquele brilho curioso no olhar quando entregou o saco de doces para o irmãozinho. Ele, um tanto desconfiado, colocou no bolso e pensou um pouco. Não estava certo se devia contar.

- Conta, você prometeu.

De fato, promessa é dívida. Já estava com os doces, agora tinha que contar. Não tinha culpa se sabia mais que ela. Essas meninas nunca sabem de nada. Era algo tão normal, como ela podia ainda não saber. Logo ela que brincava tanto de boneca, fingia que era mamãe, como não podia saber como eram feitos os bebês?

- Conta logo…

- Tá bom.

Não foi uma descrição muito demorada, na verdade foi bem breve, mas que com a ajuda de algumas mímicas e gestos manuais acabou por ser um primor de elucides. No final levantou o dedo e disse:

- Se você contar pra mamãe que foi que te contei eu vou te bater…

E saiu correndo, abrindo o saco de doces e jogando uma jujubinha na boca. “Se você contar pra mamãe que foi eu quem te contou vou te bater”, gritou mais uma vez de longe. Ela, ainda parada no mesmo lugar, sem respirar direito e com a pele vermelha, só conseguiu dizer:

- Urgth , que nojo …

ALDEIA

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer.(…)

Fernando Pessoa

DINHEIRO PSICODÉLICO

Alguém da organização teve essa ideia de trocar dinheiro de verdade por “dálias”. No começo achei que eram dessas fichinhas que você compra e troca por cerveja, mas não, era dinheiro, dinheiro corrente mesmo. Você ia no caixa, ou casa de câmbio, e trocava seus 30, 50 ou 60 reais por fichinhas de papelão de 10, 5, ou 2 dálias. Tinha até o 50 dáliacents. O câmbio era o mesmo do real, o que facilitava um bocado.

Foi na virada do ano 2009, 2010, no festival Psicodália, em Santa Catarina. Uma tentativa de resgatar o velho e bom espírito rock`n roll. O lugar era fantástico, uma fazenda em Rio Negrinho, perto da divisa com o Paraná. O esquema era uma espécie de empreendimento turístico temático. Tão temático e direcionado que você não encontra em panfletos da CVC ou em anúncios de revistas especializadas, afinal, maluco que é maluco não vê anúncio, ouve falar. E foi de ouvir falar que cai lá no festival e me vi ali, naquela casa de câmbio, trocando meu dinheiro por “dálias”.

No fundo é uma tentativa de driblar o capitalismo, fazer a galera se desligar dessa coisa de grana, real, economia – pra ter uma ideia, nem celular pegava no lugar, o que no fundo deve ter sido cuidadosamente pensado. Enfim, foi uma tentativa. Não diria frustrada, mas uma tentativa. É que o capitalismo é foda, ele acaba englobando tudo, é que nem aquele filme “A coisa”, que as pessoas comem e o troço cresce se esparramando. Não tem jeito, evento é evento! Pra começar você paga 100 reais para participar, eles te dão uma pulserinha e só entra quem paga. Não é nenhuma putaria histórica como o Woodstock ou uma sociedade alternativa à la Serguei. Mas é uma tentativa. E tentativas são sempre válidas.

Uma vez lá dentro e com as devidas dálias em mãos, o sujeito pode começar a consumir cerveja, comida, suvenires. O preço é honesto: duas dálias por uma Antarctica, três por um x-burguer e quatro por um quarto de pizza. E o que é melhor: preço redondo! O simples fato de passar o ano novo em um lugar com os preços assim já é um golpe no sistema capitalista, um indicativo de progresso. Nada de 2,95 ou 3,80. Não! no máximo cinqüenta centavos pra quebrar uma coisinha ou outra, mas a maioria: preço redondo! Justamente como o mundo deveria ser! Sem enganações subliminares.

No começo me intrigava saber como os organizadores conseguiam manter um preço honesto nos produtos em uma fazenda distante em Rio Negrinho, interior de Santa Catarina. Eles devem ter comprado uma caralhada de cerveja, pizza e pão, colocado tudo em caminhões e levado pra lá. Se pensarmos que tem ainda a mão-de-obra dando duro em pleno réveillon, fica difícil imaginar como vender tão barato. Mas logo descobrimos que a política de manutenção de preços envolvia o pagamento de imposto na hora de escoar a mercadoria consumida. Em outras palavras: na hora de cagar.

Os banheiros eram péssimos, o que, de alguma maneira, deve ter sido pensado pelo departamento financeiro e de marketing juntos. Nada de dinheiro, celular e privadas limpas. O espírito é usar o mato, gente! E nada de gastar com faxineiras, é melhor usar essa grana para subsidiar os alimentos.

Economicamente pensando o tributo também facilitou na manutenção da oferta de comida, controlando a demanda. Sim, pois nos primeiros dias os preços baixos geraram uma corrida pelo consumo irracional. É normal, as pessoas compram mesmo, especialmente se estiverem vindo de grandes centros urbanos, como São Paulo. Quando que você vai achar um x-calabresa por três reais na paulicéia desvairada? “Então me vê logo três que é o que eu to acostumado a pagar!”

O estoque do Dog Dylan, o hambúrguer mais procurado pelos lariquentos de plantão, sofreu um duro golpe e teve que trocar a carne de hambúrguer por ovo frito. Os consumidores não gostaram muito, mas a política de manutenção de preços continuou. Em uma reunião de emergência eles devem ter optado por essa ousada estratégia.

A situação dos banheiros ficou calamitosa. Todo o estoque do Dog Dylan estava lá, exposta, esparramada. Quando um companheiro tinha que cumprir com as necessidades fisiológicas era como se tivesse sido pego na malha fina do imposto de renda. Batia um desespero e a comoção era geral: “vá lá amigo, força, vai dar certo”.

Claro que medidas extremas levam a reações radicais. Um sujeito cansado do alto valor tributário resolveu se manifestar e cagou dentro do chuveiro. Do lado de fora uma fila de gaúchos com a toalhinha debaixo do braço protestava indignada: “Bá, mas que filho da puta!”. “Sem comentários”. “Que consideração um cara desse tem pelo festival?”. “Bá, se eu pego, dou uma surra de pau”. Pelo tanto de reações negativas deu pra perceber que o ato de desobediência civil não foi muito bem vindo dentro do contexto do festival. As pessoas aceitaram ter dificuldade para cagar. E isso também pode significar um duro golpe no sistema. O simples fato de refletir sobre os próprios dejetos talvez já seja um golpe no sistema capitalista. No próximo festival eles deveriam ir além e prover dessas privadas ecológicas. Todo mundo cagaria no mesmo lugar e depois, em um evento coletivo, a bosta seria apresentada, pesada e transformada em adubo para canabis satiris.

Mas o festival foi legal. No fundo deu pra sentir uma leve mudança. Talvez no geral a coisa ainda esteja engatinhando, mas há certa boa vontade no pessoal que estava lá. E boa vontade é essencial, mesmo que o pensamento ainda esteja um tanto perdido. Por exemplo, ví uma garota indignada recolhendo latinhas de cerveja do chão e gritando discursinhos ambientais moralistas e vazios; uma prova de que o pensamento ecológico muitas vezes ainda está estagnado no “não jogue lixo no chão”. Tenho um amigo em Cuiabá que quer começar a campanha: jogue seu lixo na rua. É disso que o mundo precisa! Chega de privadas que levam a bosta embora facilmente, chega de coleta de lixo que só escondem o problema. A gente precisa se confrontar com nossos próprios dejetos e refletir no tanto que consumimos. O problema não está nas latinhas no chão, está na hora de comprá-las, está na opção de não investir em retornáveis, está no ímpeto de fabricá-las.

Mas como disse, o que importa é a boa vontade. Boa vontade de fazer um festival, de curtir um som com a galera, de tentar mudar, de refletir. No reveillon deste ano senti que o ano começou cheio de boa vontade. Agora a gente só tem que aprender o que fazer com ela.

SEDUÇÃO E CRIME

Após entrevistarmos o delegado da Delegacia de Roubo e Furto de Veículos, fomos até a cela onde estavam presos os membros da quadrilha. Franck, o cinegrafista; Wanderson, o auxiliar; Malu, a repórter e eu, fotógrafo do site, mal conseguíamos conter a curiosidade: Queríamos ver a jovem de 25 anos que era usada como isca para seduzir e depois roubar velhos senhores de posses de Cuiabá.

- Vira a cara PORRA! Na hora de roubar é muito macho, né! – gritou o investigador batendo na grade com um cassetete. O jovem líder da quadrilha até mostrou o rosto, mas as lentes das câmeras não tinham muito interesse nele, apenas na jovem que ajeitava o cabelo e tentava parecer bela.

O delegado já havia nos alertado para os baixos dotes físicos da “sedutora” alguns minutos antes: “É foda, se for pra aprontar podia ser pelo menos com alguma coisa que preste. Tá na cara que é bandida! Ô bichinha judiada!”. Malu a repórter, não gostou do comentário, mas o delegado não deu importância e continuou a falar olhando para a ala masculina da equipe. “Eu até podia dizer o nome da vítima, mas isso ia acabar com o casamento dele. A gente não quer uma coisa dessas, né?”. Câmera e microfone ligados, ele se ajeitou na cadeira: “Os meliantes foram presos em Várzea Grande. Trata-se de uma quadrilha perigosa, que já era investigada há muito tempo por nós” – Sempre que a polícia prende uma quadrilha a versão oficial é de que eles já “eram investigados há muito tempo”. Na maioria das vezes é balela.

- Faz uma pose sensual – disse para a jovem. Ela sorriu e ajeitou o cabelo.

- Sensual? – repetiu entre o brava e o lisonjeada.

Fazê-la sensual era uma tarefa difícil. A jovem era como um cão sarnento. A pele, judiada pela droga, pulsava em manchas brancas, o rosto, talhado pelo sofrimento, era reto e duro. Tentei descontrair um pouco para ver se ajudava: “Então você que é a sedutora de rapazes?”. O sorriso e a fala revelaram parte da verdade: “Falar até papagaio fala”, disse no melhor linguajar malandrístico. “Quero ver é provar!”.

Clicava a moça na esperança de obter uma foto minimamente digna. Talvez os olhos, sim, os olhos poderiam dizer alguma coisa. Se conseguisse capturar toda a essência sedutora da jovem. Queria imprimir em uma imagem toda a magia que fez o senhor de 70 anos se entregar. Se ela tinha algo que enfeitiçou aquele senhor, queria que os leitores descobrissem, olhassem para a foto e entendessem. Só mais tarde, quando o editor olhou a foto e perguntou: “Cara, isso é homem ou mulher?”, descobri que falhei na missão.

No carro, a caminho da redação, tentávamos entender o que leva um homem de posses a se envolver com uma jovem daquele tipo: “Com a grana que ele tem, podia ir na Cristal e pegar a menina mais bonita”, argumentou Franck, o cinegrafista, citando um famoso e caro puteiro de Cuiabá. “É um safado, pilantra, tinha mesmo é que se dar mal. Foi bem feito!”, disse Malu, a repórter.

Já na redação a história correu como rastilho de pólvora. Todo mundo queria dar pitaco: “ô velho é safado”. “Que burro!”. “Com a grana dele podia pegar coisa melhor”. A matéria foi uma das mais acessadas do site no dia. Por algum estranho motivo as pessoas gostam de ver histórias como essa. Dá ibope! A cena da redação deve ter se repetido em milhares de outras salas e departamentos de Mato Grosso, todo mundo querendo entender porquê um homem de tanto dinheiro foi se envolver com uma bandida sarnenta se podia pegar coisa muito melhor na “Cristal”.

Eu, já acho que o caso é mais uma prova de que dinheiro não é tudo nessa vida. O velho até poderia conseguir peitinho mais durinhos e pele mais sedosa na Cristal, mas e toda a emoção de estar sendo “amado” e “desejado” novamente? Talvez ele já tivesse se frustrado na compra do seu Citroen C4 Pallas, no fundo não era bem aquela satisfação que procurava. Também não queria mais transar com prostitutas que só pensavam no seu dinheiro. Queria sentir o frescor da juventude novamente. Queria sentir-se selvagem. E essa era a essência da foto que eu não consegui capturar… Essa era a essência da sedutora!

A memória humana costuma se subdividir em períodos históricos. Já tivemos o feudalismo, o iluminismo, o modernismo, o pós-modernismo e agora vivemos o pré-apocalipse. Não que eu creia e propague essa besteira de 2012 e calendário Maia; abstrações desse tipo só confundem ainda mais o entendimento da realidade. Na verdade, nem acredito em apocalipse e nem que o mundo vá, de fato, acabar. Quando digo que vivemos o período pré-apocalipse quero dizer que esse é nosso espírito, nosso zeitgeist, nossa motivação.

Independente se você é do time do Nostradamus ou da Pollyanna, o fim do mundo é o que nos move. Todo o pensamento humano contemporâneo é voltado para um possível fim ou recomeço da humanidade como um todo. Tudo bem que essa história de fim de mundo é antiga, já se discutia isso lá nos porões da Bretanha medieval, mas a paixão e desdém que envolve o tema hoje em dia é deveras peculiar. O apocalipse nos fascina e nos entedia. É uma espécie de voyeurismo obtuso, onde nos deliciamos em telas de LCD sem saber se o que vemos é Hollywood ou o Jornal Nacional.

Enquanto o assunto deveria despertar pânico em tempos idos, hoje em dia a gente literalmente caga pra ele. “É o fim do mundo”, dizemos enquanto imagens de alagamento passam na TV. Mas e daí? No fundo a gente se acostumou com esse fim. Somos como um senhor velho com um câncer diagnosticado. Somos um José Alencar da vida. Um sujeito que segue vivendo, sorrindo pra morte, crente de que de uma hora pra outra pode bater as botas.

Nossa doença já foi diagnosticada. Aquecimento global! Os que negam são apenas parte da nossa própria negação, já os ambientalistas são apenas parte daquela consciência dizendo que somos velhos o bastante para continuar fumando e enchendo a cara. O fato é: a doença existe! Pela primeira vez na história da humanidade temos de lidar com a nossa própria: possível morte em espécie. Durante séculos especulou-se e filosofou-se sobre o apocalipse e nós temos o bizarro privilégio de ser a primeira geração a talvez presenciar o começo dele. “É o fim do mundo”, repetimos como um mantra em nossas salas de estar com ar-condicionado vendo cenas de São Luis do Paraitinga alagada pulsando em HDTV.

E é por isso que até acharem outro nome melhor eu continuo a chamar nossa época de Pré-apocalipse. Onde igrejas desabam, a terra aquece, a chuva alaga, os morros deslizam e o Big Brother Brasil se prepara para bater novo recorde de audiência…

É TEMPO DE DESISTIR

Este não é mais um daqueles textos de fim de ano dizendo o que você deve ou não fazer. Nem tampouco tem qualquer intenção de mostrar caminhos, ou iluminar a sua mente para o que está por vir. Este texto é pura e simplesmente uma carta de desistência. Um desabafo de um habitante de um pálido ponto azul perdido no espaço que jogou a toalha e desistiu de tentar entender o que é tudo isso.

Mundo, sociedade, ser humano, matéria, ciência, religião. Abri mão. A verdade não existe, e não está lá fora. Ninguém vai ser capaz de montar uma equação e explicar exatamente o que diabos é… isso. Esses anos incessantes de busca não nos trouxeram nada demais. Por milênios olhamos para o céu e procuramos respostas. Hoje, tudo o que temos é um céu encoberto por prédios e nenhuma resposta. Criamos pirâmides, arranha-céus, bombas-atômicas. Inventamos as horas, os dias, os anos. Mapeamos o mundo, os mares, os céus. E quando parece que estamos chegando perto de alguma coisa: nada! Nossa minúscula poeira cósmica está prestes a entrar em colapso por conta dessa busca incessante de tentar entender o que é… a poeira cósmica. Quanto mais o tempo passa, mais a gente tem medo de morrer. Temos medo de doenças, de acidentes, de bandidos, de maníacos. Se pelo menos pudéssemos saber qual o sentido de tudo isso? Mas não, somos formigas num aquário. Não somos nada. Apenas ignorância e medo.

Por séculos tentamos fugir da nossa verdadeira vocação: a ignorância. O homem é o bicho mais ignorante de todos porque o sabe que é. A gente tenta esconder isso atrás de ideologias e pensamentos políticos, como se uma idéia fosse melhor que as outras, ou servisse pra explicar algo. Existe um supermercado de ideologias, todas para satisfazer o hábito de consumo da nossa ignorância.

E é por isso que em 2009 eu resolvi desistir. Foda-se os mistérios do planeta, dane-se o enigma do universo. Daqui pra frente eu só quero saber de viver e curtir o aquário. Se Deus existe, ótimo, então eu acredito, se não, dane-se, acredito mesmo assim. Deixemos as explicações na mão de Deus (qualquer que seja ele), pois isso conforta. A ciência não prova nada, nem nunca provou. São apenas um bando de esquizofrênicos que nós deram ares-condicionados e depois disseram que esquentamos o planeta cada vez que os ligamos. Eu não pedi chuveiro elétrico, eu não pedi carro movido a gasolina, não pedi computadores, nem batata chips. O mundo impõe, a gente aceita.

No fundo essa sociedade é uma grande invasão. Nós, indivíduos, somos uma tribo de bororos indefesos sendo invadidos a todo instante por novidades essenciais. Como podíamos viver sem geladeira? E sem telefone celular? E sem internet? Criamos coisas para nosso conforto e segurança, enquanto que antigamente tudo o que nos ameaçava era uma ou outra onça na floresta. Hoje em dia morrer de onça é um luxo! Eu quero morrer de onça! Não quero é morrer de gripe suína, nem de tiro, nem de acidente de carro. Para nos defender das onças nós criamos uma série de outras ameaças e para nos defender dessas ameaças a gente criou outras ainda piores, até que conseguimos ser uma ameaça a nós mesmos.

Então eu desisto. Vou vivendo na esperança de ser morto dignamente por uma onça. Enquanto isso não acontece, sigo curtindo minha ignorância e experimentando sensações. O calor, o frio, o doce, o salgado, a paz, o ódio e o amor… ah, o amor! O amor é importante, porra! Desliguem o acelerador de partículas e aproveitem o amor. Ele explica muito mais coisas do que o modelo atômico de Einstein.

Um Feliz 2010 Para Todos Vocês!

BELEZA PURA

E eis que me encontro em uma mesa de jurados para um concurso de beleza. O tal Miss Peladão. Não entenda mal, caro leitor. Não se trata de peladões, propriamente dito. Miss Peladão foi o nome encontrado pelo prefeito para homenagear as musas dos times locais da pelada oficial promovida pelo município. Logo, peladão é referente apenas a pelada futebolística. Eram mulheres, e estavam vestidas. Ou parcialmente vestidas.

Não sei bem como fui cair ali. A Dorian, editora de esportes que me arrumou essa. Ligou no meu ramal e disse: “você foi convocado para ser jurado do miss peladão”. É aí que está a armadilha. “Convocado”. Ela usou bem a palavra. Ser convocado para alguma coisa é gratificante. Você imagina chegando um convite em seu nome, requerendo a sua presença. Balela. Provavelmente o pessoal da organização ligou na redação e disse: “temos umavagas para jurado, manda alguém”, e ela ligou pro primeiro ramal que veio na mente. E eu atendi o telefone. “Você foi convocado”.

Não sou afeito a concursos de beleza. Sou até meio contra. Afinal, pra que servem concursos de beleza? Umas mulheres desfilando de maiô, empinando o bumbum, e um bando de jurados bobos dando nota para a “simpatia” ou “carisma” das candidatas. Além do mais, o que você faz com um título de Miss Peladão? Claro, tem a grana, sete mil reais saídos diretamente dos cofres públicos, mas fora isso, qual o prazer de chegar e dizer: “oi, eu sou a Miss Peladão 2009”. É tão sem sentido quanto dizer: “Oi, eu sou a ganhadora da sétima edição do BBB”. É pura perda de tempo! A não ser para os sujeitos que comem as misses peladões e as ex-BBBs. Ah, esses podem tirar onda. Nos meus tenros 20 anos fiquei com a garota mais linda que jamais um mortal do meu porte poderia almejar. Obviamente que ela rapidamente se deu conta da besteira que estava fazendo, mas, no entanto, bem mais tarde, quando provavelmente já tinha me esquecido, ela concorreu para ser miss brasileirão pelo São Paulo F.C. Não sei o que ela ia ganhar com isso, mas eu, sem dúvida, ganhei mais respeito dos meus amigos. Se ela ganhasse eu viraria lenda na turma: o cara que comeu a miss brasileirão no passado. Mas ela perdeu. E eu voltei a ser aquele sujeito que nunca vai traçar uma ex-BBB, capa de playboy ou miss qualquer coisa.

Mas enfim. Meu nome foi anunciado para compor a mesa de jurados. Sentei ao lado de uma arquiteta gostosa, loira, com anéis, correntes de ouro e um sorriso artificialmente branco e vazio. Do outro lado um sujeito estranho, que colocava as notas no papel e escondia com a mão, com medo de alguém pudesse conferir o que estava escrevendo. Era uma pastinha com a lista dos nomes das candidatas e três quadradinhos ao lado: um para a simpatia de biquíni; outro para a simpatia de vestido e o último para a soma de ambas simpatias. Tivesse aquele sujeito ao meu lado escrito normalmente, sem frescuras ou preocupação, acho que não ligaria. A arquiteta do outro lado deixou a lista com as notas à mostra o tempo todo e não lembro de ter espiado nenhuma vez. Mas daquele sujeito mascarado, que escrevia e logo em seguida colocava a mão para ocultar, ah… as notas dele eu precisava ver. Gastei boa parte da minha atenção espiando seus movimentos, o que restava eu concentrava nas bundas… ou melhor, na simpatia, das candidatas. Fiquei um tanto indignado dele ter dado 8 para a mais “simpática”.

No fim ganhou a que queria. Uma negra de grande porte e sorriso cândido. Dei 10 para ela em todas as categorias. Votei mais pela atitude étnica do que pela “simpatia” propriamente dita; a maioria das candidatas negras tinham o cabelo alisado, mas ela não. Conservava cachos portentosos, selvagens e negros. Era, sem dúvida, a beleza natural mais atraente por detrás das toneladas de maquiagem obrigatórias. De bunda não era tanto, mas como sinal dos novos tempo achei por dever exercer um voto político e não bundístico. Ana Paula Suribi, era seu nome. Beleza pura. Confesso que fiquei feliz dela ter ganhado. Sinais dos novos tempos, em que, se deus quiser, cachos orgulhosos surgirão para derrubar a ditadura dos alisamentos. Pena que esse caminho tenha que ser percorrido através de “concursos de beleza”.

DA VARANDA LÁ DE CASA

Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.

Manoel de Barros

Uma mangueira é uma coisa cara. Não é qualquer um que pode ter uma mangueira. Um empresário com uma cobertura nos Jardins não pode ter uma mangueira. Se ele realmente quiser vai ter que investir: Reforma, adubo, tempo, atenção, cuidado e, mesmo assim, corre o risco de não dar certo. Ter uma mangueira que dê manga todo ano é coisa chique, pra lá de chique! Sim, pois a não ser que o tal empresário da cobertura esteja disposto a transformar sua piscina em um vazo gigante de terra e plantar uma mangueira enorme, ele nunca vai poder ter uma dessas. É muito mais barato pra ele investir em bens menores como uma esteira ergométrica ou numa TV de plasma nova.

Aqui na rua de casa existem várias mangueiras. E de graça. Têm também pé de acerola e de caju. Tudo for free! Mas o fato é que ser “de grátis” não torna a mangueira menos cara. Sim, pois mesmo de graça o tal empresário não pode pagar pra curtir uma sombrinha no meio-dia agitado da metrópole. O camarada pode almoçar no restaurante mais caro de São Paulo, mas o luxo de sentar numa cadeira de tira depois do almoço sob a sombra de uma mangueira ao lado de um rio, ah, é um luxo caro demais até para o Bill Gates.

É por isso que acho que sou um desses sujeitos que caminha a passos largos para a riqueza. Primeiro que não trabalho loucamente. Às vezes, durante à tarde, vou até o parque passear; recolho umas acerolas no caminho e vou mascando vitamina C. Leio o jornal à tarde, assisto o pôr do sol todos santo dia e tomo um suco de graviola. Quando chove dá pra passear no calor úmido, pegar uns cajus, sentar a toa no meio fio. Às vezes, dependendo da disposição, dá pra ir nadar no rio.

Mato Grosso é um estado de gente muito rica. Como uma senhora que conheci em Diamantino. Ela acordava cedo, passava um café, arrumava o casebre e ia pra rua curtir um cigarrinho de palha. Embaixo de uma mangueira, sentava em uma cadeira de tiras e esperava o tempo passar soltando fumaça. Eu, recém chegado da pobreza, jornalista foca de um semanário perdido no médio norte, admirava com bons olhos essa rotina. Era, sem dúvida, a senhora mais rica que conheci na vida.

Quanto você pagaria por uma sombrinha e umas mangas?

A VIDA DE PASSAGEM

Passagem da Conceição é uma pequena vila de pescadores próximo de Várzea Grande. Com um ritmo pacato, os moradores observam o crescimento frenético de Cuiabá de longe, na beira do rio, sem pressa.

O vilarejo tem esse nome porque em 1814 um barqueiro de nome Conceição costumava atravessar os moradores de um lado para o outro do rio. Hoje, quase duzentos anos depois, pouca coisa mudou. Quem faz a travessia (foto acima) ainda são os parentes do seu Conceição. Dois irmãos que trabalham para a Prefeitura e tem o trabalho de remar os moradores de um lado paro outro do rio.

Dizem que o editor do Jornal Hoje mora numa cobertura no Morombi. Me parece que o editor do Jornal Nacional é vizinho dele. Ouvi dizer que o do Bom Dia Brasil tem uma cobertura no Leblon e o do Jornal da Globo uma nos jardins. Quatro dos sujeitos mais poderosos do jornalismo da Rede Globo moram assim: em torres luxuosas há alguns quilômetros da realidade da população brasileira. No calar da noite, o quarteto deve vislumbrar as maiores e mais importantes cidades do Brasil de cima, com milhões de luzinhas acesas, imaginando os televisores ligados e a influência que exercem sobre essas infinitas cabecinhas. Continuar Lendo »

Claro que a primeira imobiliária seria a tal MT Imóveis. No momento em que essa parte da narrativa se passa, já tinha alugado um apartamento em um outro ponto da cidade há meses. Mas o gostinho da vingança ainda permanecia alí, escondido em algum canto. Na entrada percebi que trocaram a recepcionista. Lá dentro a corretora também era outra, mas reparei nos cantos que a cúpula permanecia: o gerente, o chefão da salinha de vidro e o gordão; provavelmente com a mesma camisa, palitando os dentes. Continuar Lendo »

O Rio Grande do Sul é um lugarzinho que me intriga. Nasci lá e boa parte dos parentes são de lá, mas não me sinto gaúcho. Primeiro porque durante a vida toda vi os gaúchos serem achincalhados sexualmente; cresci em uma sociedade na qual gaúcho é sinônimo de gay. Claro que isso é algo que dá pra relevar, no fundo deve ser como ser são-paulino, ou ser criado pela avó. O fato é que fiquei tanto tempo longe da cultura, tradição e jeito gaúcho que seria injusto sair por aí dizendo que eu sou gaúcho. Além do mais, os gaúchos tem um papel ambíguo na “conquista” de Mato Grosso. Muitos vieram para cá, grilaram terra, desmataram, montaram latifúndios, deram prejuízo pro Banco do Brasil. Além do mais, também não sou muito fã do bairrismo de alguns deles, gente que acha que qualquer coisa que não seja um grenal, o Guaíba, um chimarrão e um churrasco de bombacha, não é algo que preste.

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Pelo o que ela explicou, pagaríamos um aluguel adiantado, no mês seguinte pagaríamos outro. O primeiro era para eles, para pagar pelo serviço de entregar a chave. No outro o dono do imóvel já começaria a receber. Não iria fazer muita diferença no começo, só ia doer na hora sair, pois “pagaríamos” quando fossemos deixar o imóvel. Acho que é aí que está a malandragem, ninguém reclama porque na hora de entrar a facada fica lá paradinha, só dói na hora de tirar. Continuar Lendo »

Lá dentro, uma recepcionista morena chocolate, de corpo galgaz, seios na medida e um olhar obliquo, apertou o botão da porta de vidro liberando nossa entrada e a saída da fria corrente do ar-condicionado. Não concedeu olhares nem abriu sorrisos fáceis, fez somente até onde o protocolo recepcionistico manda e indicou o caminho com o dedo. Entramos na salinha dos corretores. Ar condicionado no último, duas escrivaninhas, um gordão no canto palitando os dentes, e uma corretora de uniforme. “Pois não”, disse. “Oi, tudo bem? Estamos procurando lugar pra morar”.

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O ventilador range no teto e os primeiros raios quentes começam a consumir os 70% da umidade relativa do ar chuvoso de abril na capital mato-grossense. Levantei preocupado, já iam fechar dois meses no Hotel Panorama e nada de achar casa pra alugar. Combinei de dividir teto com um atleticano que conheci no albergue. Júlio, era seu nome. Estava chegando de Belo Horizonte, pegou as coisas colocou no carro e veio. Chegou espalhando a notícia de que o trem tava brabo lá praqueles cantos. Tinha vindo tentar a carreira de professor no promissor mercado do Velho Oeste. Caso não desse certo ia para Palmas, senão Manaus, senão Venezuela, senão, por fim, tentaria entrar rastejando pela fronteira americana. Deu certo, e logo de cara. A coisa funcionou mais ou menos assim. Chegou em Cuiabá no feriado, pegou o carro e resolver esperar no Pantanal, lá encontrou o reitor de uma faculdade, beberam uma, comeram churrasquinho e o cara disse: “Você é formado em que?”. “Em Turismo”, respondeu. “Tem mestrado?”. “Tenho”. “Em que?”. “Educação Ambiental”. “Mas você dá aula de qualquer coisa?”. “Uai, dô ué”. “É que tem uma vaga pra professor de administração, topa?”… “Uh, que maravilha, satisfação”. Pegou o emprego. Mas não ficou muito. Chamaram ele pra outra universidade semanas depois. Alguns meses e já tinha preenchido toda a carga horária na maior universidade particular do estado. Um semestre depois virou coordenador. Viajou para o exterior no fim do primeiro ano. Comprou uma fazenda no segundo. Financiou o mundial do galo dez anos depois e elegeu-se governador com 50 anos. Isso, é claro, em outro tempo espaço, pois aquele sujeito que batia na porta do meu quarto vestindo uma camiseta surrada do atlético mineiro ainda era o semi-desempregado que tinha todas as fichas na mesa da roleta do destino.

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ADAPTAÇÃO

O calor de Cuiabá é lendário. Acho que não existe nada parecido no mundo. Você não pode simplesmente: dar uma andadinha por aí. É um lugar de clima extremo. Deve ser como morar na Sibéria, você não sai de casa sem antes colocar um capote, luvas, gorro, botas. Aqui, sair com sol a pino requer a mesma preparação prévia: óculos escuros, filtro solar, chapéu.

Mas a verdade é que com o tempo você se adapta. Claro, a não ser que você seja como aquelas flores silvestres inadaptáveis que morrem a uma diferença de temperatura de dois graus – até existem algumas delas por aqui, mas todas vivem em estufas de ar condicionado, sem derreter e fundir as células do corpo no solzinho de 40 graus. Mas é como digo: adaptação é fundamental.

Pretendo viver sem ar-condicionado por um bom tempo. Não só por questões financeiras e ambientais, mas por adaptação mesmo. Todas as noites frito na cama rolando de um lado para o outro expelindo suor, girando como um frango em assadeira de padaria, sendo cozinhado por um pequeno ventilador que funciona mais como ventoinha do que como refresco. Mas o que me consola é que em algum lugar minhas células lutam bravamente para manterem-se vivas. E isso é adaptação!

Às vezes é difícil. A água que saí do encanamento já vem quente  (um sujeito que vai ganhar um bom dinheiro em Cuiabá é o que inventar um chuveiro elétrico que resfrie água encanada).  Mas com o tempo você descobre que existem vários níveis de calor. Dizem que na Groelândia eles têm mais de 300 palavras pra definir o branco por causa da neve, se eu tivesse tempo e disposição criava o mesmo tanto para definir níveis de calor. Você aprende a identificar temperaturas, sabe que acender o fogão vai te fazer sofrer, que colocar uma toalha molhada em cima do ventilador ameniza, que passar de bike em frente ao parque refresca, que o asfalto é quase carvão em brasa e que o valor de uma árvore não tem preço.

Adaptação

Adaptação

ESGOTO A CÉU ABERTO

“Existe um tipo de obra muito impopular na construção civil. É o trabalho sujo, aquele que não aparece quando pronto, causa muito transtorno na execução e só é lembrado quando é mal feito(…)”.

Na noite de domingo, após alguns copos de café, digitava estas primeiras palavras. Era o início de um texto que nunca foi publicado sobre a empresa Cuiabá Saneamento. O “trabalho sujo” era uma referência a tarefa em si, de sanear esgotos, mexer com dejetos humanos, encanamento. Sujo mesmo, de sujeira! Estava escrevendo para uma revista de São Paulo, uma dessas publicações apelidadas pelos bussenessesmans de: House-Organs. Geralmente bancadas por empresários barrigudos que sabem bem a importância social que tem uma fotinho margeada por um bom texto elogioso.

Chamei um dos melhores fotógrafos que conheci por essas bandas, Silvio Esgalha, um bom homem, apaixonado por pássaros e natureza. Conheci o sujeito durante a “Caminhada da Natureza” em Coxipó do Ouro, distrito de Cuiabá. A tal caminhada é um projeto da Prefeitura que visa incentivar as pessoas a caminhar no mato. Nada muito grandioso, nem eficiente. Alguns poucos membros da imprensa apareceram por lá, quase tão poucos quantos os participantes em si. Eu mesmo não fui a trabalho; meu amigo Júlio, turismólogo, teve a idéia de ir de bike, cerca de 40 km por estrada de chão. Fomos, e lá estava Sílvio, batendo algumas fotos para a Prefeitura. Caminhada, rios, árvores, animais e, no fim: cerveja. Nada como uma gelada num bar para revelar a natureza humana. Lembraria de Silvio quando tivesse a oportunidade.

“Grande Silvio”.

“Fala garoto, tudo bem?”.

“Tudo. Como vai o trabalho?”.

“Bem graças a deus”.

“Me diz uma coisa, você só fotografa natureza mesmo?”.

“Sim”.

“Então tenho um trabalho pra você”.

“Manda lá”.

“Fotografar umas espécies raras de empresários mato-grossenses”.

“Vamos nessa”.

Não tive muita informação da editora lá de São Paulo sobre como conduzir exatamente a matéria. Teria que ligar para um tal de Borges, o contato da empresa no estado. Até liguei, mas o cara tinha recém voltado de férias do Nordeste e ainda estava no slow motion. Resolvi ir atrás dos contatos por conta própria.

Era um trabalhinho simples, pouca grana, jogo rápido. Essas revistas funcionam assim, um agrado jornalístico, mais ou menos como uma caixa de bombom com o logo da empresa.

Até o momento a coisa mais especial que a Cuiabano Saneametos tinha para a mídia era o fato deles terem comprados 12 tratores da Cater Pilar (empresa dona da revista), motivo principal de um jornalista freelancer (no caso eu) estar sentado na sala de reunião com a diretoria da empresa. Na minha frente estavam dois dos quatro donos do Consórcio, um engenheiro responsável e um deputado estadual.

Eles explicaram que iam limpar o esgoto da cidade com as obras do PAC. Disseram que atualmente apenas 20% da cidade têm coleta de esgoto e demonstraram grande interesse em “salvar o pantanal”. Falaram de sustentabilidade e da importância de limpar a cidade.

(…)É um projeto grandioso, só em Cuiabá são R$ 230 milhões que serão investidos até o inicio de 2011. O Estado vai entrar com 18 milhões, a Prefeitura com 40 milhões e o restante virá direto do Governo Federal através do PAC. “As coisas demoram, mas geralmente chegam em um momento oportuno. Com essa conscientização ambiental, uma obra dessas ganha outra dimensão”, acredita Antônio. O empresário diz que Cuiabá deu um grande salto no começo dos anos 70, mas que agora o Brasil está pronto para redescobrir Cuiabá. “Com essas obras vamos crescer muito. E o que é melhor, crescer de forma sustentável”. (…)

Um dos empresários fez uma proposta de trabalho, queria uma espécie de blog para divulgar o andamento da obra, disse que tinha interesse nesse “mundo virtual”. Acenei com a cabeça. “Quem sabe”, disse sem prometer nada. No final da entrevista marcamos de ir até um dos locais das obras. No caminho, enquanto um deles dirigia a caminhonete importada,  conversaram sobre partidas de tênis e grandes obras de engenharia no exterior. No sol do meio-dia, Silvio fez o que pôde. Clicou os sujeitos com chapeuzinho de obra, caminhando em frente aos tratores da cater pilar. As fotos não ficaram lá muito boas. A obscura natureza humana não é o forte de Silvio.

(…)No caso de Cuiabá o peso ambiental pode ser multiplicado pela importância sem precedentes do Pantanal. O Rio Cuiabá corta a cidade, dá nome a capital mato-grossense e deságua direto no Pantanal. Como lembra João Cândido: “existe uma rixa entre Campo Grande e Cuiabá para saber qual é a capital do Pantanal, uma vez que o bioma fica nos dois estado. Não tenho dúvidas que é Cuiabá, pois toda água que usamos aqui deságua diretamente lá, o Pantanal começa aqui. E isso só nos traz mais responsabilidades, pois se não fizermos as obras de saneamento necessárias agora, no futuro seremos muito cobrados por isso”(…)

Consegui terminar a matéria apertado, horas antes do deadline. No dia seguinte, após uma noite agitada, com o corpo rolando por horas de um lado para o outro tentando absorver a cafeína, cheguei atrasado no trabalho. Na redação os jornalistas agitados cobriam uma operação da PF. O repórter Jonas Campos já estava na rua desde as cinco da manhã, enviando notícias pelo celular para a redação. Quem atendeu uma das ligações foi Marcy, o editor do online. “Já tem os nomes? Sim, pode passar”.

Alguns minutos antes eu havia contato a história toda para ele a fim de justificar o atraso. Disse que passei o final de semana terminando um freela, falei da entrevista e também citei o deputado que estava lá. Provavelmente foi por isso que Marcy fez aquela cara enquanto escutava os nomes através do telefone. Segundos depois de desligar ele olhou para mim um tanto atônito:

- Sabe esses caras que você entrevistou?

- Sim…

- Estão todos presos.

Durante vários meses a imprensa acompanhou de perto as notícias sobre a fraude nas obras do PAC. A TV colocou algumas matérias em rede nacional, mas como o interesse por essa região é pequeno, elas rarearam já na segunda semana. O procurador do município foi preso, o deputado estadual e os empresários também. A suspeita é de que houve fraude na licitação. As empresas já sabiam que iam ganhar. Algumas escutas telefônicas vazaram, o prefeito ficou mal na foto, o governador gostou, a turma toda foi solta na semana seguinte pela justiça, as obras ainda estão paradas e eu e o fotógrafo até o momento ainda não recebemos. O rio Cuiabá continua igual. Ainda manda os dejetos humanos de cerca de 800 mil habitantes para o maior orgulho do estado: o Pantanal.

É… o esgoto de Cuiabá é mais sujo do que se pensa.

Trabalho sujo

Trabalho sujo

Este texto foi escrito em 06/06/2007 e nunca havia sido publicado anteriormente.

Existem muitas figuras carimbadas aqui na região do Médio Norte de MT. Algumas são do bem, outras são do mal, tem a irmã Terezinha, o tenente Taborelly, o prefeito Chico Mendes, os irmãos Guaraná, Márcio Mendes, Bilú o prefeito, Terno o fotógrafo, enfim, são inúmeros. Já tinha pensado em registrar algumas delas, mas o fato é que não quero ficar novamente refém da escrita como aconteceu em minha última viagem à Nova Zelândia; confesso que esse é um vício que me consome e me atrapalha um pouco. No entanto, existe um sujeito que acabou de sair aqui da redação, e, juro, se não contar sua história agora acho que vou ter espasmos epiléticos.

Tudo começou com uma afta na língua. Ela surgiu na véspera da viagem e me acompanhou desde então. No avião, no ônibus, nos primeiros dias de trabalho, nas primeiras semanas, o tempo passava e a merda da afta não fechava. Nessa época o telefone tocou e do outro lado quem falava era um famacêutico. Disse que queria que um repórter fosse entrevistá-lo. “Qual é o assunto”, perguntei com cuidado de não bater a língua nos dentes. “Te digo quando chegar”. Achei meio suspeito, mas contei pra Marcio Mendes, o dono do jornal: “vai lá, é aqui perto”. Tudo é perto em Diamantino. Mas, peguei a caneta, o gravador e sai sob o escaldante sol mato-grossense. Terno, o fotógrafo, veio junto.

Ao chegar, molhado de suor, me deparo com um homem idoso, de camisa branca aberta mostrando uma barriguinha saliente, ao lado de um ventilador e com as mãos sobre o balcão a mirar sob pesados óculos de grau. Ele não nos viu. “Olá, é o senhor que é o seu Braga?”. “Sim, sou eu, que bom que vieram”, disse já reconhecendo que eramos da imprensa. “Por favor, me acompanhem”, disse indicando uma porta aos fundos.

As farmácias do interior nada têm a ver com as Mega Stores decoradas em neon, lotadas de cremes, shampoos, camisinhas e modes que vemos nos grandes centros urbanos. Farmácias dos rincões são lugares ermos, com cheiro de álcool, misturado com acetona, mais iodo e éter e que dão até um certo barato. A reunião secreta seria na salinhas de aplicar injeção, com três cadeiras de madeira e um cavalete para apoiar o braço. Seu Braga ligou um ventiladorzinho que rangeu um pouco antes de pegar o ritmo. Por fim se aconchegou na cadeira, cruzou as pernas e começou a falar:

- Veja bem, eu chamei vocês do jornal pra dizer que eu tenho intenções de ser o próximo prefeito da cidade de Diamantino. Pode escrever ai nesse bloquinho que eu estou dizendo isso.

Fiquei parado com a caneta em riste tentando entender do que se tratava aquilo. Olhei para Terno que mastigava um chiclete e mantinha sua cara de paisagem sob seus óculos escuros.  Resolvi ligar o gravador.

- Parai, deixa eu entender. O senhor nos chamou aqui para dizer que quer concorrer nas próximas eleições municipais?

- Exatamente, vou entrar para a política!

Respirei fundo, apertei a caneta e comecei a escrever:

- Oook!! Então vamos lá… deixa eu ver… por onde começar…bom…qual é o seu plano de governo, seu Braga?

- Não tenho plano!

- Não tem plano?

- Não.

- E qual o partido do senhor, seu Braga?

- Esse é um ponto importante, é uma ótima pergunta meu jovem… Não tenho partido também! Por enquanto! Mas espero que depois dessa matéria no jornal algum partido possa me fazer um convite.

- Então o senhor não tem partido?

- Não!

- Mas o senhor segue alguma linha ideológica?

(Ele ficou meio desconcertado com a pergunta)

- D-desculpa, pode repetir?

- Se o senhor, seu Braga, tem alguma linha ideológica?

- Olha meu amigo, eu não te entendo.

- Se o senhor acredita em alguma vertente política, tem algum ideal, possui um pensamento filosófico… ou… (eu estava só piorando as coisas ele me olhava cada vez mais com cara de interrogação)… na verdade minha pergunta, seu Braga, é: o que motiva o senhor a entrar para o política?

- Ótima pergunta meu amigo! Eu te digo que depois de muitos anos vivendo nessa cidade chegou a hora de eu dar algo em troca. O que me move a ser prefeito é que eu amo aos pobres e despossuídos, amo de coração os pobres.

- O senhor ama os pobres?

- Amo!

- O senhor crê que está preparado para assumir uma prefeitura?

- É ai que eu te pergunto… O que é estar preparado? Estes que estão aí estão preparados?

- Quais são as principais virtudes do senhor, Seu Braga?

- Posso dizer que se for eleito serei um sujeito honesto, sem corrupção, sem picaretagem!

Saímos da salinha e caminhamos em direção a rua. Na porta seu Braga continuava insistindo na seqüência de perguntas que começou no exato segundo em que desliguei o gravador: “Acha que falei bem? hein, como me sai? Como vai ser a matéria?”. Não tinha muito que dizer, apenas baixei a cabeça e disse: “Foi bem seu Braga, fez certinho”.

Terno tirou algumas fotos, mas as imagens ficaram ruins demais. Não sei da onde tirei essa idéia de fazer campanha pro Terno virar fotógrafo do jornal, ele é ruim demais! Sempre que vamos a algum evento ou fazer entrevistas acabo fazendo as fotos eu mesmo. Mas o garoto tem potencial, deve estar aprendendo. Gosto dele e de imaginar que um dia, se Deus quiser, vai conseguir sacar uma foto sem cortar metade da cabeça do entrevistado.

Peguei a câmera da mão do Terno. “Ok, seu Braga, faz uma pose aí de vencedor”…

fash!

"Pose de vencedor, seu Braga!"

"Pose de vencedor, seu Braga!"

Só quando estava no meio do caminho que lembrei da dor na língua, a maldita afta. Resolvi acabar de uma vez por todas com aquela situação, voltei à farmácia e perguntei a seu Braga o que era bom para afta. “Usa isso aqui que passa”, ele me estendeu uma caixinha com pedra ume. Saquei a carteira pra pagar e ele empurrou o dinheiro de volta: “não, não, não se preocupa com isso”. De minha parte insisti veementemente dizendo que não podia aceitar, mas ele empurrava com mais veemência: “não, não, não” e sorria fazendo um gesto para eu ir. Por alguns segundos pensei em jogar aquela caixinha na cara dele e gritar: “Ta pensando o que seu filho-da-puta, que vai me comprar com uma porra de remédio?” e sair chutando o estabelecimento para mostrar indignação. Mas não dá pra fazer esse tipo de coisa na vida real.

…peguei a caixinha e voltei para a redação.

A entrevista não rendeu muito, na verdade não renderia nada seu eu não tivesse ficado olhando para aquela caixinha de “pedra ume” sob o computador. Perguntei pro Márcio Mendes, o dono do jornal , o que eu devia fazer com aquela entrevista?”. “Esquece isso! Muito fraco”. “Não dá pra jogar nem no site?”. “Ta bom, joga no site”. Na verdade tinha gostado da foto, achei que daria uma matéria divertida, mas aquela merdinha de pedra ume em cima do monitor me deixava nervoso. Talvez fosse melhor nem publicar nada e mostrar pro farmacêutico que eu era incorruptível. Mais alguns dias se passaram, e minha afta passou. Lembrava esporadicamente do seu Braga, geralmente quando passava em frente a sua farmácia ou quando alguém citava algum nome para concorrer à prefeitura da cidade. A matéria no site não teve muita repercussão, ninguém comentou muito, o assunto morreu. Até que um dia seu Braga veio para a redação conversar com o chefe.

No final da tarde daquele dia Márcio chega pra mim e diz: “Lembra da matéria do seu Braga?”. “lembro sim, que que tem?”. “Então, dá uma aumentada nela que a gente vai publicar no impresso”. Na hora saquei que o incorruptível Braga tinha corrompido o mais-que-corruptível jornal. Apenas olhei para Márcio e ele disse o que sempre dizia: “É ué, aqui funciona assim! Já te disse isso milhões de vezes!”.

Nessa hora você lembra das conversas de bar na faculdade, da época em que você era um idealista de merda, que acreditava no bom jornalismo, na dignidade da profissão. Aí se vê trabalhando num jornal que cobra 400 reais por matéria… então esse era o preço da notícia? Quatrocentos reais?! Sentado em frente ao computador abri o jornal bem na página com a matéria, numa perspectiva mais ao fundo, a caixinha da pedra ume em cima do monitor… então era esse o meu preço!

No fundo senti até um certo orgulho… não é qualquer recém formado que se vende por uma porrinha de Pedra Ume!!!!!!

PAU RODADO

São Paulo é uma cidade habitada por pombos. Eles voam elegantemente gordinhos sobre as ruas da cidade. Uma vez li na National Geographic que pombos se localizam através das ruas e avenidas construídas pelos homens. Ou seja, pombos são como paulistanos, vivem perdidos por aí. Já aqui em Cuiabá existe uma imensa gama de pássaros silvestres que ainda reina majestosamente sobre a cidade. Estes provavelmente ainda se localizam por rios, vegetação, relevos e devem considerar Cuiabá apenas uma taberna mal freqüentada em meio ao horizonte geográfico do infinito lar mato-grossense.

Cuiabá é conhecida como cidade verde. É um título antigo, provavelmente dado por um prefeito com alto faro para marketing político. Não sei em que situação ou época se cunhou o apelido, mas o certo é que ele ficou apenas no título mesmo. Claro que existem áreas verdes por aqui, e muitas, mas o que quero dizer é que a filosofia geral ainda é para trocar os pássaros todos por pombos. Daí da cidade não ser tão verde assim.

Por alguma razão o modelo de desenvolvimento sudestista ainda encanta a maioria dos moradores de Cuiabá. Não digo o cuiabano em si, pois o cuiabano legítimo (quase extinto) não liga muito para essa coisa de trocar sua casinha de telhado de barro por prédios super-ultra-desenvolvidos. Posso garantir que a maioria dos que anseiam por uma metrópole é mais o povo que vem de fora, os forasteiros, os tais “pau-rodados” – e Cuiabá é uma taberna em meio ao horizonte largamente freqüentada por forasteiros. Nada contra eles, até porque faço parte. Mas muitos ainda vêm com aquele velho pensamento de construir, desenvolver, levantar empreendimentos, fazer fortuna. No fundo querem poder trazer suas família a amigos do Sudeste pra comer no Burguer Kings, e tomar um café no Starbucks.

O sonho de modernizar Cuiabá é antigo. Estava folheando um livro de história da cidade e vi que antigamente muitos dos viajantes, cronistas e pensadores que passavam por aqui deixaram registros críticos sobre a cidade. O alemão Karl Von den Steinen, por exemplo, escreveu em seu diário enquanto repousava em Cuiabá para seguir viagem ao Xingu no ano de 1880: “Os cidadãos cuiabanos são dotados de certa indolência e mesquinhez (…) falta-lhe a disposição para o trabalho (…) as perspectivas do homem cuiabano são muito piores do que ele mesmo pode imaginar” Já o português Joaquim Ferreira Moutinho escrever em 1850: “O principal defeito do cuiabano é a preguiça e a indolência (…) a fome e a miséria são devido à preguiça de um povo que poderia viver em abundância”. Mas nada, nem ninguém, conseguiu o feito de enquadrar Cuiabá no frenesi desenvolvimentista do século XX.

Mas os tempos mudaram! Vivemos (ou pelo menos tentamos viver) na era da sustentabilidade. Mesmo assim o esporte favorito do “pau rodado” é falar mal do baixo número de empreendimentos corporativistas. Mas a tal “indolência” descrita pelos garbosos viajantes, fez com que os cuiabanos “tachapa e cruz” deixassem de se preocupar com o que o povo de fora diz. Para os donos da taberna é sempre melhor prestar atenção nos pássaros do que nos pombos.

Pombos?

Pombos?

Política e mídia se misturam em Mato Grosso. Deputado bom é deputado na TV. E não só em propaganda eleitoral. Pra ser lembrado pela população o político precisa aparecer, sorrir em outdoors enormes, ter um ônibus com a lataria pintada e apresentar seu próprio programa de TV em alguma afiliada local. Um desses camaradas é o nobre deputado estadual Sérgio Ricardo (PR). Confesso que não sou um telespectador assíduo do seu programa criativamente chamado de “Programa do Sérgio Ricardo”, mas estou nesse momento com a TV ligada ouvindo o nobre deputado falar vestido com sua camiseta do Palmeiras e a vontade de escrever me é incontrolável.

Ao que parece o programa dele é todo sábado. É um dos lideres de audiência no estado (pelo menos é bem comentado entre a população). Mas ainda não deu pra sacar muito bem como funciona o tal programa. Após vinte minutos em rede estadual, tudo o que ele fez foi passar hinos de times de futebol e comentar: “ah, esse hino do inter é muito triste, coloca o do grêmio aí”, e aí o sujeito lá na cabine troca: “ah, esse é melhor”. Na chamada para o intervalo passa a vinheta com cenas do deputado distribuindo peixe para os pobre e percorrendo as rodovias do estado com seu luxuoso ônibus estilo cantor pop-sertanejo; com rosto e número do partido pintados na lataria.

Acho incrível a presença constante de políticos nas ruas de Cuiabá. Na maioria das vezes estão fazendo joinha ao lado de uma frase emblemática estampadas em gigantescos outdoors: “Parabéns Cuiabá, sua bonita!” ou “Muito obrigado governador Maggi por trazer a Copa para a gente”. Isso tudo mais os carros adesivados, os pobres (e não tão pobres) com camisetas políticos e os tais ônibus particulares tunados de sertanejo-pop. E o que é mais assustador: estamos há mais de um ano das eleições. Não quero nem imaginar como essa cidade vai ficar daqui uns meses.

De volta do intervalo o deputado anuncia com entusiasmo: “E atenção, hoje tem jogo no Jardim da Glória valendo o Troféu Sérgio Ricardo”. Entra correndo um cantor de lambadão mexendo o corpo todo cantando playback: “e vai no vuco-vuco, e vai no vaco-vaco”. Uma cuiabana vestida com roupas exageradamente típicas aparece e diz: “vou declarar um poesia para você Sérgio Ricardo”, respira fundo e começa: “Sérgio, você não é revista, mas estou sempre Contigo, não é a TIM, mas meu amor por você é sem fronteiras…” e vai seguindo numa lírica majestosa capaz de matar um poeta envenenado.

Ainda me pergunto até quando a população vai aceitar esse tipo de programação? O fim inglório desse tipo de promiscuidade deveria ter ocorrido com a prisão de Lino Rossi, apresentador do “Cadeia Neles”, programa líder de audiência no horário (sic) do almoço! Anos à frente da atração, Lino Rossi, o político que consegui se eleger vereador, deputado estadual e depois federal, bradava contra os bandidos em rede estadual. “Tem que ter pena de morte!”. “A polícia tem que matar, sim!”. “Lugar de bandido é na cadeia!”. Isso até o dia em que foi preso, acusado de ser um dos principais beneficiários da máfia dos sanguessugas. O programa, claro, continuou líder de audiência com outro apresentador. Além do mais, o nobre político foi solto logo em seguida e ainda aguarda julgamento.

Não tive saco de acompanhar o programa do Sério Ricardo até o fim, joguei no mute e vim aqui escrever esse texto. Enquanto digito tem um telefone na tela piscando pedindo doações. Até tentei aumentar pra saber mais sobre isso. Doações? Pra que esse cara quer doações? Mas o controle remoto há dias não funciona e o botão da TV ainda tá quebrado. Preciso comprar pilhas. Jornalistas podem pedir doações?

Doações? pode sim amigo!

Pode sim amigo!

A cobertura de um fato ou evento pela internet tem de ser imediata. Claro que a apuração é o principal, mas o grande negócio de um veículo online é jogar primeiro a informação na rede. Não que isso faça muita diferença para a empresa ou para o leitor, a maioria não está nem aí se quem jogou primeiro a notícia foi a Globo ou a Record. É um lance de jornalista, coisa nossa, joguinho corporativista. Se você não é da área não tente entender. Deve ser como ser corintiano fanático: não leva a nada, pois é alguma conjunção astral-biológica-neuronal-sexual não explicada pela ciência. Furar no jornalismo é uma catarse social pós-moderna sem sentido algum de um profissional mal-remunerado e semi-respeitado. É bom não tentar entender.

Tive um estralo. A melhor solução seria cobrir por SMS. O editor lá na redação colocaria as mensagens no Twitter e pelo menos na twitttosfera a gente furava geral. Não é a mesma coisa, é claro. É como ganhar o primeiro mundial de clubes. Até é reconhecido pela Fifa, mas sem dúvida um tanto sem mérito. O certo seria colocar tudo no site de uma vez, mas nosso sistema tem algumas deficiências. Se o editor publicasse sem antes dar login e logout duas vezes, não apertasse o Crt+v+a+i mais cinco e esquecesse de rezar os dois pai-nosso estralando os dedos, a matéria saia toda desconfigurada.

Mandei umas quinze mensagens para o editor enquanto ele tentava desesperadamante entrar no Twitter. Eu já estava bem mais tranqüilo, rindo da própria esperteza, quando chega a mensagem: “Twitter fora do ar!”. Droga! O jeito era desencanar dessa coisa de online-tempo-real e cobrir como um bom, velho e respeitável senhor de impresso. Sentei-me, cruzei as pernas e pus a pena em tirocínio.

No plenário, o vereador Ralf Leite gritava de braços abertos: “Oh, céus! Oh Deus! o que eu fiz para receber tamanha injustiça?”. Os jornalistas todos vinham abaixo com cada declaração do vereador. Num dos momentos altos do show ele segurou a constituição e disse a plenos pulmões: “Não posso ser cassado. Está escrito aqui, na constituição! E a constituição é a carta magda (sic) da nação”. As risadas na sala de imprensa ecoaram por todo salão e os vereadores puderam ouvir quando um repórter gaiato gritou lá de dentro: “cala boca Magda!”

O erro foi engraçado pela situação toda, mas a sessão inteira transcorreu como um assassinato cruel à língua portuguesa. Em especial um dos vereadores que usou a tribuna. Ele cometeu um genocídio tão grande que poderia ser condenado à morte em um tribunal especial da ABL: “É craro que as denúncia tem de se apurada. Mas a constituição é crara: o voto tem di se secreto. e digo mais: nenhum de nóis aqui é de menas importância que ninguém”, gritava o nobri vereador. Os jornalistas se retorciam de vergonha alheia, alguns até repetiam em voz alta como que grifando os erros do sujeito para o resto, mas a maioria manteve-se mesmo em silêncio. Não sou do tipo que fica arreparando na fluência verbal alheia, mas um camarada que arranja um cargo como aquele deveria ao menos se dar ao trabalho. Sofri com o resto a dor de saber que aquele cidadão era um representante legítimo do povo e tinha salário (fora as comissões) bem maior do que nossos anos de lapidação lingüística podia almejar.

Por fim veio a defesa. O advogado pelo menos tinha um português ajeitado, mas muito mais lavada era a cara do sem-vergonha. Ele montou toda a defesa em cima do fato da Câmara dos vereadores não ter uma constituição própria, o que, na teoria, impedia a sessão com voto fechado: “o voto tem de ser aberto como diz a constituição”, dizia com cara séria. No fim resolveu dedicar um tempinho pra defesa (de fato) do seu cliente. Mas para isso não teve coragem de fazê-lo verbalmente, preferiu exibir o trecho de um vídeo que editou no computador (bem mal-feito) tentando provar a inocência do seu cliente. Mais risadas na sala da imprensa.

Mas não adiantou. Os partidos obrigaram os vereadores a votar pelo pleito aberto pra tentar disfarçar um pouco a evidente sem-vergonhice. Não foi a toa! Uma rápida olhada na turba nervosa que tomava o plenarinho gritando já ilustrava bem a situação. Era a cabeça do pedófilo, ou a revolução.

E tudo correu conforme o esperado. Ralf Leite foi o primeiro vereador de Cuiabá a perder o mandato. Só dois votaram contra: Lutero Ponce e o próprio Ralf Leite. Agora o que é mais curioso. Sabe esse tal Lutero Ponce aí que votou contra a cassação? Pois bem, ele era presidente da casa e foi indiciado pela Policia Fazendária por ter desviado 7,5 milhões de reais da Câmara. Nas ultimas três gestões a mesma quantia foi desviada e ninguém foi cassado. Mas não adianta ficar espantado, não. Convenhamos… desviar dinheiro faz e sempre fez parte do decoro parlamentar brasileiro. Esse negócio de transar com travesti que é novidade…

(Façam suas apostas: Lutera será ou não cassado. Descubram em breve nesse periódico)

Enquanto a coisa toda pegava fogo (literalmente, pois o tenente Lara resolveu incinerar seus apretrechos farrísticos) , eu tentava achar um gabinete de um vereador honesto para negociar um computador. Claro que não estou tempo o suficiente na cidade para saber quem é honesto ou não, por isso pedi ajuda ao repórter Fábio Menegatti, que após pensar um bocado, me indicou um com a seguinte ressalva: “É o menos pior”. O nobilíssimo vereador  indicado concordou e pediu para uma secretária me acompanhar até uma salinha contigua onde ligou um monstro eletrônico de filme futurista dos anos 80. “É um pouquinho lento”, lamentou enquanto o processador rugia mal humorado. Um pouquinho? Pelos meus cálculos aquele troço só iria pegar lá pro final da sessão. “Ok, deixa ele ligado aí que quando eu tiver alguma matéria eu venho correndo e mando”. “Ah, precisa de internet? peraaí que eu vou conectar pra você”, e pegou um fio telefônico empoeirado do chão.

Saí dali com a certeza de que não voltaria – se é difícil imaginar um mundo sem internet, pior ainda é imaginar um sem banda larga.Entrei pelos corredores e me perdi da equipe. Subi um lance de escadas e fui parar no plenarinho, lugar de intensa e nervosa concentração popular. Ali as pessoas seguravam cartazes, faixas e gritavam para o grupo de vereadores acuados na parte de baixo. Era como uma arena romana, com torcida por decaptação, entrada de leões e lutas de espada. Uma mulher do meu lado estava indignada e gritava a plenos pulmões: “Isso é um absurdo, como pode? esse presidente da câmara aí também é pedófilo, e bicha!”, era eleitora de Ralf Leite – Destaco aqui o seu depoimento pois era isolado; a maioria queria mesmo é ver a cabeça do vereador pedófilo numa bandeja.

O suor brotava dos poros como torneira ligada. Lá fora a temperatura ambiente devia estar próxima das 40 graus. No plenarinho o bafo era algo como cinqüenta graus de indignação. “Ladrão, pedófilo, filho-da-puta”. Cada espaço ali era disputado e eu fui abrindo caminho dizendo: “imprensa, opa, imprensa, opa, com licença”.

Sem dúvida que eu não devia estar ali, a sala dos jornalistas era lá embaixo, mas por alguns segundos quis sentir o clamor popular por justiça, bater umas fotos e fazer uns vídeos em baixa resolução. Fui contaminado pelo clima de indignação, não a ponto de começar a quebrar tudo, mas o bastante para desejar que isso acontecesse. Poderia ficar alí até o final, mas entrou aquele sujeito gordaço, esbarrando em todo mundo e causando tumulto. Ele virou pra parede, colocou o polegar na narina esquerda, e chuuuu, mandou bala jorrando uma punhado de catarro que ficou grudado na parede. Depois disso ainda esfregou o que ficou pendurado nos dedos e voltou a assistir a cassação tranquilamente. Nessa hora não pude evitar as constantes dicas de saúde da Sandra Anemberg para evitar a tal gripe suína. Achei melhor me retirar para a sala dos jornalistas.

A câmera e a câmara funcionavam a todo vapor: Fotos, vídeos, depoimentos, poses, xingamentos, flash. A intenção era montar uma galeria de fotos ou um vídeo com os bastidores. Eu e o editor Neto gostamos de inovar e trazer uma visão diferente do que é apresentado nos jornais. Nem sempre conseguíamos. Cada vez que usava a câmera um risquinho da bateria ia embora. Nem percebi quando o troço começou a piscar. Desliguei. Era bom economizar.

Na sala da imprensa cinegrafistas e jornalistas disputavam a cotoveladas cada centímetro disponível. O problema é que ali não dava pra usar o truque da “imprensa, opa, com licença”, mas mesmo assim fui cavando lugar até encontrar Walcir, nosso cinegrafista, disputando espaço com mais cinco ou seis concorrentes. Nesse momento, quando as leis da física estavam prestes a serem quebradas, uma assessora entrou e liberou só os cinegrafistas para entrarem no plenário. A saída de câmeras e tripés aliviou o lugar. E foi nessa hora, quando o horizonte da sala se abriu, que tive o primeiro grande choque do dia. Meus olhos não podiam acreditar no que estava vendo. Era uma mesa, mais ao fundo, onde os jornalistas de sites concorrentes estavam sentados com notebooks, rede sem fio e máquinas digitais. Sempre soube que nosso site tinha problemas de estrutura, mas achava que era uma coisa da situação política e econômica do estado, ou da cidade. Mas que nada! Aquela visão só me deu uma certeza: íamos tomar furo!

Continua…

A cobertura de um dos fatos políticos mais importantes de Mato Grosso começou cedo, por volta das 07h00 da manhã, quando todas as redações de sites, jornais, revistas e TVs se agitavam para ir a Câmara Municipal, no Centro Geodésico da América Latina. Era dia de cassação de vereador. Muito provavelmente o primeiro em toda história do município.

Ralf Leite foi eleito com 3.115 votos pelo PRTB. Político de primeiro mandato, parente de gente importante, filho de PM, ex-bombeiro, chegado de figurões da alta sociedade. Não fez nada de diferente do que se costuma fazer na Câmara, ou seja: nada! Não apresentou projetos, não resolveu problemas, não atendeu a sociedade, mas, em compensação, se envolveu com esquemas, fez alianças escusas, enfim, foi um vereador exemplar. Até aquela noite no bairro Zero Quilômetro de Várzea Grande (região metropolitana de Cuiabá) na qual foi flagrado pela PM cometendo o que a imprensa chamou de “ato libidinoso com um menor de idade”. O tal ato libidinoso os jornais imprimiam como “felação”, ou como é mais conhecido pelos populares: boquete, gulosa, bola-gato ou chupeta. O tal “menor de idade” era um travesti; um guri de 16 anos com prótese de silicone, coxas roliças e um gogó (entre outras coisas) saliente. Naquele momento ele recebia 30 reais para deixar o nobre vereador, representante do povo de Cuiabá, meter a boca onde não devia… Foi um escândalo!

A imprensa cobriu o caso por meses. A população indignada pixou os muros da cidade: “Fora Ralfenômeno!”. Por algum tempo o vereador conseguiu escapar. Várias sessões foram suspensas pela justiça e a velha tática de cobrir escândalos com a pá do tempo já estava quase dando certo. Mas o nobre vereador se envolveu em mais um escândalo: bateu na mulher! Aí não deu. A cena da sua esposa saindo da delegacia de olho roxo correu os jornais e televisão e reacendeu a polêmica. Não tinha jeito. O povo até que é meio bobo (como eles mesmo pensam), mas o tal Ralf realmente abusou. Aquela sessão só saiu por pura pressão e necessidade social.

O carro da TV já estava pronto. Eu ainda procurava a filmadora do online na redação, e nada! Reviramos armários, gavetas, portas e o equipamento não aparecia. É sempre assim. O site não tem lá muito estrutura e a coisa é sempre feita com improviso, gambiarra e paixão. Pra se ter uma idéia, a câmera nem era do nosso departamento, mas acabamos por adotá-la após uma série de empréstimos sorrateiros. E justo naquele dia, uma das coberturas mais importantes do ano, o pessoal do marketing deu um jeito de sumir com o equipamento. Não dava mais tempo, o editor pegou uma máquina fotográfica e disse: “se vira com essa”. Saí afoito com um bloquinho debaixo do braço e uma câmera quase sem bateria no pescoço.

Chegando lá o clima era de revolução; bandeiras vermelhas do MST e integrantes de movimentos sociais agitavam a entrada da câmara enquanto um carro de som tocava músicas de Gabriel Pensador, Geraldo Vandré e Bezerra da Silva. Um caminhão-pipa com oito mil litros de água lavava a parte da frente da Câmara e alguns manifestantes com água e sabão realizavam o ato simbólico. Mas logo a impressão inicial de “revolução” deu lugar a boa e velha jocosidade do brasileiro. Alguns personagens clássicos da fanfarronice municipal estavam lá, como o ex-vereador Tenente Lara (que você já deve ter visto nesse vídeo). Vestido de … de… de alguma coisa, ele colocava fogo, batia com um porrete, xingava e interpretava as mais diversas espetaculosidades. Tinha também um sósia do falcão apelidado de Cumpadre Banga e um integrante do MST que não fez questão de esconder sua homossexualidade desfilando de batom, maquiagem e distribuindo beijinhos envolto na bandeira vermelha do movimento.

No Brasil, desgraça de um é show de outro.

Continua…

Mosquitos são um mal natural de lugares como Cuiabá. Não sou profundo conhecedor da espécie, mas aos poucos vou identificando os hábitos diários dessa praga. Ao que parece eles gostam de umidade, calor e sangue. Agora que o tempo começou a ficar seco eles sumiram um pouco. Mas até algumas semanas atrás era um enxame, davam as caras todos os dias; véspera de chuva então? Vêm em bando, saindo do meio do mato já querendo se alocar sob um teto para chupar um sanguinho quentinho. São bichos traiçoeiros! Nunca perca a oportunidade de matar um quando tiver.

O que mais me irrita nos mosquitos (ou pernilongos) é que são bichinhos abusados. Não são espertos, ágeis, ou sequer preocupados. São quase senadores da república: folgados, espaçosos e adoram uma mordomia. Chegam devagar fazendo barulho, voam meio desajeitados, zunindo no ouvido, dão uma leve olhada ao redor e Zap! Te cravam o bico e começa a sugar.

Não existem estatísticas (por enquanto) sobre o sucesso da empreitada de um mosquito. Mas através de minha experiência ao longo desses cinco meses chuto que em 90% dos casos eles morrem esmagados quando estão prestes a iniciar o processo de sucção. É muito fácil pegar um mosquito nesse estágio. Mas claro, sempre tem aqueles filhas-da-puta que conseguem escapar.

Na minha opinião, uma das coisas mais divertidas para se fazer é matar mosquitos cheios. Aqueles que já beberam um bocado de sangue e começam a voar gordinho, zonzos, como se tivessem saído de uma churrascaria rodízio gaúcha. Geralmente explodem em sangue na parede ou no ar. É como apertar plástico bola, ou atirar na cabeça de um zumbi no vídeo-game. Diversão garantida.

Mosquitos são diferentes das moscas. Perto do design dos Mosquitos, pequenininhos, pernas longas e esguias, as Moscas são como o Fenômeno antes da lipo: roliços, desengonçados, mas de rápido arranque e finalização. É fácil esmagar um mosquito – com um pouco de prática é possivel pegá-los no ar com uma mão. Já as moscas requerem um treinamento de Karate Kid para matá-las. Desconfie sempre de filmes em que lutadores pegam moscas com palitinhos de Hashi e não se admire com aqueles que conseguem pegar mosquitos no ar.

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