Cuiabá é uma cidade diferente. Não sei dizer exatamente qual foi minha primeira impressão; uma vez que já faz um bom tempo que cheguei aqui. Mas com certeza não foi das melhores. Não é exatamente o tipo de lugar que você vem passar férias. Pelo contrário. A maioria das pessoas que vem para cá chega em busca do Eldorado, do ouro, da terra, da oportunidade.
O povo aqui é até meio complexado com isso. Desde a época que os bandeirantes vinham pra essas bandas escravizar índios e cavar a terra atrás de ouro e diamante, que o pessoal é meio ressabiado com o povo que vem de fora. Não é a toa. Imagina se você fosse um índio da etnia bororo e vivesse da pesca, de rituais, do rio, das árvores, de todas essas coisas que não fazem muito sentido pra nós hoje em dia, e, de repente, chegasse um bando de loucos de São Paulo aterrorizando, cavando o chão, matando e morrendo por pedaços de pedras. Imagina você perder família, amigos, casa, sustento.
Aí pensa que finalmente acaba a desgraça do ouro, acaba o diamante, acaba tudo. Os sujeitos dão um tempo, vão-se embora. E você fica lá, sem identidade, com filhos misturados, meio branco, meio negro, meio índio. O que era uma tribo legítima de bororos bem constituídos, orgulhosos de suas penas e pinturas, vira o que Darcy Ribeiro chama de ninguendade.
E aí, pra piorar, chegam os tais gaúchos e paranaenses. “Vôte!”
Na década de 70 e 80 o regime militar promove a vinda desse pessoal para a região. O exército desmata uma caralhada de hectares e sai distribuindo terras. Era o tal “Integrar para não entregar”. Os milicos achavam que se derrubassem todo o Cerrado mais toda a Amazônia e enchessem de neguinho lá, tava garantida as fronteiras do país. Mas graças ao bom Deus o cuiabano estava lá!
O cuiabano é quase um baiano, só que menos malandro e mais nervoso. Eles são um povo hospitaleiro, modesto, e gente boa, mas não acreditam muito nesse modelo de desenvolvimento sulista, ou sudestista. O paulista e o gaúcho há anos vêm pra cá e encontram uma enorme resistência a aquela habitual labuta frenética da filosofia sudeste-centrista. O mais engraçado é que, aos poucos, a maioria dos novos migrantes adquirem essa malemolência.
Deve existir algum estudo antropológico que explique isso. No fundo os Bororos ganharam a guerra. Essa antropofagia do frenesi laborístico sudestiano deve ser tese de algum mestrado. Confesso que virei meio bororo. Passei a apreciar mais a natureza, dou uma dormidinha à tarde, não me estresso no trabalho, nem corro pra chegar. A vida é melhor e mais sustentável dessa forma.
Se todos os exploradores tivessem parado um pouco pra apreciar a verdadeira hospitalidade e cultura cuiabana, quem sabe a temperatura na cidade fosse hoje um pouquinho mais amena.























