Junho 24, 2009

Antropofagia bororo

Cuiabá é uma cidade diferente. Não sei dizer exatamente qual foi minha primeira impressão; uma vez que já faz um bom tempo que cheguei aqui. Mas com certeza não foi das melhores. Não é exatamente o tipo de lugar que você vem passar férias. Pelo contrário. A maioria das pessoas que vem para cá chega em busca do Eldorado, do ouro, da terra, da oportunidade.

O povo aqui é até meio complexado com isso. Desde a época que os bandeirantes vinham pra essas bandas escravizar índios e cavar a terra atrás de ouro e diamante, que o pessoal é meio ressabiado com o povo que vem de fora. Não é a toa. Imagina se você fosse um índio da etnia bororo e vivesse da pesca, de rituais, do rio, das árvores, de todas essas coisas que não fazem muito sentido pra nós hoje em dia, e, de repente, chegasse um bando de loucos de São Paulo aterrorizando, cavando o chão, matando e morrendo por pedaços de pedras. Imagina você perder família, amigos, casa, sustento.

Aí pensa que finalmente acaba a desgraça do ouro, acaba o diamante, acaba tudo. Os sujeitos dão um tempo, vão-se embora. E você fica lá, sem identidade, com filhos misturados, meio branco, meio negro, meio índio. O que era uma tribo legítima de bororos bem constituídos, orgulhosos de suas penas e pinturas, vira o que Darcy Ribeiro chama de ninguendade.

E aí, pra piorar, chegam os tais gaúchos e paranaenses. “Vôte!”

Na década de 70 e 80 o regime militar promove a vinda desse pessoal para a região. O exército desmata uma caralhada de hectares e sai distribuindo terras. Era o tal “Integrar para não entregar”. Os milicos achavam que se derrubassem todo o Cerrado mais toda a Amazônia e enchessem de neguinho lá, tava garantida as fronteiras do país. Mas graças ao bom Deus o cuiabano estava lá!

O cuiabano é quase um baiano, só que menos malandro e mais nervoso. Eles são um povo hospitaleiro, modesto, e gente boa, mas não acreditam muito nesse modelo de desenvolvimento sulista, ou sudestista. O paulista e o gaúcho há anos vêm pra cá e encontram uma enorme resistência a aquela habitual labuta frenética da filosofia sudeste-centrista. O mais engraçado é que, aos poucos, a maioria dos novos migrantes adquirem essa malemolência.

Deve existir algum estudo antropológico que explique isso. No fundo os Bororos ganharam a guerra. Essa antropofagia do frenesi laborístico sudestiano deve ser tese de algum mestrado. Confesso que virei meio bororo. Passei a apreciar mais a natureza, dou uma dormidinha à tarde, não me estresso no trabalho, nem corro pra chegar. A vida é melhor e mais sustentável dessa forma.

Se todos os exploradores tivessem parado um pouco pra apreciar a verdadeira hospitalidade e cultura cuiabana, quem sabe a temperatura na cidade fosse hoje um pouquinho mais amena.

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Junho 11, 2009

Joanas

“Cuiabá, Cuiabá, Cuiabá…Cuiabá é melhor que Bagdá”

João Eloy, cantor de rasqueado

Richard veio pra Cuiabá atrás de uma garota que conheceu na internet. Joana, uma morena da pele escura. Mistura de índio, negro e pitadas de sangue europeu; um vatapa genético delicioso que o canadense estava louco para provar.

Acostumado a viajar pelo mundo atrás de mulheres que conhece na rede, Richard comprou um guia Lonley Planet Brazil, deu uma folheada e viu que tinha um Hostel no Pantanal. Resolveu conferir. Chegou de bermudão, camisa estampada e pescoço rosa. Era um legítimo ser de Montreal, acostumado ao mundo subterrâneo aquecido artificialmente.

Já Joana vinha de uma linhagem feita para o calor. Pele escura, adaptada para filtrar raios ultra-violeta sem a necessidade de protetor solar, transformava sol em energia sexual.

Richard se hospedou no albergue. Ele tinha vários dólares no bolso, estava disposto a deixar tudo em Cuiabá. Tinha visto umas fotos na internet, parecia ser bacana. Mas então ele adentrou o tal Albergue do Pantanal. “Oh my Good! What a fuck?”

Resolveu que só daria uma rápida bimbada em Joana e sairia fora dalí urgente. Se o albergue com o selo internacional era assim, mal podia imaginar o resto da cidade. Não, definitivamente não era obrigado a aturar esse subdesenvolvimento de quartos pequenos sujos e sem ar-condicionado.

Marcaram de se encontrar no centro, ele foi olhando para o relógio, contando os minutos, doido pra acabar de vez com aquilo. Terminaram se agarrando no pequeno quarto coletivo do Albergue – Joana morava com os pais, cuiabanos de tchapa e cruz que não entendiam bem esse negócio de internet.

O vulcão Joana entrou em erupção. Quando cheguei no Albergue o canadense estava lá fazia algumas semanas. Não sei que fim levou, saí de lá antes dele. Provavelmente acabou deixando os dolares todos por ali mesmo.

Joanas… há 500 anos fazendo esse país turisticamente viavel.

Junho 9, 2009

VÍDEO: O Povo Brasileiro

Estou assistindo e lendo “O Povo Brasileiro”. É uma obra do antropólogo Darcy Ribeiro que deve ser lida e digerida com calma, muita calma. Aos interessados segue o link com o primeiro vídeo de um documentário produzido no ano de 2000, após sua morte. Não terminei de ver (nem de ler) ainda, mas fica a dica:

Junho 8, 2009

Avante…

A sensação de sair do avião deve ser sempre a mesma – afora um ou outro que chega nos únicos dois dias de frio do ano, é sempre a mesma porrada térmica: do ártico ar condicionado para o desértico calor natural. Os metereologistas nem devem ter muito trabalho por aqui. Desconfio que se repetirem todos os 365 dias do ano que a temperatura vai ser de sol e calor eles vão errar talvez duas vezes no ano. O que tá ótimo (em São Paulo eles erram esse tanto por dia).

Era dia 28 de fevereiro, um dia quente. É verdade que dessa vez era de madrugada. Não que seja grande coisa, o sol frita tanto a cidade durante o dia que a noite ela arde, mais ou menos nem sua pele quando você esquece de passar protetor na praia.

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Aeroporto internacional Marechal Cândido Rondon

O taxi me deixou no Albergue do Pantanal, um com o selo da famosa rede de Hostels conhecida internacionalmente. Aí tá uma dica aos viajantes: é sempre bom confiar no selo da Hostelling International. Eles seguem um padrão, quartos limpos, baratos, práticos e simples. Os viajantes profissionais, de carteirinha, costumam rodar o mundo nesses lugares. Dizem que um Hostel e um guia Lonely Planet é tudo o que você precisa pra rodar por aí. Os albergues são ótimo lugares pra conhecer gente, trocar informações e topar umas gatas. Eu mesmo já dormi em vários e posso dizer: vale a pena!

Outra dica importante é: não confie de jeito nenhum no Hostel de Cuiabá!

O sujeito que montou o “Albergue do Pantanal” é um pilantra de marca maior. Ele não teria a menor condição de adquirir uma bandeira de Albergue Internacional. A mais ridícula fiscalização o tiraria da lista, se é que ele faz parte dela. O problema é que esse negócio de fiscalização tá fora de moda por aqui desde a época em que a coroa portuguesa tinha interesse em impedir que garimpeiros saissem por ai com ouro sem pagar o devido quinto.

Dei-me o luxo de pegar o quarto mais caro. Sim, afinal não era mais um mochileiro qualquer, estava a negócios, mais especificamente indo trabalhar na afiliada da Rede Globo de Cuiabá! É meus amigos… mesmo que o salário não seja lá grandes coisa, o cargo exige certa pompa. É como ganhar um VIP para uma festa chique; você pode não ter dinheiro para tomar drinks caros, mas é bom agir como se tivesse o direito de estar alí.

Mas o recinto era pura decepção com cheirinho de mofo. O barulho do ar-condicionado lembrava a turbina do avião. O pó que saiu de lá de dentro e jorrou pelo quarto parecia um efeito especial de algum filme do Spilberg. Tirei os sapatos e enquanto procurava pelo chinelo uma barata tentou passar impune se escorando pela parede. Crunch! Esmaguei com o sapato.

Merda! Constatei que tinha esquecido o chinelo. Sempre esqueço a merda do chinelo. Caminhei flexionando o dedão apoiando a parte de trás e da frente numa espécie de arco. É uma técnica especial minha que visa tocar o mínimo possível o chão sujo com a palma do pé; adquiri esse dom após anos esquecendo os chinelos nas viagens, tanto que hoje em dia meu pé já adquiriu certa facilidade anatômica para o feito.

Tomei um banho para tirar o suor e deitei ao som da turbina do 767.

Respirei fundo… Sim, estava de volta!

Junho 5, 2009

De onde você é?

Para a maioria essa é uma pergunta simples, basta olhar o verso do RG. Mas não deveria ser. A pergunta “de onde você é?” envolve muita coisa. Suas origens, raízes, sotaque. Poderia ser apenas uma questão geográfica; sou dalí, daqui, acolá, nasci longe, ou perto. Mas a geografia não é só um detalhe, é tudo.

Nasci ali, nas montanhas, perto do rio, respirando monóxido, no ar campestre. Sou da floresta, da selva de pedra, do carpete, da grama. Eu vim de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Amazonas, Nova Zelândia. E agora estou aqui, em Mato Grosso, pra, quem sabe, um dia no futuro dizer que vim daqui.

Mas no geral tomei a resolução: sou paulistano. Na verdade gaúcho de RG, mas fora o gosto por chimarrão seria injusto me proclamar gaúcho. Em casos como esse, ser paulistano é melhor. É uma cidade relativamente livre de tradições pétreas ou orgulhos bairristas. Não dá, por exemplo, pra olhar e dizer: “você tem cara de paulistano”. Paulistano não tem cara! Paulistano é árabe, japonês, negro, vermelho, branco, mas principalmente: cinza. É um tudo de um monte de coisas todas. Por isso já decidi que sempre é um alívio dizer que sou paulistano.

Isso que por um triz não nasci manauara. Poderia ostentar um RG com naturalidade de Manaus, Amazonas. Mas não deu certo. Minha mãe não confiava nos hospitais de lá e minha avó bateu o pé para que todos os netos fossem gaúchos! (e ela sempre diz isso batendo na mesa ou bradando o braço como colocando um ponto de exclamação depois do: gaúcho!). Mas sei lá, se nessa época me perguntassem e tivesse discernimento pra responder diria que não faria questão de ser gaúcho, podia nascer ali mesmo na selva, sem problemas. Não que não goste de ter nascido lá, mas é que essas coisas, no fundo, pouco importam. Por isso ser paulista é melhor.

Dizem que tem qualquer coisa de especial no primeiro ar que você respira. O primeiro contato dos pulmões com o clima externo, o sopro de vida invadindo o peito e encharcando os alvéolos com o ar úmido do Guaíba. Isso tudo pra semana seguinte se embrenhar no ar amazônico até os três anos de idade. De fato o ar de Porto Alegre tem qualquer coisa de especial pra mim, ou tinha. Lembro bem do cheiro da cidade quando desembarcava na rodoviária. Talvez, inconscientemente, aquele ar remetesse ao instante exato que o sangue borbulhou com o oxigênio do mundo exterior. Essas primeiras impressões do mundo ninguém te tira, nem tampouco explica. O fato é que tanto o ar na beira do Guaíba quanto no coração da floresta já não são mais os mesmos. Sinto falta do ar da Nova Zelândia, por exemplo, mas mais falta sinto do ar dos anos 80.

Morei os três primeiros anos da minha vida em Manaus. Não me lembro de nada daquele lugar, mas, de certa maneira , Manaus gerou meus primeiros padrões cerebrais. Rios, florestas, animais, umidade, calor, por alguns anos o entorno amazônico me moldou como um ser da floresta. Isso até meu pai resolver se mudar para São Paulo e eu adotar a selva de pedras como novo meio ambiente. Desde então subir em prédio e atravessar avenidas passou a ser meu modo habitat…

Talvez eu esteja apenas procurando outro bioma.

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Abril 13, 2009

NOTIFICAÇÃO

Um dia vou escrever toda a história do Hotel Panorama. Quero fazer isso depois que sair daqui, uma espécie de relato pós-guerra. Tinha planejado escrever trivialidades nesse meio tempo, falar sobre o clima, hábitos, costumes, mas, como os leitores mais assíduos devem ter percebido, uma tragédia se abateu sobre minha antiga máquina de escrevinhar. Sim, sinto informar, mas ela morreu.

Tudo aconteceu numa segunda-feira, quando voltei do serviço pronto para digitar umas palavras e encontrei meu computador morto. Acontece que a tia da limpeza fez o favor de deixar a janela do meu quarto aberta, dando passagem para uma nervosa enxurrada liquida que invadiu a placa mãe do computador. Sim, choveu, era um temporal. E eu que nunca havia sofrido com as intempéres da natureza me vi como um catarinense desabrigado. Foi uma imagem chocante, mais ou menos como abrir seu quarto e encontrar um velho amigo estripado, pendurado na parede, com sangue por todo canto.

Desde então travei uma batalha jurico-verbal-informal com o dono o hotel. Fato que pretendo contar com detalhes num futuro próximo, quando estiver devidamente instalado numa residência fixa, com ventilador próprio, descarga que funciona e livre de baratas. Por hora só escrevo essa pequena notificação para informar que estou vivo e com computador novo. Sim, pois não dá pra ficar viúvo muito tempo de tecnologia… Nóis vive em pulgueiros, mas conectado sempre!

Março 22, 2009

O CENTRO DA AMÉRICA… DO SUL

Por incrível que pareça o verão aqui em Cuiabá é uma das épocas mais amenas. Isso se deve a forte incidência de chuvas. É quente de qualquer maneira, mas a umidade do ar dá uma refrescada. O problema aqui começa mesmo quando terminam as águas de março. Aí tudo fica seco e o rigor do calor, misturado com a fumaça das queimadas, transforma Cuiabá na morada perfeita do coisa-ruim.

Mas como ainda faltam alguns dias para as águas de março fecharem o verão, tratarei do inferno em outra oportunidade. Por ora falo sobre vapor. Enquanto escrevo essas linhas me delicio com o clima quente e úmido da capital mato-grossense. Lá fora o sol do meio dia derrama raios ultravioletas filtrados por grossas nuvens gordas. Aqui, no modesto quartinho do Hotel Panorama, o ventilador geme no teto, refrescando minha nuca molhada de suor. Quando chove, como acontece quase todo dia, o vapor é tanto, mas tanto, que se alguém borrifasse um eucalipto a cidade inteira seria como uma sauna a vapor.

Dias desses entrevistei uma climatologista para uma matéria sobre o Centro Geodésico. Ela explicou como funciona o clima aqui na cidade. Basicamente é assim: Cuiabá é o ponto mais central da América do Sul. Existe um monumento, uma espécie de obelisco (que fica bem do lado do meu hotel, inclusive), marcando o ponto mais central do continente. Ele foi colocado pela comissão Rondon, no ano de 1909. Para quem não sabe, Rondon é o cara que veio do Rio de Janeiro até o Amazonas pregando postes de telégrafos no caminho, o grande desbravador desse país, o herói mor de Mato Grosso. O cara! Não saber quem é Rondon em Mato Grosso é a mesma coisa que ir ao vaticano e perguntar quem é o papa. Você tem que saber quem é Rondon se quiser viver aqui!

Mas enfim, tem esse marco lá. Logo, Cuiabá é a cidade mais ao centro do continente. Isso não ajuda no clima, pois toda influência de ventos oceânicos é nula. A cidade fica a mais de 2 mil quilômetros do Atlântico e do Pacífico. Mar aqui é lenda! Pra piorar, a cidade foi feita numa baixada. Qualquer brisa que venha do Leste esbarra no Planalto Central, já lá no longe do Oeste existem as cordilheiras dos andes. Ou seja, Cuiabá é um buraco quente, um caldeirão de raios UV, sem brisa alguma, embarricada pelos Andes e pelo Planalto, sem qualquer respiro oceânico.

A tal climatologista explicou ainda que o único ventilador da cidade é a floresta Amazônica. Ou melhor, era, já que neguinho foi capaz de destruir o único sistema de ventilação da cidade para vender as peças. Ai, pra piorar, plantaram um monte de fazenda no lugar… latifúndios enormes, que avançam para o norte como uma ola num estádio batendo recordes de faturamento e incrementando o PIB nacional.

Hoje dizem, com orgulho, que o Estado é: o celeiro do Brasil! Alguns dizem até que é do mundo. O que não deixa de ser preocupante, pois, como diria o velho índio: colocar toda a comida da tribo num celeiro de palha num local inflamável? Rá! Quero ver o que indiozinho vai comer…

 

o que indio vai comer?

o que indio vai comer?

Março 14, 2009

A COPA E OS OPORTUNISTAS

Voltei a trabalhar na TV em um momento de relativa tensão. Tudo por conta da mal-caratice das outras poucas emissoras que se aproveitam da ignorância de uns muitos. Veja só você, leitor das bandas de fora, que o esporte do momento em Mato Grosso é atirar pedras na TV Centro América, afiliada da Rede Globo em Cuiabá. Poderia tratar-se da tão esperada e almejada revolução apregoada pelos bolcheviques modernos, a tal revolução não televisionada… mas não! Tudo isso é por conta de uma lenda urbana que quer atribuir à emissora uma suposta má-vontade para com os projetos de “Cuiabá sub-sede da Copa de 2014″.

Mas quais motivos teriam os donos da emissora para tal ato? Aparentemente nenhum, mas jornais e programas de TV da Gazeta acusam a Centro América de boicotar Cuiabá na disputa. E é declarademante! Eles tem um programa que passa ao meio dia chamado “Cadeia Neles”, apresentado por um tal de Clovis Roberto. O sujeito é desses tipinhos que a gente vê na programação da Record ao redor do Brasil; eles parecem que são todos iguais. O fato é que o cara é um malandraço de primeira, começou a falar da concorrente e o negócio pegou.

Um dos motivos que ele alega é o de que o Seu Zahran, dono da Rede Matogrossense de Televisão, estaria de conluio com a emissora carioca para denegrir a imagem do Estado e facilitar as coisas para Campo Grande. Como argumento eles dizem que o empresário mora em Mato Grosso do Sul. Ai a paranóia foi geral: vereadores e deputados foram a tribuna, matérias acusatórias saíram nos jornais, o povo começou a reclamar e as equipes da TV Centro América passaram a ser hostilizadas nas ruas.

Não quero fazer o papel de advogado do diabo e defender a Globo, até porque não tenho procuração para tal nem ganho um salário de Suzana Vieira. Mesmo trabalhando lá tento manter um senso crítico e diria, sem titubear, que estava sendo armado um golpe nos bastidores, caso estivesse. Mas não, a coisa toda é bizarra demais, é pura paranóia urbana misturada com oportunismo dos concorrentes.

Em contra-partida, enquanto o povo perde tempo acusando a TV de boicotar os sonhos de Copa, o prefeito segue com uma propagandinha safada em horário nobre – ele colocou uns cuiabanos rindo e sambando pra no final dizer que se todo mundo pagar o IPTU direitinho a cidade vai ficar bonita pra receber os gringos. Meio cara de pau, mas vá lá…

Não sou especialista em Mato Grosso, mas tenho uma teoria para toda essa demência coletiva. Ao que parece, o estado está jogando no momento uma partida importantíssima contra seu maior adversário, Mato Grosso do Sul. A rixa entre os dois estados é antiga, remonta da década de 70, quando dividiram o antigo Mato Grosso em dois. Foram vários os motivos para a  míngua, um dia escrevo a respeito, mas o importante é que o cuiabano, ou melhor, o mato-grossense, odeia essa história de divisão. Desde então os dois estados vivem às turras numa rivalidade pior do que São Paulo x Rio, Porto Alegre x Curitiba, Manaus x Belém, juntas.

Aos poucos vou sacando o povo daqui. Eles parecem ser gente de brios fortes. Valorizam bastante a própria cultura e adoram tudo que sai desse chão. Mas, sei lá, parece que eles tem um tantinho de complexo de inferioridade. No fundo acho que é por conta do raio da separação. É como perder a mulher num divórcio, você sempre quer mostrar que está bem, que superou, que tá cagando e andando… mas lá no fundinho dá aquela raiva danada por terem te deixado.

Dizem que rixa sempre teve ares de superioridade por parte de MS. Eles comemoram todo ano o dia da “independência”, exibem números melhores no IDH, são orgulhosos das fazendas mais “modernas” e do Pantanal “mais desenvolvido”. Vendo a coisa toda por esse ângulo é fácil entender a força com que os mato-grossenses se apegaram a causa da “Copa”. Ser uma das 12 sub-sedes é uma revanche histórica! Seria como ganhar na loteria e passar de Mercedes na casa da ex-mulher.

Aqui em Cuiabá todo mundo está apreensivo, torcendo, rezando. Qualquer coisa que atrapalhe minimamente é passível de violentas reações, como, por exemplo, o que está acontecendo com a Centro América. Por isso eu digo: o povo e seus brios eu entendo…

Não entendo é os pilantras da Gazeta.

Março 9, 2009

BARÃO DE MELGAÇO

Fotos by: myself

Março 4, 2009

GLÂNDULAS SUDORÍPARAS

Cuiabá é uma cidade de clima extremo. Morar aqui deve ser algo parecido com o Saara ou a Antártida; não dá pra simplesmente sair por ai. Aqui as pessoas vivem em reverência ao meio, o clima é o ator principal. Faz calor o ano todo, tem um ou dois dias de frio, mas no geral morar aqui é girar incessantemente numa máquina de assar frango gigante.

Talvez por isso os cuiabanos sejam a evolução da espécie. Em uma era de aquecimento global, pode-se dizer que eles são o design do futuro. Talvez no dia em que a Europa começar a arder em 36 graus no inverno veremos um cuiabano passando de touca e luvas no Champs Elisée, como se nada estivesse acontecendo.

Por isso devemos aprender com eles! Recomendo a todos passar uma temporada por aqui a fim de aprimorar a genética. No começo pode ser complicado, mas com o tempo você aprende alguns truques. Um deles é: o suor é seu amigo. Sim, veja você, para a maioria dos paulistanos o suor é algo incomodo, nojento, chato, mas aqui ele faz parte, não adianta correr, ele sempre estará junto de ti. O que é bom, as raras brisas da cidade quando batem no pescoço melado são como breves respiros de hortelã.

Outra dica é economizar nas roupas. Não dá pra ficar trocando de camiseta duas ou três vezes ao dia. O jeito é vestir uma, suar, suar, suar e suar. Você vai ficar melado, mas com o tempo aprende que suor não é sinônimo de sujeira. Talvez em São Paulo seja, pois a transpiração se mistura com o CO2 e toda sujeirada da poluição, mas por aqui é só lubrificante glandular; garanto que se seu desodorante for bom nem vai cheira mal.

O lado bom da história é acordar. Dormir é um tanto dificil, mas acordar é um prazer. Levanto todo dia às seis da manhã para ir trabalhar e posso dizer: não existe sensação melhor! É como acordar ao meio dia, com um sol de rachar invadindo a janela e queimando tudo. Você levanta molhado de suor e vai direto pra baixo de uma ducha gelada.

Não existe maneira melhor de começar o dia.

Março 3, 2009

A MORTE VOA AO LADO

De alguma forma o aeroporto já é um tanto familiar. Portão de embarque número sete, Guarulhos, meia noite e cinco, o destino mais uma vez é igual. Já dá pra saber o que esperar do outro lado, não tem mais aquela sensação de inesperado, adrenalina do desconhecido, a droga dos viajantes. Vários passageiros esperam para embarcar, dá pra notar nitidamente quem é daqui e quem é de lá. Uns de manta, jaqueta, blusa; típicos moradores da terra do fogo, desacostumados com o frio de 30 graus. Já outros: camisa, gravata, sapatos; moradores da terra do batente, desacostumados a vida fora do ar condicionado. Eu, de shorts, camiseta e tênis; morador de algum lugar entre esses lugares, já acostumado a não se acostumar.

Faz mais de um ano desde a primeira viagem, em maio de 2007, quando fui só com passagem de ida pra nunca mais deixar de voltar. Desde então, Mato Grosso é meu Inferno de Dante particular, com todas suas dores e delicias. Não pretendo contar todo o desenrolar da primeira parte da trama, quem perdeu, perdeu… um dia lanço um livro com as notícias do Mato, mas por hora me dedico a esse diário, ou semanário, ou esporadicário, com informações dessa segunda, e talvez permanente, aventura.

Porem, não sei ao certo como o fazer. Sim, pois esse negócio de escrever diários na internet às vezes me parece um tanto estranho, snob, meio babaca demais. No entanto acho justo, justíssimo, escrever. Queria poder lembrar de tudo, descrever sensações, pensamentos, reler essa porcaria toda quando já tiver podre de velho só pra viver tudo de novo. Mas acho difícil pela própria limitação da palavra. A escrita é uma foto 3×4 preto e branca da realidade individual. Mesmo se esse diário tivesse 3 mil páginas não seria o bastante para descrever um segundo de sensação humana nas suas mais minuciosas percepções. Uma linha de pensamento deve valer por mil fotografias.

Como descrever, por exemplo: a viagem em sí? Poderia dizer que as aeromoças eram bonitas, o lanche uma vergonha, os assentos apertados. Mas tudo isso parece irrelevante, pois às vezes os detalhes são tão maiores. Pequenos detalhes, como, por exemplo, o da senhora ao meu lado que fez um sinal da cruz quando a aeronave decolou. Depois desse simples, módico, irrisório ato eu já não consegui prestar atenção em mais nada. Deus, vida e morte invadiram minha mente, e todo trajeto foi uma reflexão sobre a brevidade da vida. A fragilidade do homem cruzando os céus. O medo de morrer. A possibilidade de acabar sem chegar a lugar nenhum. Do que aquela senhora tinha medo? Do avião cair? De morrer? De não concluir seus planos? De ser tudo em vão?

A idade para alguns é como um fundo de investimentos. Gostam de ver os números crescerem, multiplicar, mesmo que no fim morram sem colher os dividendos. De que adianta uma vida longa, se a cada decolagem o medo te paralisa?

O avião passou por fortes turbulência. A senhora ao meu lado rezava sem parar. Eu refletia. Ela rezava, eu pensava. Enquanto ela espremia as mãos e apertava os olhos a turbulência passou.

Acho que em algum momento enterrei o medo, ou passei a cagar pra morte. Morreu, morreu! não tem que ter muito grilo com isso. Certo estão os muçulmanos, que adoram e veneram a morte. Todo ser humano deveria esperar a morte de braços abertos, sem medo. Vai saber o que não nos espera lá do outro lado, quem sabe são as tais sete virgens, ou quem sabe um plano de previdência privada. No fundo esse negócio de morrer é o único e grande mistério, e ninguém vai descobriu como funciona direito esse troço. Mas eu sei lá, pra mim, morrer não grandes-coisa, o problema é mais o que você faz da vida…

E eu estava justamente dando um jeito na minha quando as rodinhas do avião sairam do chão.

 

Fevereiro 19, 2009

MÊS QUE VEM: EM NOVA FASE

Fevereiro 17, 2009

O ROUBO – minissérie especial FINAL

Nunca tinha sido roubado na vida. Para um cara que viveu em São Paulo a maior parte da vida isso equivale a morar no Rio e nunca ter visto o mar. Não que tenha sido bacana, ou tenha me deixado extremamente feliz. Na verdade foi mais um alívio, um sentimento de: ufa, finalmente após tantos anos pertenço à cidade. E de certa maneira não poderia ter sido melhor, roubaram um celular que eu não tinha pagado nada!

Voltei à loja e perguntei se eles podiam me dar outro:
- Não senhor, desculpe, mas é impossível.
- Ah, mas porque? Vocês gostam tanto de dar celulares pras pessoas.
- Não é bem assim senhor, é uma promoção.
- Me coloca aí nessa promoção então.
- O senhor já está.
- Sim, mas eu perdi o celular.
-Veja bem, o senhor já assinou o contrato, logo já está na promoção. A operadora não tem culpa que roubaram o celular do senhor.
- Ah que droga, então eu quero cancelar essa porcaria.
- Pois não, nesse caso o senhor tem que pagar uma multa no valor de 600 reais.
- O que???
- É isso mesmo, senhor.
- Como assim? Por que?
- Está aqui no contrato que assinou, na verdade é um plano de fidelização, vale por um ano e meio.
- Um ano e meio?
- Sim!
- Puta que pariu! Então é isso que vai pagar por aquele celular?
- Claro, ou o senhor achou mesmo que a gente iria distribuir celular assim, sem cobrar nada.
- Bem que eu desconfiei! Eu sabia!
- O funcionário que vendeu o plano não lhe avisou sobre isso?
- Foi você que me vendeu o plano.
-Oh, lamento senhor, temos ordens de falar as regras contratuais em letrinhas pequenas.
- Maldição, vou ter que pagar esse celular por mais 1 ano!
- Exatamente. E para piorar sua tarifa é bem maior do que a das outras operadoras, ou seja, além do mais estará falando pelo dobro do preço.
- Você se sente bem enganado as pessoas assim?
- Na verdade, não. Mas o que eu posso fazer?… esse é o tipo de capitalismo que não se aprende em aulas de sociologia.
- Bom,ao menos tem como me dar um chip com o mesmo número? Eu uso no meu celular antigo.
- Claro.
- Obrigado…
- Err, senhor, são quinze reais!

Foi então que eu entendi que aquele roubo na madrugada não tinha valido. Afinal, é muito fácil ser roubado e não sentir a dor de ser lesado. Não, você só é realmente assaltado em São Paulo quando a coisa dói no bolso. E, sim, amigos, a sensação do roubo verdadeiro eu só senti naquela loja! Com logotipo, funcionários, CNPJ e razão social… táo arrumadinhos quando o meliante que me levou o aparelho.

Fevereiro 16, 2009

O ROUBO – minissérie especial PARTE 6

Três e vinte e cinco da manhã, Aclimação, São Paulo, madrugada de um sábado de janeiro de 2008. A crise econômica mundial é o grande hit do momento. O número de desempregados cresce na mesma proporção ao de novos ladrões nas ruas da região central.
- Aí playboy, já era, passa o dinheiro!

Fui pego de surpresa, parte por caminhar cansado e bêbado, parte por não acreditar que aquele garoto estava de fato tentando me assaltar. Era um pivete bem vestido, cabelinho raspado, negro, olhos redondos, um típico bom morador da periferia, bem cuidado por no mínimo três mulheres: mãe, tia, avó.
- Não tenho dinheiro.
- Que não tem dinheiro porra nenhuma. Passa a grana!
- Não tenho mesmo, olha…
- Então me dá o celular?

Era o grande momento; a estréia do meu novo modelo Sony Ericson S500 no mundo do crime. Pensei em dar uns tapas naquela careca jovem e dizer: “rapaz, tua mãe sabe que tu ta aqui?”, provavelmente seria o certo a fazer, com certeza ele não estava armado e não era perigoso. Mas olhei com calma para aquele garoto. Hum, mais bem vestido que eu, calça jeans, sapatinho marrom, relógio da 25 de março no pulso. Pensei no tremendo bom gosto que aquele pivete deveria ter e puxei o celular, dei na mão dele e observei suas feições.

Apreensão.

Analisou por alguns segundos, girou, olhou. Não era possível. Estava em dúvida! Decidi ajudar:
- Ele tira foto.
- Ah é?
- É, 1,5 mega pixels
- Tem MP3?
- Até tem, mas não grava muitas músicas.
- Rádio?
- AM e FM…
- Bom, não sei…
- Perai, com licença… Olha só esse painel, dá pra trocar a tela de proteção…
- Isso não quer dizer nada.
- Ah, mas é um bom celular.
- É, interessante.
- É bom sim, ganhei faz algumas semanas, só.
- Pode crer. Quer saber, já era mano! Vou levar…

Emocionante…
O primeiro assalto a gente nuca esquece…

Fevereiro 15, 2009

O ROUBO – minissérie especial PARTE 5

Loja vermelha, logotipo vermelho, funcionários de roupa vermelhas. O simples fato de pisar numa dessas lojas já é uma agressão aos sentidos, o que dirão os funcionários que trabalham lá.
- Pois não (em tom agressivo)
- Oi, tudo bem? Vim trocar de celular.
- Pega a senha.

Numero 3089. No painel, 3078. Um bocado de gente esperava com os nervos exaltados. Vermelho, vermelho em todo lugar. Eles têm até luzes vermelhas, neon, enfeitando os últimos modelos de celulares. Algum estrategista de marketing deve ter pensado na mecânica toda por trás da cor: “aguça o sentido consumista, o sujeito compra por impulso, sem parcelar nada, deixa tudo o que tem à vista, se afunda em dívida”. Mas os homens de marketing nunca pensam em quem tem que ficar lá dentro o dia inteiro, ou nos clientes que ficam horas esperando seu número no painel. Mas isso não é problema deles, se algum dia descobrirem que para vender bastante é preciso um ambiente quente, abafado, com cheiro de bosta e fogo saindo das paredes, foda-se, por que não?

3081. Amasso, dobro, faço origamis com a senha. 3082. Engraçado como as pessoas adoram loja de celular. Famílias inteiras vão comprar aparelhos juntos, como se fosse num comercial: namorados, pai, filho, filha e pai, casais de velhinhos, empresários, secretárias, é como se todos os estereótipos da propaganda da TV se materializassem e fossem atraídos alí como mosquitinhos para a luz.

3089… Sou eu!
- Eu vim porque me ligaram, disseram que se eu continuar no meu plano tenho direito a um celular e mais três contas pagas.
- Sim, qual aparelho o senhor gostaria?
- Qualquer um…
- Temos esses três.
- Me dá esse.
- Pois não, agora vou imprimir o contrato, aí é só assinar.
- Vocês vão pagar a minha conta de celular mesmo?
- Sim, durante seis meses vamos compartilhar a conta com o senhor. Um mês a gente paga, no outro o senhor.
- E os torpedos?
- Sim, são 200 torpedos de graça.
- Cara, tem certeza?
- Absoluta…
- É que não faz muito sentido pra mim… pelo menos dentro do modelo de capitalismo que eu estudei nas aulas de sociologia.
- Fica tranqüilo.

Assinei o papel e saí. Peguei o metrô na estação Tatuapé, sentido Barra Funda. Mas, enquanto o trem cortava em direção ao centro e eu brincava de tirar fotos no celular novo, não conseguia entender quem diabos ia pagar por tudo aquilo.

continua…

Fevereiro 13, 2009

O ROUBO – minissérie especial PARTE 4

Os trinta metros quadrados de solo contaminados mantinham-me firme na convicção de não trocar de aparelho. Às vezes era difícil, constrangedor, diria. Até o toque do telefone era antiquado. Numa época de ring tones que parecem caixas acústicas de show de rock, o meu continuava com Redemption Song do Bob Marley em tons polifônicos dignos do mais safado videoquê.

Nas baladinhas também não era exatamente uma vantagem ter um celular pré-histórico. Tentava anotar o telefone das garotas e o teclado travava. Umas batidas no chão ou na parede resolviam, mas como o problema começou a ficar mais freqüente decidi mudar de tática:
- Acho melhor você anotar o meu…
- A é? Porque? Não vai me ligar né? Canalha! E vai passar o telefone errado ainda… Aí, vocês homens são todos iguais…
- Não, não é isso… é que …
- Adeus!

Não que estivesse intrinsecamente preso ao aparelho numa paixão materialista sem sentido. Só não queria mudar por mudar. A vida já é cheia de despesas, plano de saúde, conta de telefone, luz, bar, não vale a pena pagar mais caro só pra mudar uma coisa que funciona relativamente bem – bom, pelo menos ele ainda fazia e recebia ligações!

Mas em meados de novembro a operadora entrou em contato comigo:
- Perai, você ta me dizendo que eu vou ter direito a 200 torpedos de graça?
- Sim senhor
- E você ta me dizendo que vocês vão pagar minha conta durante três meses?
- Sim senhor
- E ainda por cima vão me dar outro aparelho?
- Sim senhor.
- E quem vai pagar por tudo isso?

continua…

Fevereiro 10, 2009

O ROUBO – minissérie especial PARTE 3

Dessa vez tinha ido beber perto da estação Vergueiro, na Aclimação com meu grande amigo Vinícius. Era entremeado de Junho de 2008, período de pré-crise econômica mundial. O mundo ia bem, o país batia recordes de emprego, era uma época em que ninguém esperava perder dinheiro nos fundos da Petrobras nem muito menos ser assaltado em plena Aclimação.

Mas aconteceu. Saí do bar, subi a escadaria, peguei a Apeninos e então dois sujeitos passaram me encarando, um deles voltou, pegou no meu braço e disse soltando fumaça de cigarro na minha cara: “Quieto! anda, tira o celular do bolso e me dá, agora!”. Devo reconhecer, a abordagem paulista é bem mais agressiva.

O sujeito estava até que bem vestido; camisa listrada azul, cabelo penteado, sapato marrom. Era alto; não dava pra reagir. Tirei o celular do bolso e sem dizer nada, entreguei.

Ele olhou, girou, apertou algumas teclas:
- Tem dinheiro aí?

Mais uma vez tinha deixado todos meus fundos soberanos em outro lugar. Dessa vez, no bar. Minha última nota de dez reais amassada e suja:
- Não tenho, acabei de sair do bar, deixei tudo lá.
- Abre a carteira.

Abriu calmamente e outra mosca saiu voando. Zero, necas, liso! Esse sou eu, jornalista, pobre, fudido, sem a dignidade de ser assaltado como um cidadão de bem.
- Toma essa porcaria – disse o meliante empurrando o celular de volta.

Para piorar, mais à frente um homem me esperava, parado, na esquina, dentro de um Peugeot.
Ele abaixou o vidro. Segurava um celular:
- Ei garoto! Eu vi tudo. Aqueles dois sujeitos estavam tentando te assaltar? Eu estou com a polícia aqui agora no telefone. Me diz, o que eles levaram?

Nessa hora não tem muito o que fazer. É abaixar a cabeça e dizer a verdade:
- Não levaram nada não, senhor…
- Tem certeza? Eles não estavam te assaltando?
- Tentaram, só…
- E?
- E eu não tinha nada…

O homem, orgulhoso de seu Peugeot, ciente do seu papel de cidadão, patrulheiro noturno, não entendeu muito bem…
- Nada?
- Não…

silêncio…

- Ao que parece foi só tentativa, mas os dois ladrões devem estar por aqui ainda, se quiserem enviar uma viatura pra pegar eles…

E levantou o vidro e saiu enquanto falava com a polícia…
…sem nem se despedir!

Continua…

Fevereiro 9, 2009

O ROUBO – minissérie especial PARTE 2

O tal celular recusado pelo meliante cuiabano tem mais de cinco anos. É um Nokia velhinho, mas que funciona até que bem. Se for pensar, cinco anos não é muito tempo. Não deveria ser o bastante para trocar de celular. Você não fica trocando sua geladeira de três em três meses, nem seu forno microondas, ou o fogão. Como diabos conseguiram colocar na nossa cabeça que temos que trocar de celulare todo natal, ano novo, pascoa, dia das mães, dos pais, da secretária, Iemanjá…?

Isso é coisa das operadoras e fabricantes de aparelhos, que te fazem crer que trocando seu Nokia, Sansung, LG, Shing Ling periodicamente, você vai pegar muito, mas muito mais, mulher! Sim, porque trocar de aparelho é algo sexy, vital, rotineiro, quase um item da higiene pessoal humana. Tome banho, escove os dentes três vezes ao dia, passe fio dental e troque de celular a cada dois meses, pois se não fizer isso você é um hippie sujo dos anos 70 e nunca vai pegar aquela gostosa que trabalha com você e tem um aparelho com ring tone da Bioncé

Bom, eu tomo banho todos os dias, escovo os dentes também, mas não estou a fim de adquirir um celular novo a cada lançamento. Até porque, li uma matéria certa vez que fala sobre a contaminação do solo por conta das baterias dos aparelhos, parece que são uns trinta metros quadrados de contaminação, ou quase isso.

Mas, depois daquela tentativa de roubo, pensei seriamente em comprar outro aparelho. Sei que parece ridículo, mas senti uma espécie de fracasso social, do tipo: pô, se nem um bandido quer te assaltar mais, a coisa ta feia! 

Voltei para Sampa. Engoli o orgulho. Fiquei com o celular. E aí…

…aconteceu de novo…

Continua…

 

Fevereiro 8, 2009

O ROUBO – minissérie especial PARTE 1

A primeira vez aconteceu quando eu morava em Cuiabá, Mato Grosso. Estava voltando do trabalho, peguei o último ônibus, madrugada quente, abafada. Desci na Avenida Beira-Rio, onde estava hospedado. O bairro não era dos mais seguros, divisa com Várzea Grande, região metropolitana com altíssimos índices de homicídio, latrocínio, roubo, furto, atropelamento e doenças cardiovasculares.

Nem percebi, mas estava do lado errado da rua, a sem postes de luz e com terrenos baldios mal-assombrados. Vale dizer que Cuiabá é uma das cidades mais mal iluminadas do país, existem dados concretos para isso, se eu fosse um bom jornalista poderia citá-los, mas basta dizer que na alta madrugada cuiabana toda cidade vira um beco escuro. Se bem que a avenida Beira Rio (que tem esse nome por margear o rio Cuiabá, rio que por sua vez não passa de um projeto de Tietê) não pode ser chamado de beco escuro; tá mais pra um mato escuro mesmo.

E foi ali, naquele cenário bucólico e distante, que fui abordado por um sujeito de bicicleta. Lembro muito bem de seu rosto, era meio gordote, de cabelos ralos, bochechas fartas e pele morena bugre. Tinha um terrível problema com conjugação verbal e queria dinheiro. Muito dinheiro! “Tudo, passa tudo!”

Expliquei ao meliante que estava despossuído no momento, pois havia gastado todos meus fundos na aquisição de um passe veicular coletivo do qual havia recém declinado:
- Tenho grana não rapá, peguei o busão agorinha – ainda abri a carteira para ilustrar a penúria e uma mosca solitária voou em liberdade.
- E celular, tem celular?

Sim, eu tinha celular. Quem não tem hoje em dia? Tirei do bolso e entreguei. Provavelmente não estava armado, nem correria atrás de mim se eu disparasse como louco, mas achei melhor não arriscar, além do mais, minhas pernas doíam de mais um dia cansativo de trabalho, era melhor entregar logo e acabar de uma vez por todas com aquilo.

Mas ele olhou o celular, girou, apertou algumas teclas.
- Tó essa merda! – E saiu pedalando sua bicicleta.

continua…

Fevereiro 5, 2009

SOMMELIER DE PAIXÕES

Tinha uma habilidade da qual se orgulhava, transformar paixões em ódio. Não que racionalizasse em cima disso, não, no fundo nem fazia de propósito, era assim… porque era assim. Gostava de ver a coisa toda transbordar, como leite fervido, sujando tudo.

Paixão nada mais é a do que solução de amor e ódio dissolvidos. Um veneno? Sim, veneno do forte, por vezes mortal, mas indubitavelmente saboroso. Saboroso para os iniciantes, pois para aquele enfadonho ser, que era uma espécie de sommelier das mais finas paixões, o sabor puro e simples não lhe trazia mais agrado nenhum. Precisava modificar, experimentar, transfigurar! Tinha experimentado o suficiente para aprender a dissecar o sentimento e descobriu que apreciava na verdade os cristais de ódios que ficam quando o amor todo  evapora. Gostava de mastigar isso… que nem chiclete.

Pois, certa vez, na posse de um novíssimo frasco cheio de paixão, nosso sommelier levou ao fogo. O líquido evaporou e ele olhou espantado sem encontrar os tais grãnzinhos de ódio… Frustração!… Não tanto pela falta do ódio empedrado, mas sim por ter se dado conta de que, mesmo não sendo lá um grande apreciador do líquido, perdeu a oportunidade de, ao menos uma vez, experimentá-lo em estado puro…

Mas já era tarde demais. Tudo evaporou…

E foi condensado em outra horta…

 

foi...

foi...

Fevereiro 4, 2009

NOSSOS ESPELHOS

Uma das funções das celebridades é estabelecer padrões de normalidade e aceitação. E isso fato! Talvez por isso ganhem tanto dinheiro.

A começar pelo signo. Você pode ter nascido no mesmo dia que o Brad Pit, pode ter a mesma lua, descendente e planetas na mesma casa, você também pode ser feio como o Nelson Ned em chamas, mas, o que vai fazer questão de dizer na mesa de bar é que seu DNA cósmico é o mesmo do Brad Pit. Por que isso? Porque isso é bom! Isso te faz sentir bem…

Se você usa óculos pode argumentar que o Hug Grant também usa. Se tiver síndrome do pânico pode dizer que a Maite Proença também tem. Se é cleptomaníaco pode citar o Winona Ryder. Se transou com travestis pode dizer: “normal, o fenômeno também transa”. Se é ninfomaníaco, o Bruce Willis também.

É pra isso que servem as celebridades. E ponto final! Não adianta mais vir com historinha do tipo: “ah, mas que diabos, porque a Rita Cadilac ganha tanto dinheiro, o que ela faz afinal?”. Ora, como assim o que ela faz? Ela dá pra vários caras! O que, automaticamente, a torna um padrão social, deixando as mulheres que dão para vários caras tranqüilas.

Por isso, antes de criticar a celebridade alheia, é bom saber o que existe na mídia que te faz sentir bem. Eu, por exemplo, admiro e me espelho em figurantes do Zorra Total…

… fracassados esperançosos.

 

Picasso - girl before a mirror

Picasso - girl before a mirror

Fevereiro 3, 2009

GARBAGE CAN…

E então o homem se fez e multiplicou. Primeiro Adão, depois Eva, depois Caim e Abel, depois mais uns, e outros; o homem fez família, irmãos, primas, tios, avós; abriu fazendas, construiu templos, arou a terra; plantações, construções, aldeias, vilas, cidades; abriu estradas, lapidou pedra, domesticou animal; inventou crenças, rezou para Deuses, depois um, depois vários, depois nenhum; o homem cresceu, criou consciência, estudou o céu, o mar, o fogo; aprendeu a desenhar, pintou quadros, coloriu paredes, desenhou projetos, inventou palavra; e o homem continuou, crescendo, crescendo; cidades, Estados, países; colocou navios no mar, aviões no céu; comeu da carne, comeu do mar, comeu da terra; cresceu; fermentou e brotou nos mais diversos cantos; no frio, no quente, no seco, no molhado; o homem não parou de crescer; represou rios, cavou a terra, queimou petróleo, plastificou montanhas.

E então Deus voltou de férias. Bronzeado, de óculos de Sol, camiseta colorida, protetor solar. Abriu a geladeira e pegou um bolinho azul lá no fundão:

- caceta! Tá embolorado…

E o homem morreu na lata de lixo…

será ele voltando de férias?

será ele voltando de férias?

Fevereiro 2, 2009

ORDEM DOS ÉBRIOS CAVALEIROS URBANOS

Eram uma Sociedade Secreta, um dos braços da maçonaria internacional, cuja especialidade era a penetração de festas e eventos sociais. Chamavam-se Ordem dos Ébrios Cavaleiros Urbanos. A diretoria consistia em cinco membros, que organizavam e entravam secretamente nos festejos mais longínquos e distantes em busca de diversão e mocinhas indefesas.

A tarefa naquela noite era arriscada. O prolixo legionário responsável pelo departamento estatístico fez as contas e alertou sobre um possível desastre: “Certamente há grande chance de nos encontrarmos em desvantagem pelo baixo número de fêmeas, mas, caso isso não ocorra, as chances de sucesso crescem na mesma proporção, pois, para cada mulher a mais, o que se segue é um número de concorrência negativo”. Apesar das poucas chances de sucesso, o espírito mercantilista do grupo foi mais forte e todos assumiram os riscos da empreitada.

Passaram antes no Carrefour para, num ritual iniciático, adquirirem um bem precioso. O segredo para todos os males estava naquele litro de cerveja importada. Era o elixir que curaria e fortificaria o grupo em caso de um grande revés – o tesouro secreto da maçonaria.

Montaram em seus cavalos, engataram a quinta e saíram em peregrinação à Terra Prometida.

Na chegada, tensão. Entraram em fila indiana; silvos tensos de: “ihhhh fudeu”, eram proferidos pelos que atravessavam a porta. A situação era pior do que esperavam. Eram como uma matilha de leões famintos numa estufa de flores, ou, para melhor ilustrar a metáfora, como Tacoberry e Moses Hightower adentrando sem querer o Blue Oyster Bar em “Locademia de Polícia”.

O grão-mestre do grupo perímetrou a área. “É o seguinte, existem duas ou três disponíveis, não vai dar pra todo mundo, mas em compensação a concorrência no local é nula”. Fizeram o cumprimento secreto da Ordem dos Ébrios Cavalheiros e juraram pelo Grande Pegador do Universo honrar a noite com pelo menos uma bitoquinha heterossexual.

A cerveja importada, arma secreta do grupo, foi levada a um esconderijo pelos braços de um dos membros da Sociedade Secreta aliada da Ordem do Arco-Íris da Lua Gay. Era algo que deixava a todos tranqüilo, pois, caso tudo desse errado, podiam ainda contar com o geladinho liquido sagrado para curar os males.

Acuados estavam os Cavaleiros. Eram como espartanos se defendendo de um exército de Xérxes rodrigo-santorianos. Fechou-se o circulo, decidiram traçar estratégias. “Ok, uma parte fica aqui dando porrada nesse saco de pancadas, coçando as genitálias e cuspindo no chão, enquanto isso eu e mais dois vamos até a sala onde tá rolando o som. Se não voltarmos em 5 minutos, vocês já sabem… sumam daqui”.

A arte da balada é como a arte da guerra, a virtude principal de um homem de campo nos dois casos é a mesma: Atenção! É necessário atenção, principalmente por parte dos generais. A diretoria da Sociedade é um organismo único, de idéias uníssonas, com harmonia de ordens e atitudes. Mas sempre existe um animal mal-informado, como o assessor jurídico, que com suas tendências homer-simpsinianas saiu perímetrando a área sozinho atrás de espólios hetero-feminino, mas, quando de face com o tesouro secreto do grupo, abriu-o sem cerimônias, tomando por conta própria uns goles.

No front, a situação era complicada. A Ordem dos Cavalheiros Ébrios estava cada vez mais acuada. Um dos ilustres membros sofria pesadas cantadas gentis de difícil esquiva. Acuado num canto com uma lata de cerveja nas mãos, ele se viu rebaixado na cadeia alimentar do sexo; estava agora em condição de presa. Uma comitiva de resgate foi organizada, mas acabou desestruturada durante o trajeto.

As luzes apagaram. Gritinhos de “uhuu” foram ouvidos no salão. Alerta vermelho. Era hora de reunir a todos e verter o liquido mágico. Uma comitiva especial foi enviada para trazer o tesouro e refestelar os ânimos. Mas, na volta… só más notícias. Alguém havia consumido grande parte e não daria mais de um gole para cada.

Raiva, fúria, dor. Os sentimentos eram os mais intensos. Uma fagulha de guerra surge no ar. “Vamos dar porrada nesses viadinhos! Eles roubaram nossa cerveja!”. Ao que a ala jurídica chega, totalmente desinformada, e confessa o crime: “Ah, a cerveja era de vocês?”.

Combalidos pelo fogo amigo, sem ânimo e cansados, os membros resolvem se concentrar na oferenda aos céus para poderem partir de vez daquele perigoso local. Em uma rápida deliberação decidem usar Aquiles, o guerreiro de emergência.

A vítima é uma morena, alta, sensual de tendências hétero. O grupo chega para Aquiles, que dorme bêbado numa cadeira. O grão-mestre joga água em seu rosto, desfere uns tapas motivacionais, arma-lhe com uma lata de cerveja e diz: “Vá Aquiles! Que haja glória em vosso combate”…

A casa toda se transforma num grande Coliseu, com rufares de tambores e gritos de incentivo: Aquiles, Aquiles, Aquiles!

Sem muita conversa a vítima é derrubada. Aquiles inicia uma seqüência de golpes fatais. Porrada, soco, ponta-pé…

Não, não Aquiles! Não era pra bater…

templars

Janeiro 27, 2009

BAIXA AUTO-ESTIMA NA HORA DE COMPRAR?

E os caras tem essa pesquisa pra medir a tal “confiança do consumidor”. Vi na manchete da Folha Online: “Confiança do consumidor americano volta a ter queda recorde”. Tá, ok, o consumidor anda com baixa auto-estima agora… 

O que me faz perguntar: Como eles medem a confiança do consumidor? Será que fica alguém do instituto de pesquisa ali, plantado no Wall Mart, com uma pranchetinha na mão:

- Ei, senhor. Por gentileza…
- É, Pois não.
- Por favor, o senhor vai comprar essa lata de atum?
- Sim, pretendo.
- E, por gentileza, como está se sentindo? Está confiante, acha que vai dar certo, acredita que a transição vai ser efetuada com sucesso?
- Olha, pra ser sincero já fui mais confiante. Ultimamente tem dado um desanimo tremendo, acho que é falta de vitaminas.
- Humm ok, deixa só eu marcar aqui, queda de confiança. Muito obrigado.
- Só isso?
- Sim, sim, muito obrigado, boa sorte com sua compra.

Outra pergunta é o que as pessoas fazem com uma pesquisa dessas? Digo, o que me importa se o consumidor está confiante, ou não? Até porque isso é relativo. Ele pode estar desempregado há um tempão, comendo pão seco e sopa na janta, mas se o cara transou na noite de ontem ele vai às compras que num o Bruce Willis na manhã seguinte:

- Ei mocinha, você aí do balcão, me vê três pãezinhos, cem grama de mortadela e um maço de L&M.
- Mais alguma coisa, senhor?
- Não, só isso gatinha, muito obrigado.
- Nossa, que confiança o senhor tem na hora das compras. Isso é raro hoje em dia.
- Valeu baby. Tenho mesmo. A propósito, pendura tudo que eu to sem grana!

Confesso que não sou lá muito confiante na hora das compras. Não sei porque, às vezes bate um certo complexo, fico meio mal, com vontade de sair correndo. Tenho um amigo que é bom. Do tipo comprador, saca? Segundo ele você tem que olhar nos olhos, acreditar em você, segurar o cartão de crédito com propriedade e dizer firme: “parcela em 12 vezes pra mim, por favor.”.

 

compre, compre sempre! Não pare de comprar...

compre, compre sempre! Não pare de comprar...

Janeiro 26, 2009

A MULHER DE DORIVAL

Que situação! Logo eu! Logo eu que tive por Norte nunca me envolver com a mulher dos outros. Eu, homem de caráter ilibado, digno da mais fina aristocracia inglesa. Homem sério. Sim! Correto. Logo eu, por que meu Deus? Diga-me nobre leitor, de que adiantam tantas horas lapidando a moral nos mais garbosos quilates éticos, se ao redor só o que há são ladrões de costumes? E logo Tina Monteiro, a mulher de Dorival. Podia ser qualquer outra. Podia ser a esposa de Teodoro, aquele paspalhão! Mas a mulher de Dorival era demais. Não, Dorival não! Homem ético, tão apaixonado pelo direito quanto eu. Só de pensar quantas horas perdemos discutindo as relações humanas, arquitetando um caráter modelo. Tudo isso para ser roubado por uma vigarista, uma usurpadora.

E agora me vejo nessa situação, nobre leitor. Imagine só. Fim de festa na mansão de Dorival, maioria dos convidados já ausente, só alguns poucos embriagados de champanhe e Tina Monteiro, com sua mini saia e pernas escandalosas. Ela se insinua, chega mais perto, encosta, fala no meu ouvido. “Vem pro quarto, vem!”. Cuspo longe o champanhe em puro sobressalto. “Cara Tina, por favor, creio que a senhorita bebeu demais”. 

E então, num ato violento, vejo-me sendo puxado pela mulher de Dorival em direção ao quarto. Debato-me desesperadamente tentando pensar no assunto. A mulher havia me pegado de surpresa. Não houve conversa, nem acordo, nada. E onde ficam meus direitos como homem? Hein? O que ela pensa que eu sou? Arrastar-me assim para o quarto? Penso em usar de violência, mas seria estranho explicar ao amigo aquele vergalhão no olho direito de sua esposa: “Desculpe Dorival, mas ela estava descontrolada”. No entanto, talvez fosse mais fácil do que explicar o flagrante em sí. E se nos pegasse na cama? O que dizer? Eu, nu, sobre ela tentando me explicar: “Desculpe, mas eu sempre disse que ela não prestava. Eu sempre disse! Olha só, tá vendo?”.

Usando de força bruta ela consegue me arrastar pelo corredor, ao que derrubo todo champanhe em cima da minha camisa de cetim branca. Maldita, ainda me custou uma peça caríssima! Ela interrompe a agressão e começa a lamber minha vestimenta. Louca! Só pode estar louca! Num ímpeto exagerado rasga minha camisa e passa a língua pelos meus músculos fortes. Sim, eu malho. Horas na academia, mas, porra, não era exatamente pra isso. Pelo menos não pra mulher do Dorival. Logo a mulher do Dorival! Que puta mundo cruel.

Fico a pensar nos anos de amizade, no risco de pôr tudo a perder. Nesse momento verto uma lágrima, mas não sei se é de tesão ou de tristeza. Tomo então uma resolução: usarei de força bruta se necessário, mas não hei de comer essa mulher! Não, de jeito nenhum! “Vem aqui gostosão, quero você todinho, agora!”.

Eu bem que alertei Dorival. E não só eu, todo mundo! Não é bom pegar essas mulheres mais novas. Ainda mais ele, um homem de posses, influente na sociedade, com ótimo trânsito entre as mais altas  esferas econômicas. Mas ele queria, queria porque queria. Agora deu nisso. Só podia dar nisso. “Gostoso, sempre te amei em segredo”, dizia a mulher de Dorival já colada ao meu pescoço.

Não vou negar que estava sexualmente excitado. A dureza de meu caráter rivalizava com a de meu pênis. Não queria ter ereção com a mulher de Dorival, mas eram curvas generosas. É, no fundo é isso que fode… qualquer mulher com esse aposto não deveria me fazer sentir tesão: Fulana, mulher de Dorival. Seria a mesma coisa que dizer: Fulana, a assassina, ou Fulana, a mulher com herpes. Mas certas coisas o homem não tem controle. Não podemos influir no tempo, no clima, no universo e muito menos em nossos próprios pênis. E para meu desespero, quando ela descobriu toda minha rigidez, avançou como um cavalo para a batalha. Ainda sorriu, crente de que podia contar com a lança do inimigo para o derrubar.

Claro que não fiz nada e depois contei tudo para Dorival…