Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘política’ Category

Acabei de ver dois filmes que neste momento são como um assento na janela no vagão principal da locomotiva humana. O primeiro chama-se “Us Now”, ou “Nós Agora”. Achei numa lista de documentários num blog qualquer na internet (nunca tinha sequer ouvido falar). O outro é o novo filme do cineasta americano Michel Moore: “Capitalismo: uma história de amor”. Combinados, os dois são uma viagem vertiginosa através dos ventos da mudança.

É estranho pensar nisso, aqui, sozinho no meu quarto, num pedaço de chão do velho Centro-Oeste. Há alguns anos estaria isolado, me comunicando por carta, interurbanos, telegramas, longe do núcleo pensante e das discussões que me interessam. Mas um computador, internet e algumas ferramentas na web me colocam em contato com toda a humanidade. Seja em mensagens instantâneas, grupos de discussão, fóruns, redes sociais. Do meu quarto eu vejo o mundo e participo dele numa espécie de acrópole digital.

“Uma revolução não começa quando a sociedade adota novas ferramentas, começa quando a sociedade adota novos comportamentos”, diz o escritor Clay Shirky logo no início do documentário “Us Now”. E de fato, eu, que ainda sou considerado jovem, lembro bem do começo da internet. Do barulhinho estranho da conexão discada e da demora para carregar uma foto. Em menos de 10 anos a coisa toda deu um salto e agora nos comunicamos em tempo real, discutimos, vemos nossa casa do espaço, votamos, baixamos filmes e até pedimos pizza pelo twitter.

A sociedade já adotou novas ferramentas. A internet já faz parte do nosso dia-a-dia. É uma canal poderoso de democracia, de participação popular e de tomadas de decisões. Só falta agora adotar novos comportamentos. E é aí que nós, brasileiros, podemos nos dar mal. O filme de Michel Moore mostra como a mudança está acontecendo lá nos Estado Unidos. O país caminha à passos largos para uma mudança estrutural tanto na sociedade quanto na economia, ele chega até a propor em certo momento a adoção do socialismo. Pessoas se organizam em passeatas, greves, mandam cartas para seus deputados, cobram ações do seu senador. O cineasta mostra a força do povo no início da crise econômica, ao pressionar pelo não socorro aos bancos e logo depois na eleição de Obama.

Enquanto isso, aqui, em terras-brasilis, a maior utilização das redes sociais até agora foi o incremento na audiência do Big Brother. Este é ano de eleição, mas fora uma ou outra coluna de jornal, não existe uma discussão na sociedade sobre o que queremos ou não para nosso país. Usamos o twitter para dizer o que comemos no almoço, o Orkut para mostrar as fotos da festa do último fim-de-semana e o Facebook para mostrar o quanto sabemos escrever bem em inglês. Os assuntos mais acessados em sites de notícias são Big Brother e confusão com celebridades. Em resumo, o brasileiro ainda não adotou novos hábitos e isso pode nos custar aquele futuro tão desejado mais uma vez.

Aqui em Mato Grosso a televisão continua bombando a cabeça da galera. Não existe oposição ou grupos de discussão. Logo aqui, talvez o local mais estratégico para o futuro do país, a coisa marcha como no século passado, com políticos corruptos, empresários fraudulentos e sociedade civil apática. Pela primeira vez na história temos a chance de fazer algo realmente de vanguarda, de encabeçar uma economia sustentável no planeta, de dar o exemplo, de promover o brazilian way of life. Mas ao invés disso o desmatamento continua a comer solto o nortão para alimentar bocas e estômagos vidrados em Big Brother e seus merchandising maravilhosos lá no Sudeste.

É hora de agir! Não aquela ação de outrora de pegar em armas ou promover saques, mas a de simplesmente ficar ligado no mundo. Só isso talvez já baste! Saber o que acontece, entender o funcionamento e descobrir qual o seu papel dentro da sociedade. É hora de nos tornarmos cidadãos, de questionar certas coisas e não admitir mais nos enfiarem porcarias guela abaixo. É hora de questionar a mídia, o seu deputado, a empresa que te vende shampoo. É hora de parar de sonhar com dinheiro, de querer virar celebridade. É hora de ridicularizar grandes executivos que acham que são bem sucedidos, de questionar fortunas, de querer transparência, de procurar a verdade!

A sociedade já adotou as ferramentas… está na hora de você adotar novos hábitos.

Read Full Post »

“É perda de tempo tentar entender o momento em que se vive”, falam os filósofos. A história deve ser analisada em perspectiva, dizem os doutores. Mas quando não parece haver muitas perspectivas futuras, analisar o presente é um dever de todos nós. Pare e pense: o que significa essa época de crise ambiental? Por que chegamos nesse ponto e por que tanta gente se recusa a admitir? Será que esses anos todos de mercado, economia, conforto, bens, serviços nos anestesiou os sentidos. A realidade paira em outra dimensão, longe, em florestas, rios e mares sem câmeras de segurança?

Na última sexta-feira a senadora Marina Silva deu uma palestra aqui em Cuiabá durante o congresso de jornalismo ambiental. Com um discurso afiado, lógico, coerente, ela faz tudo parecer simples. Existe um problema, o mundo já diagnosticou esse problema, sabe da sua existência e pretende unir forças para superá-lo. Pelo menos uma boa parte das pessoas. O que parece ilógico nessa história toda é que tem gente que quer continuar batendo carteira no salão de festas do Titanic. Pra gastar aonde é que eu não sei.

Atualmente, aqui em Cuiabá, a Assembleia Legislativa modificou o estudo de zoneamento do estado. Era um estudo de mais de 20 anos, que consumiu cerca de 30 milhões de reais dos cofres públicos. Os deputados fizeram uma primeira tentativa de estragar o troço no ano passado, colocaram o resultado do estudo técnico para consulta popular, foram em 15 municípios, consumiram um bocado de grana e apresentaram uma contra proposta muito parecida com a primeira. Ficou ok, disseram os ambientalistas. O medo inicial era de que tudo viesse por água abaixo, mas a população entendeu o problema. A maioria das reservas legais e terras indígenas permaneceram iguais Ponto pra sociedade. Mas deputado que é deputado não representa a sociedade, representa financiador de campanha. Uma nova proposta surgiu do nada para substituir o estudo original, o temido substitutivo 2, que acaba com cerca de 60% das reservas legais, tira 15 terras indígenas em processo de homologação, permite plantar cana perto de nascentes e foi feito em TRÊS meses.

Talvez existam duas explicações lógicas para isso. A primeira é a de que o sujeito acha que tá tudo fudido mesmo e que foda-se o mundo, vou desmatar mais esse trecho aqui, aquele lá, plantar mais um bocado aqui e continuar gastando a grana em putas e whisky. Talvez o indivíduo já esteja tão descrente, mas tão descrente de qualquer coisa que só queira esperar os dias passarem, ver a coisa toda ir pelos ares como num daqueles filmes catastrófico de Hollywood que ele viu lá na tela de LCD da fazenda. No fundo ele quer que tudo acabe de uma hora para outra, assim, de repente, como um infarto numa manhã de domingo. Sem escassez d’água, de comida, de energia, sem ver os filhos, parentes e amigos definharem em dor. Apenas a tragédia final.

O cara não deixa de ser um filho-da-puta.

Outra explicação é a de que o sujeito seja uma ameba. Mas, mesmo esta não é uma explicação muito lógica, pois como explicou Francisco de Arruda Machado, da faculdade de biociências de Mato Grosso, durante o congresso de jornalismo ambiental: “Nem uma ameba ele é! Porque no seu microuniverso a ameba é capaz de decidir o que é melhor para a própria sobrevivência”.

Read Full Post »

“Existe um tipo de obra muito impopular na construção civil. É o trabalho sujo, aquele que não aparece quando pronto, causa muito transtorno na execução e só é lembrado quando é mal feito(…)”.

Na noite de domingo, após alguns copos de café, digitava estas primeiras palavras. Era o início de um texto que nunca foi publicado sobre a empresa Cuiabá Saneamento. O “trabalho sujo” era uma referência a tarefa em si, de sanear esgotos, mexer com dejetos humanos, encanamento. Sujo mesmo, de sujeira! Estava escrevendo para uma revista de São Paulo, uma dessas publicações apelidadas pelos bussenessesmans de: House-Organs. Geralmente bancadas por empresários barrigudos que sabem bem a importância social que tem uma fotinho margeada por um bom texto elogioso.

Chamei um dos melhores fotógrafos que conheci por essas bandas, Silvio Esgalha, um bom homem, apaixonado por pássaros e natureza. Conheci o sujeito durante a “Caminhada da Natureza” em Coxipó do Ouro, distrito de Cuiabá. A tal caminhada é um projeto da Prefeitura que visa incentivar as pessoas a caminhar no mato. Nada muito grandioso, nem eficiente. Alguns poucos membros da imprensa apareceram por lá, quase tão poucos quantos os participantes em si. Eu mesmo não fui a trabalho; meu amigo Júlio, turismólogo, teve a idéia de ir de bike, cerca de 40 km por estrada de chão. Fomos, e lá estava Sílvio, batendo algumas fotos para a Prefeitura. Caminhada, rios, árvores, animais e, no fim: cerveja. Nada como uma gelada num bar para revelar a natureza humana. Lembraria de Silvio quando tivesse a oportunidade.

“Grande Silvio”.

“Fala garoto, tudo bem?”.

“Tudo. Como vai o trabalho?”.

“Bem graças a deus”.

“Me diz uma coisa, você só fotografa natureza mesmo?”.

“Sim”.

“Então tenho um trabalho pra você”.

“Manda lá”.

“Fotografar umas espécies raras de empresários mato-grossenses”.

“Vamos nessa”.

Não tive muita informação da editora lá de São Paulo sobre como conduzir exatamente a matéria. Teria que ligar para um tal de Borges, o contato da empresa no estado. Até liguei, mas o cara tinha recém voltado de férias do Nordeste e ainda estava no slow motion. Resolvi ir atrás dos contatos por conta própria.

Era um trabalhinho simples, pouca grana, jogo rápido. Essas revistas funcionam assim, um agrado jornalístico, mais ou menos como uma caixa de bombom com o logo da empresa.

Até o momento a coisa mais especial que a Cuiabano Saneametos tinha para a mídia era o fato deles terem comprados 12 tratores da Cater Pilar (empresa dona da revista), motivo principal de um jornalista freelancer (no caso eu) estar sentado na sala de reunião com a diretoria da empresa. Na minha frente estavam dois dos quatro donos do Consórcio, um engenheiro responsável e um deputado estadual.

Eles explicaram que iam limpar o esgoto da cidade com as obras do PAC. Disseram que atualmente apenas 20% da cidade têm coleta de esgoto e demonstraram grande interesse em “salvar o pantanal”. Falaram de sustentabilidade e da importância de limpar a cidade.

(…)É um projeto grandioso, só em Cuiabá são R$ 230 milhões que serão investidos até o inicio de 2011. O Estado vai entrar com 18 milhões, a Prefeitura com 40 milhões e o restante virá direto do Governo Federal através do PAC. “As coisas demoram, mas geralmente chegam em um momento oportuno. Com essa conscientização ambiental, uma obra dessas ganha outra dimensão”, acredita Antônio. O empresário diz que Cuiabá deu um grande salto no começo dos anos 70, mas que agora o Brasil está pronto para redescobrir Cuiabá. “Com essas obras vamos crescer muito. E o que é melhor, crescer de forma sustentável”. (…)

Um dos empresários fez uma proposta de trabalho, queria uma espécie de blog para divulgar o andamento da obra, disse que tinha interesse nesse “mundo virtual”. Acenei com a cabeça. “Quem sabe”, disse sem prometer nada. No final da entrevista marcamos de ir até um dos locais das obras. No caminho, enquanto um deles dirigia a caminhonete importada,  conversaram sobre partidas de tênis e grandes obras de engenharia no exterior. No sol do meio-dia, Silvio fez o que pôde. Clicou os sujeitos com chapeuzinho de obra, caminhando em frente aos tratores da cater pilar. As fotos não ficaram lá muito boas. A obscura natureza humana não é o forte de Silvio.

(…)No caso de Cuiabá o peso ambiental pode ser multiplicado pela importância sem precedentes do Pantanal. O Rio Cuiabá corta a cidade, dá nome a capital mato-grossense e deságua direto no Pantanal. Como lembra João Cândido: “existe uma rixa entre Campo Grande e Cuiabá para saber qual é a capital do Pantanal, uma vez que o bioma fica nos dois estado. Não tenho dúvidas que é Cuiabá, pois toda água que usamos aqui deságua diretamente lá, o Pantanal começa aqui. E isso só nos traz mais responsabilidades, pois se não fizermos as obras de saneamento necessárias agora, no futuro seremos muito cobrados por isso”(…)

Consegui terminar a matéria apertado, horas antes do deadline. No dia seguinte, após uma noite agitada, com o corpo rolando por horas de um lado para o outro tentando absorver a cafeína, cheguei atrasado no trabalho. Na redação os jornalistas agitados cobriam uma operação da PF. O repórter Jonas Campos já estava na rua desde as cinco da manhã, enviando notícias pelo celular para a redação. Quem atendeu uma das ligações foi Marcy, o editor do online. “Já tem os nomes? Sim, pode passar”.

Alguns minutos antes eu havia contato a história toda para ele a fim de justificar o atraso. Disse que passei o final de semana terminando um freela, falei da entrevista e também citei o deputado que estava lá. Provavelmente foi por isso que Marcy fez aquela cara enquanto escutava os nomes através do telefone. Segundos depois de desligar ele olhou para mim um tanto atônito:

– Sabe esses caras que você entrevistou?

– Sim…

– Estão todos presos.

Durante vários meses a imprensa acompanhou de perto as notícias sobre a fraude nas obras do PAC. A TV colocou algumas matérias em rede nacional, mas como o interesse por essa região é pequeno, elas rarearam já na segunda semana. O procurador do município foi preso, o deputado estadual e os empresários também. A suspeita é de que houve fraude na licitação. As empresas já sabiam que iam ganhar. Algumas escutas telefônicas vazaram, o prefeito ficou mal na foto, o governador gostou, a turma toda foi solta na semana seguinte pela justiça, as obras ainda estão paradas e eu e o fotógrafo até o momento ainda não recebemos. O rio Cuiabá continua igual. Ainda manda os dejetos humanos de cerca de 800 mil habitantes para o maior orgulho do estado: o Pantanal.

É… o esgoto de Cuiabá é mais sujo do que se pensa.

Trabalho sujo

Trabalho sujo

Read Full Post »

Política e mídia se misturam em Mato Grosso. Deputado bom é deputado na TV. E não só em propaganda eleitoral. Pra ser lembrado pela população o político precisa aparecer, sorrir em outdoors enormes, ter um ônibus com a lataria pintada e apresentar seu próprio programa de TV em alguma afiliada local. Um desses camaradas é o nobre deputado estadual Sérgio Ricardo (PR). Confesso que não sou um telespectador assíduo do seu programa criativamente chamado de “Programa do Sérgio Ricardo”, mas estou nesse momento com a TV ligada ouvindo o nobre deputado falar vestido com sua camiseta do Palmeiras e a vontade de escrever me é incontrolável.

Ao que parece o programa dele é todo sábado. É um dos lideres de audiência no estado (pelo menos é bem comentado entre a população). Mas ainda não deu pra sacar muito bem como funciona o tal programa. Após vinte minutos em rede estadual, tudo o que ele fez foi passar hinos de times de futebol e comentar: “ah, esse hino do inter é muito triste, coloca o do grêmio aí”, e aí o sujeito lá na cabine troca: “ah, esse é melhor”. Na chamada para o intervalo passa a vinheta com cenas do deputado distribuindo peixe para os pobre e percorrendo as rodovias do estado com seu luxuoso ônibus estilo cantor pop-sertanejo; com rosto e número do partido pintados na lataria.

Acho incrível a presença constante de políticos nas ruas de Cuiabá. Na maioria das vezes estão fazendo joinha ao lado de uma frase emblemática estampadas em gigantescos outdoors: “Parabéns Cuiabá, sua bonita!” ou “Muito obrigado governador Maggi por trazer a Copa para a gente”. Isso tudo mais os carros adesivados, os pobres (e não tão pobres) com camisetas políticos e os tais ônibus particulares tunados de sertanejo-pop. E o que é mais assustador: estamos há mais de um ano das eleições. Não quero nem imaginar como essa cidade vai ficar daqui uns meses.

De volta do intervalo o deputado anuncia com entusiasmo: “E atenção, hoje tem jogo no Jardim da Glória valendo o Troféu Sérgio Ricardo”. Entra correndo um cantor de lambadão mexendo o corpo todo cantando playback: “e vai no vuco-vuco, e vai no vaco-vaco”. Uma cuiabana vestida com roupas exageradamente típicas aparece e diz: “vou declarar um poesia para você Sérgio Ricardo”, respira fundo e começa: “Sérgio, você não é revista, mas estou sempre Contigo, não é a TIM, mas meu amor por você é sem fronteiras…” e vai seguindo numa lírica majestosa capaz de matar um poeta envenenado.

Ainda me pergunto até quando a população vai aceitar esse tipo de programação? O fim inglório desse tipo de promiscuidade deveria ter ocorrido com a prisão de Lino Rossi, apresentador do “Cadeia Neles”, programa líder de audiência no horário (sic) do almoço! Anos à frente da atração, Lino Rossi, o político que consegui se eleger vereador, deputado estadual e depois federal, bradava contra os bandidos em rede estadual. “Tem que ter pena de morte!”. “A polícia tem que matar, sim!”. “Lugar de bandido é na cadeia!”. Isso até o dia em que foi preso, acusado de ser um dos principais beneficiários da máfia dos sanguessugas. O programa, claro, continuou líder de audiência com outro apresentador. Além do mais, o nobre político foi solto logo em seguida e ainda aguarda julgamento.

Não tive saco de acompanhar o programa do Sério Ricardo até o fim, joguei no mute e vim aqui escrever esse texto. Enquanto digito tem um telefone na tela piscando pedindo doações. Até tentei aumentar pra saber mais sobre isso. Doações? Pra que esse cara quer doações? Mas o controle remoto há dias não funciona e o botão da TV ainda tá quebrado. Preciso comprar pilhas. Jornalistas podem pedir doações?

Doações? pode sim amigo!

Pode sim amigo!

Read Full Post »

Enquanto a coisa toda pegava fogo (literalmente, pois o tenente Lara resolveu incinerar seus apretrechos farrísticos) , eu tentava achar um gabinete de um vereador honesto para negociar um computador. Claro que não estou tempo o suficiente na cidade para saber quem é honesto ou não, por isso pedi ajuda ao repórter Fábio Menegatti, que após pensar um bocado, me indicou um com a seguinte ressalva: “É o menos pior”. O nobilíssimo vereador  indicado concordou e pediu para uma secretária me acompanhar até uma salinha contigua onde ligou um monstro eletrônico de filme futurista dos anos 80. “É um pouquinho lento”, lamentou enquanto o processador rugia mal humorado. Um pouquinho? Pelos meus cálculos aquele troço só iria pegar lá pro final da sessão. “Ok, deixa ele ligado aí que quando eu tiver alguma matéria eu venho correndo e mando”. “Ah, precisa de internet? peraaí que eu vou conectar pra você”, e pegou um fio telefônico empoeirado do chão.

Saí dali com a certeza de que não voltaria – se é difícil imaginar um mundo sem internet, pior ainda é imaginar um sem banda larga.Entrei pelos corredores e me perdi da equipe. Subi um lance de escadas e fui parar no plenarinho, lugar de intensa e nervosa concentração popular. Ali as pessoas seguravam cartazes, faixas e gritavam para o grupo de vereadores acuados na parte de baixo. Era como uma arena romana, com torcida por decaptação, entrada de leões e lutas de espada. Uma mulher do meu lado estava indignada e gritava a plenos pulmões: “Isso é um absurdo, como pode? esse presidente da câmara aí também é pedófilo, e bicha!”, era eleitora de Ralf Leite – Destaco aqui o seu depoimento pois era isolado; a maioria queria mesmo é ver a cabeça do vereador pedófilo numa bandeja.

O suor brotava dos poros como torneira ligada. Lá fora a temperatura ambiente devia estar próxima das 40 graus. No plenarinho o bafo era algo como cinqüenta graus de indignação. “Ladrão, pedófilo, filho-da-puta”. Cada espaço ali era disputado e eu fui abrindo caminho dizendo: “imprensa, opa, imprensa, opa, com licença”.

Sem dúvida que eu não devia estar ali, a sala dos jornalistas era lá embaixo, mas por alguns segundos quis sentir o clamor popular por justiça, bater umas fotos e fazer uns vídeos em baixa resolução. Fui contaminado pelo clima de indignação, não a ponto de começar a quebrar tudo, mas o bastante para desejar que isso acontecesse. Poderia ficar alí até o final, mas entrou aquele sujeito gordaço, esbarrando em todo mundo e causando tumulto. Ele virou pra parede, colocou o polegar na narina esquerda, e chuuuu, mandou bala jorrando uma punhado de catarro que ficou grudado na parede. Depois disso ainda esfregou o que ficou pendurado nos dedos e voltou a assistir a cassação tranquilamente. Nessa hora não pude evitar as constantes dicas de saúde da Sandra Anemberg para evitar a tal gripe suína. Achei melhor me retirar para a sala dos jornalistas.

A câmera e a câmara funcionavam a todo vapor: Fotos, vídeos, depoimentos, poses, xingamentos, flash. A intenção era montar uma galeria de fotos ou um vídeo com os bastidores. Eu e o editor Neto gostamos de inovar e trazer uma visão diferente do que é apresentado nos jornais. Nem sempre conseguíamos. Cada vez que usava a câmera um risquinho da bateria ia embora. Nem percebi quando o troço começou a piscar. Desliguei. Era bom economizar.

Na sala da imprensa cinegrafistas e jornalistas disputavam a cotoveladas cada centímetro disponível. O problema é que ali não dava pra usar o truque da “imprensa, opa, com licença”, mas mesmo assim fui cavando lugar até encontrar Walcir, nosso cinegrafista, disputando espaço com mais cinco ou seis concorrentes. Nesse momento, quando as leis da física estavam prestes a serem quebradas, uma assessora entrou e liberou só os cinegrafistas para entrarem no plenário. A saída de câmeras e tripés aliviou o lugar. E foi nessa hora, quando o horizonte da sala se abriu, que tive o primeiro grande choque do dia. Meus olhos não podiam acreditar no que estava vendo. Era uma mesa, mais ao fundo, onde os jornalistas de sites concorrentes estavam sentados com notebooks, rede sem fio e máquinas digitais. Sempre soube que nosso site tinha problemas de estrutura, mas achava que era uma coisa da situação política e econômica do estado, ou da cidade. Mas que nada! Aquela visão só me deu uma certeza: íamos tomar furo!

Continua…

Read Full Post »

A cobertura de um dos fatos políticos mais importantes de Mato Grosso começou cedo, por volta das 07h00 da manhã, quando todas as redações de sites, jornais, revistas e TVs se agitavam para ir a Câmara Municipal, no Centro Geodésico da América Latina. Era dia de cassação de vereador. Muito provavelmente o primeiro em toda história do município.

Ralf Leite foi eleito com 3.115 votos pelo PRTB. Político de primeiro mandato, parente de gente importante, filho de PM, ex-bombeiro, chegado de figurões da alta sociedade. Não fez nada de diferente do que se costuma fazer na Câmara, ou seja: nada! Não apresentou projetos, não resolveu problemas, não atendeu a sociedade, mas, em compensação, se envolveu com esquemas, fez alianças escusas, enfim, foi um vereador exemplar. Até aquela noite no bairro Zero Quilômetro de Várzea Grande (região metropolitana de Cuiabá) na qual foi flagrado pela PM cometendo o que a imprensa chamou de “ato libidinoso com um menor de idade”. O tal ato libidinoso os jornais imprimiam como “felação”, ou como é mais conhecido pelos populares: boquete, gulosa, bola-gato ou chupeta. O tal “menor de idade” era um travesti; um guri de 16 anos com prótese de silicone, coxas roliças e um gogó (entre outras coisas) saliente. Naquele momento ele recebia 30 reais para deixar o nobre vereador, representante do povo de Cuiabá, meter a boca onde não devia… Foi um escândalo!

A imprensa cobriu o caso por meses. A população indignada pixou os muros da cidade: “Fora Ralfenômeno!”. Por algum tempo o vereador conseguiu escapar. Várias sessões foram suspensas pela justiça e a velha tática de cobrir escândalos com a pá do tempo já estava quase dando certo. Mas o nobre vereador se envolveu em mais um escândalo: bateu na mulher! Aí não deu. A cena da sua esposa saindo da delegacia de olho roxo correu os jornais e televisão e reacendeu a polêmica. Não tinha jeito. O povo até que é meio bobo (como eles mesmo pensam), mas o tal Ralf realmente abusou. Aquela sessão só saiu por pura pressão e necessidade social.

O carro da TV já estava pronto. Eu ainda procurava a filmadora do online na redação, e nada! Reviramos armários, gavetas, portas e o equipamento não aparecia. É sempre assim. O site não tem lá muito estrutura e a coisa é sempre feita com improviso, gambiarra e paixão. Pra se ter uma idéia, a câmera nem era do nosso departamento, mas acabamos por adotá-la após uma série de empréstimos sorrateiros. E justo naquele dia, uma das coberturas mais importantes do ano, o pessoal do marketing deu um jeito de sumir com o equipamento. Não dava mais tempo, o editor pegou uma máquina fotográfica e disse: “se vira com essa”. Saí afoito com um bloquinho debaixo do braço e uma câmera quase sem bateria no pescoço.

Chegando lá o clima era de revolução; bandeiras vermelhas do MST e integrantes de movimentos sociais agitavam a entrada da câmara enquanto um carro de som tocava músicas de Gabriel Pensador, Geraldo Vandré e Bezerra da Silva. Um caminhão-pipa com oito mil litros de água lavava a parte da frente da Câmara e alguns manifestantes com água e sabão realizavam o ato simbólico. Mas logo a impressão inicial de “revolução” deu lugar a boa e velha jocosidade do brasileiro. Alguns personagens clássicos da fanfarronice municipal estavam lá, como o ex-vereador Tenente Lara (que você já deve ter visto nesse vídeo). Vestido de … de… de alguma coisa, ele colocava fogo, batia com um porrete, xingava e interpretava as mais diversas espetaculosidades. Tinha também um sósia do falcão apelidado de Cumpadre Banga e um integrante do MST que não fez questão de esconder sua homossexualidade desfilando de batom, maquiagem e distribuindo beijinhos envolto na bandeira vermelha do movimento.

No Brasil, desgraça de um é show de outro.

Continua…

Read Full Post »

A POSSE

Queria estar lá, sentir o vento gelado de Washington e sua pele arrepiar com as promessas de um mundo totalmente diferente. Mas, para Tadeu seria só mais um dia singelo na capital paulistana, sozinho, em casa, junto apenas de seu cão e uma televisão com sinal digital e tradução simultânea. Tentou a internet, New York Times, BBC, CNN, mas tudo estava congestionados. Lá fora, uma leve chuva tropical alivia o calor de janeiro. Chá, biscoitos, cão, TV e sofá.

Dava para ver tudo, cada detalhe, os sorrisos, olhares encharcados de lágrimas, fumacinha de frio saindo pelas bocas, toucas, luvas, casacos de lã. Pensou em cada um deles, ali, no frio, como seria a sensação de estar lá? Lembrou de uma amiga que estava, uma brasileira, cearense, jornalista. Devia ser o dia mais importante da vida dela; a tadinha devia tremer no frio como acarajé no freezer.

Globo, Band, Record, três transmissões simultâneas. Jorge Pontual fala ao vivo do meio da multidão. “É um momento muito emocionante”, voz embargada, parece que a qualquer momento vai largar o microfone e chorar como uma criança. Na Band a posse é seguida por notícias de última hora e a cotação da bolsa de valores. Na Record, a chamada não poderia ser mais Record: “Posse do primeiro presidente negro dos EUA”.

Os repórteres anunciam que John Willians vai tocar uma música composta especialmente para o dia da posse. Tadeu se ajeitou no sofá! John Willian? Essa ele tinha que ver. Seria a primeira vez que a grandiosa música da posse de Obama, composta por John Willians, o mestre das trilhas sonoras do cinema, seria ouvida. Era um dos momentos especiais! Aumentou o volume.

A câmera filma George W. Bush, um ser horripilantemente cômico. Bush tem o olhar perdido, vazio, talvez no fundo torcesse por um ataque terrorista de grandes proporções – quem sabe se explodissem o Capitólio, ou jogassem um avião na multidão. Ele queria uma desgraça, qualquer desgraça! Tudo o que almejava naquele momento era poder levantar da cadeira e gritar: “Eu não disse? eu não disse?”. Ou quem sabe se um de seus assessores ligasse dizendo que membros do exército tinham encontrado Bin Ladem numa caverna do Iraque junto de toneladas de armas químicas prontas para serem detonadas. Sim, seria sua glória empurrar Obama e gritar para a multidão: “YES galera! Acharam o homem! uhuuu”, e então se jogar nos braços do povo ao som de “gonna fly now”, do filme Rock.

Na Venezuela, Hugo Chavez também olha para a cara de Bush. Cercado de assessores e companheiros faz graça. “Mira lá cara del diablo hiro de puta, safado,menteroso!” Todos a sua volta riem, mas ele mesmo, no fundo, esta triste, inconsolável. Perder um inimigo às vezes é tão triste como perder alguém da família. Logo Bush, que era tão perfeitamente caipira, tão perfeitamente fácil de assustar, de odiar. Como pode ir embora assim? Hugo Chavez ria, mas estava triste; ainda tinha aquela delirante esperança do dia que invadiria os Estados unidos e traria o cowboy do Texas enlaçado, arrastando-o elegantemente pelas ruas de terra da Venezuela com seu cavalo.

John Willians termina. Decepção geral. Sem encanto, melodia, força, nem nada. Não chega aos pés de Star Wars! E todos esperavam no mínimo a trilha do Super-Homem. A explicação e o boato de que talvez o compositor seja republicano corre como rastilho de pólvora entre os presentes. Vai saber?

Um pastor inicia uma oração. Conclama a todos se unirem nessa nova fase. “Brancos, negros, amarelos, vermelhos, não importa mais a raça”. Enquanto reza, uma parte da multidão observa Bush. Alguns ali acreditam que é agora o momento dele derreter e sair um diabinho em forma de fumaça prometendo vingança…

…Mas isso não acontece.

Um câmeraman recebe ordens pelo fone de ouvido do diretor de transmissão. “Atenção Mike. Quero uma imagem ilustrativa do sermão. Pode ser japas, índios, árabes, aborígenes, qualquer coisa étnica, menos negros. Negros não! Negros já não são mais étnicos. Agora são o status-quo”.

Um quarteto de japinhas na plenitude dos 15, aparece no telão. Uma delas aponta pra cima se reconhecendo, todas dão pulinhos, mandam tchauzinho e por quinze segundos ficam famosas. Horas depois, quando a maioria já esqueceu delas, os gritinhos e as mensagens no celular, provavelmente, continuam.

Tadeu também reserva alguns minutos para sua singela oração de boa sorte. Queria mesmo é estar lá, quem sabe sua prece valeria mais; afinal, quem sabe o valor de uma reza? Mas no fundo ele se conforma com o fato de estar vivo para assistir ao evento. Já tinha ficado puto de perder o fim do império Romano, a festa pelo fim da Segunda Guerra, a queda do muro de Berlim, a geração de 68. Era um rapaz novo, estava na hora de presenciar algo histórico. Mesmo que fosse pela televisão.

Hora do juramento. Tadeu vê todos os detalhes pela TV. Cada ruga, cada espasmo, cada brilho nos olhos de Obama. Parece estar nervoso. Confunde-se nas palavras, engole em seco. E por fim: “So Help me God”

Tiros de canhão. Hino presidencial americano 

No Irã, Mahmoud Ahmadinejad, sentado com assessores e líderes xiitas, fuma um narguilé de morango e maldiz essa mania que os americanos têm de jurar tudo encima da bíblia: “porcos infiéis, bastardos! O alcorão é muito melhor! A bíblia é uma obra menor, de teor literário chulo e de metáforas pobres e falhas. Um dia saberão apreciar a grandeza do nosso alcorão. Alá, meu bom Alá! Mohamed. Ah Mohamed. Esse sim escritor de talento! um absurdo que o Ocidente não lhe tenha conferido um Nobel de literatura”. Seus assessores xiitas concordam com a cabeça, mas no fundo se emocionam com Hussein, o novo líder da paz.

O mundo prende a respiração. É hora do discurso. Jorge Pontual chora como criança. A amiga cearense esfrega e assopra as mãos tentando revivê-las. Chavez xinga Bush. Ahmadinejad xinga o Ocidente. Bill Clinton pára de olhar para a estagiária. Um censor chinês fica apreensivo com o dedo no botão que suspende a transmição. Obama tenta não pensar em atiradores ou ataques terroristas. Ataques terroristas e atiradores é tudo o que Bush pensa. Tadeu corre pra cozinha pegar mais chá. O Cão tem os olhos fixos na TV.

E o homem fala.

Fala com propriedade. Fala ao vivo. Fala para a multidão. Cada palavra é como um sopro de vida, cada frase é uma injeção de coragem. É como ópera, suas palavras são música, embalam o sonho de paz de milhões. Não, não é mais um discurso comum ao povo americano. É algo para todos. Para muçulmanos, judeus, comunistas, ateus, cristãos, negros, brancos, amarelos, índios. Fala de rios, de ar, de vida, do planeta. Promete uma era de responsabilidades.

Tem algo ali que é especial, todos sabem, apesar de não saberem exatamente o que. As palavras saem com força e giram as torneias dos olhos. A multidão fica estática, hipnotizada, como mosquitinhos atraídos pela luz. Difícil crer que são palavras. Apenas palavras. Pode-se duvidar de palavras, diriam os mais céticos. Mas daquelas, custariam caro.

Se fosse um filme de Hollywood, provavelmente os primeiros acordes de One, do U2, começariam junto com a frase final do novo presidente. Ele pularia no meio da galera no refrão: “In the name of Love”, enquanto os créditos finais subiriam pela tela, prevendo um futuro de “feliz para sempre”. Depois, quando a música e os créditos cessassem, George Bush, já no alto, dentro do seu helicóptero, olhando a multidão carregar Obama nos braços, daria um sorrisinho e diria: “Ok, você venceu Obama”.

Talvez em algum lugar a coisa possa ser vista desse angulo. Uma versão do real, com trilha sonora e efeitos especiais. Televisão, cinema, política. Ninguém sabe exatamente como funcionam essas coisas. O que move a humanidade? Talvez tudo não passe de uma curta encenação universal, cujo período histórico represente apenas uma cena. Eras inteiras que se encapsulam em frases. Impérios pintados em quadros. Milhões que se condensam em um.

A coisa toda foi como um filme. Tadeu, no seu sofá, junto de seu cachorro, só pensava: “Uau! Que demais!” Era a mesma sensação de quando assistiu Matrix pela primeira vez. Com a diferença de que aquilo, ao menos ao que parecia, era real… Era real! Só podia ser real…

Read Full Post »