Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Memórias’ Category

Ser Indignado!

Tenho um pouco de saudade dessa veia paulistana de falar mal dos lugares. Taí uma coisa difícil de tirar do bom paulistano: o mau-humor! Não é aquele mal-humor folclórico, de faces carrancudas e gestos brutos. É mais uma casmurrice típica, inerente, contumaz. O paulistano é praticamente um gourmet do mau humor. Ele aprecia a ruindade das coisas pra exaltar o melhor. Tenho um amigo que quando dirige um forasteiro pela capital faz questão de apontar os pontos turísticos dizendo: “ta vendo aquela estátua do Borba Gato , ali? Pois então, foi escolhida a mais feia da cidade pela Folha de São Paulo”. “Olha esse templo da Universal, foi eleita a obra mais tosca do ano pela revista de arquitetura”. Agora diga: em qual lugar do Brasil você encontra eleição para obra mais tosca? Só em São Paulo!

O paulistano tem orgulho do seu faro apurado para coisa ruim. As criticas são sempre muito mais pesadas do que os elogios, o que transforma a esculhembação numa ode ao intolerável. Um paulistano típico anda pelas ruas da cidade com orgulho de xingar os 200 quilômetros de congestionamento e se enche de brios com a força que tem de esbravejar contra as enchentes, a miséria a desigualdade. O paulistano é antes de tudo um ser indignado!

Não existe prazer mais secreto de um paulistano do que detonar o prefeito. Não importa partido, sexo, cor, nacionalidade, quem estiver na cadeira, vai ouvir. E a arte da indignação paulistana é cheia de retórica. Geralmente numa padaria, buteco, farmácia, é possível ver um ser indignado, com fala ríspida, gesticulando, com as mãos na cabeça como se a coisa não tivesse mais jeito. “É um filho da puta esse prefeito”.

Anúncios

Read Full Post »

Memento

Aprendizado

Tinha dificuldade de aprender certas coisas. Menino novo, época de descoberta, muita coisa nova, cabecinha a mil por hora. Horas em relógio de ponteiro, por exemplo, era uma delas, saber a diferença de esquerda e direita, outra. Mas o que lhe deixava verdadeiramente em apuros naquela tarde de um dia perdido da década de 80 era não ter aprendido de uma vez por todas qual que era masculino e qual que era feminino. Sabia ler há pouco tempo, e, além do mais, ou era homí ou era mulhé, ou era macho ou era fêmea, esse negócio de masculino e feminino era palavra demais pras mesma coisa. Coçou a cabeça. Seria mais fácil se tivesse aqueles desenhinhos como tinha na maioria das vezes.

Tomou coragem e entrou. Cruzou a primeira parede de azulejo e viu uma morena de costas, nua, com a pele molhada segurando uma toalha branca. Ela virou com os seios descobertos, bicos grandes em auréola roxas. Subiu a toalha branca assustada, e ele, atônito, com o sangue fluindo diferente nas veias, finalmente aprendeu o significado da palavra feminino.

O suborno

Ela tinha aquele brilho curioso no olhar quando entregou o saco de doces para o irmãozinho. Ele, um tanto desconfiado, colocou no bolso e pensou um pouco. Não estava certo se devia contar.

– Conta, você prometeu.

De fato, promessa é dívida. Já estava com os doces, agora tinha que contar. Não tinha culpa se sabia mais que ela. Essas meninas nunca sabem de nada. Era algo tão normal, como ela podia ainda não saber. Logo ela que brincava tanto de boneca, fingia que era mamãe, como não podia saber como eram feitos os bebês?

– Conta logo…

– Tá bom.

Não foi uma descrição muito demorada, na verdade foi bem breve, mas que com a ajuda de algumas mímicas e gestos manuais acabou por ser um primor de elucides. No final levantou o dedo e disse:

– Se você contar pra mamãe que foi que te contei eu vou te bater…

E saiu correndo, abrindo o saco de doces e jogando uma jujubinha na boca. “Se você contar pra mamãe que foi eu quem te contou vou te bater”, gritou mais uma vez de longe. Ela, ainda parada no mesmo lugar, sem respirar direito e com a pele vermelha, só conseguiu dizer:

– Urgth , que nojo …

Read Full Post »

Nunca tinha sido roubado na vida. Para um cara que viveu em São Paulo a maior parte da vida isso equivale a morar no Rio e nunca ter visto o mar. Não que tenha sido bacana, ou tenha me deixado extremamente feliz. Na verdade foi mais um alívio, um sentimento de: ufa, finalmente após tantos anos pertenço à cidade. E de certa maneira não poderia ter sido melhor, roubaram um celular que eu não tinha pagado nada!

Voltei à loja e perguntei se eles podiam me dar outro:
– Não senhor, desculpe, mas é impossível.
– Ah, mas porque? Vocês gostam tanto de dar celulares pras pessoas.
– Não é bem assim senhor, é uma promoção.
– Me coloca aí nessa promoção então.
– O senhor já está.
– Sim, mas eu perdi o celular.
-Veja bem, o senhor já assinou o contrato, logo já está na promoção. A operadora não tem culpa que roubaram o celular do senhor.
– Ah que droga, então eu quero cancelar essa porcaria.
– Pois não, nesse caso o senhor tem que pagar uma multa no valor de 600 reais.
– O que???
– É isso mesmo, senhor.
– Como assim? Por que?
– Está aqui no contrato que assinou, na verdade é um plano de fidelização, vale por um ano e meio.
– Um ano e meio?
– Sim!
– Puta que pariu! Então é isso que vai pagar por aquele celular?
– Claro, ou o senhor achou mesmo que a gente iria distribuir celular assim, sem cobrar nada.
– Bem que eu desconfiei! Eu sabia!
– O funcionário que vendeu o plano não lhe avisou sobre isso?
– Foi você que me vendeu o plano.
-Oh, lamento senhor, temos ordens de falar as regras contratuais em letrinhas pequenas.
– Maldição, vou ter que pagar esse celular por mais 1 ano!
– Exatamente. E para piorar sua tarifa é bem maior do que a das outras operadoras, ou seja, além do mais estará falando pelo dobro do preço.
– Você se sente bem enganado as pessoas assim?
– Na verdade, não. Mas o que eu posso fazer?… esse é o tipo de capitalismo que não se aprende em aulas de sociologia.
– Bom,ao menos tem como me dar um chip com o mesmo número? Eu uso no meu celular antigo.
– Claro.
– Obrigado…
– Err, senhor, são quinze reais!

Foi então que eu entendi que aquele roubo na madrugada não tinha valido. Afinal, é muito fácil ser roubado e não sentir a dor de ser lesado. Não, você só é realmente assaltado em São Paulo quando a coisa dói no bolso. E, sim, amigos, a sensação do roubo verdadeiro eu só senti naquela loja! Com logotipo, funcionários, CNPJ e razão social… táo arrumadinhos quando o meliante que me levou o aparelho.

Read Full Post »

Três e vinte e cinco da manhã, Aclimação, São Paulo, madrugada de um sábado de janeiro de 2008. A crise econômica mundial é o grande hit do momento. O número de desempregados cresce na mesma proporção ao de novos ladrões nas ruas da região central.
– Aí playboy, já era, passa o dinheiro!

Fui pego de surpresa, parte por caminhar cansado e bêbado, parte por não acreditar que aquele garoto estava de fato tentando me assaltar. Era um pivete bem vestido, cabelinho raspado, negro, olhos redondos, um típico bom morador da periferia, bem cuidado por no mínimo três mulheres: mãe, tia, avó.
– Não tenho dinheiro.
– Que não tem dinheiro porra nenhuma. Passa a grana!
– Não tenho mesmo, olha…
– Então me dá o celular?

Era o grande momento; a estréia do meu novo modelo Sony Ericson S500 no mundo do crime. Pensei em dar uns tapas naquela careca jovem e dizer: “rapaz, tua mãe sabe que tu ta aqui?”, provavelmente seria o certo a fazer, com certeza ele não estava armado e não era perigoso. Mas olhei com calma para aquele garoto. Hum, mais bem vestido que eu, calça jeans, sapatinho marrom, relógio da 25 de março no pulso. Pensei no tremendo bom gosto que aquele pivete deveria ter e puxei o celular, dei na mão dele e observei suas feições.

Apreensão.

Analisou por alguns segundos, girou, olhou. Não era possível. Estava em dúvida! Decidi ajudar:
– Ele tira foto.
– Ah é?
– É, 1,5 mega pixels
– Tem MP3?
– Até tem, mas não grava muitas músicas.
– Rádio?
– AM e FM…
– Bom, não sei…
– Perai, com licença… Olha só esse painel, dá pra trocar a tela de proteção…
– Isso não quer dizer nada.
– Ah, mas é um bom celular.
– É, interessante.
– É bom sim, ganhei faz algumas semanas, só.
– Pode crer. Quer saber, já era mano! Vou levar…

Emocionante…
O primeiro assalto a gente nuca esquece…

Read Full Post »

Loja vermelha, logotipo vermelho, funcionários de roupa vermelhas. O simples fato de pisar numa dessas lojas já é uma agressão aos sentidos, o que dirão os funcionários que trabalham lá.
– Pois não (em tom agressivo)
– Oi, tudo bem? Vim trocar de celular.
– Pega a senha.

Numero 3089. No painel, 3078. Um bocado de gente esperava com os nervos exaltados. Vermelho, vermelho em todo lugar. Eles têm até luzes vermelhas, neon, enfeitando os últimos modelos de celulares. Algum estrategista de marketing deve ter pensado na mecânica toda por trás da cor: “aguça o sentido consumista, o sujeito compra por impulso, sem parcelar nada, deixa tudo o que tem à vista, se afunda em dívida”. Mas os homens de marketing nunca pensam em quem tem que ficar lá dentro o dia inteiro, ou nos clientes que ficam horas esperando seu número no painel. Mas isso não é problema deles, se algum dia descobrirem que para vender bastante é preciso um ambiente quente, abafado, com cheiro de bosta e fogo saindo das paredes, foda-se, por que não?

3081. Amasso, dobro, faço origamis com a senha. 3082. Engraçado como as pessoas adoram loja de celular. Famílias inteiras vão comprar aparelhos juntos, como se fosse num comercial: namorados, pai, filho, filha e pai, casais de velhinhos, empresários, secretárias, é como se todos os estereótipos da propaganda da TV se materializassem e fossem atraídos alí como mosquitinhos para a luz.

3089… Sou eu!
– Eu vim porque me ligaram, disseram que se eu continuar no meu plano tenho direito a um celular e mais três contas pagas.
– Sim, qual aparelho o senhor gostaria?
– Qualquer um…
– Temos esses três.
– Me dá esse.
– Pois não, agora vou imprimir o contrato, aí é só assinar.
– Vocês vão pagar a minha conta de celular mesmo?
– Sim, durante seis meses vamos compartilhar a conta com o senhor. Um mês a gente paga, no outro o senhor.
– E os torpedos?
– Sim, são 200 torpedos de graça.
– Cara, tem certeza?
– Absoluta…
– É que não faz muito sentido pra mim… pelo menos dentro do modelo de capitalismo que eu estudei nas aulas de sociologia.
– Fica tranqüilo.

Assinei o papel e saí. Peguei o metrô na estação Tatuapé, sentido Barra Funda. Mas, enquanto o trem cortava em direção ao centro e eu brincava de tirar fotos no celular novo, não conseguia entender quem diabos ia pagar por tudo aquilo.

continua…

Read Full Post »

Os trinta metros quadrados de solo contaminados mantinham-me firme na convicção de não trocar de aparelho. Às vezes era difícil, constrangedor, diria. Até o toque do telefone era antiquado. Numa época de ring tones que parecem caixas acústicas de show de rock, o meu continuava com Redemption Song do Bob Marley em tons polifônicos dignos do mais safado videoquê.

Nas baladinhas também não era exatamente uma vantagem ter um celular pré-histórico. Tentava anotar o telefone das garotas e o teclado travava. Umas batidas no chão ou na parede resolviam, mas como o problema começou a ficar mais freqüente decidi mudar de tática:
– Acho melhor você anotar o meu…
– A é? Porque? Não vai me ligar né? Canalha! E vai passar o telefone errado ainda… Aí, vocês homens são todos iguais…
– Não, não é isso… é que …
– Adeus!

Não que estivesse intrinsecamente preso ao aparelho numa paixão materialista sem sentido. Só não queria mudar por mudar. A vida já é cheia de despesas, plano de saúde, conta de telefone, luz, bar, não vale a pena pagar mais caro só pra mudar uma coisa que funciona relativamente bem – bom, pelo menos ele ainda fazia e recebia ligações!

Mas em meados de novembro a operadora entrou em contato comigo:
– Perai, você ta me dizendo que eu vou ter direito a 200 torpedos de graça?
– Sim senhor
– E você ta me dizendo que vocês vão pagar minha conta durante três meses?
– Sim senhor
– E ainda por cima vão me dar outro aparelho?
– Sim senhor.
– E quem vai pagar por tudo isso?

continua…

Read Full Post »

Dessa vez tinha ido beber perto da estação Vergueiro, na Aclimação com meu grande amigo Vinícius. Era entremeado de Junho de 2008, período de pré-crise econômica mundial. O mundo ia bem, o país batia recordes de emprego, era uma época em que ninguém esperava perder dinheiro nos fundos da Petrobras nem muito menos ser assaltado em plena Aclimação.

Mas aconteceu. Saí do bar, subi a escadaria, peguei a Apeninos e então dois sujeitos passaram me encarando, um deles voltou, pegou no meu braço e disse soltando fumaça de cigarro na minha cara: “Quieto! anda, tira o celular do bolso e me dá, agora!”. Devo reconhecer, a abordagem paulista é bem mais agressiva.

O sujeito estava até que bem vestido; camisa listrada azul, cabelo penteado, sapato marrom. Era alto; não dava pra reagir. Tirei o celular do bolso e sem dizer nada, entreguei.

Ele olhou, girou, apertou algumas teclas:
– Tem dinheiro aí?

Mais uma vez tinha deixado todos meus fundos soberanos em outro lugar. Dessa vez, no bar. Minha última nota de dez reais amassada e suja:
– Não tenho, acabei de sair do bar, deixei tudo lá.
– Abre a carteira.

Abriu calmamente e outra mosca saiu voando. Zero, necas, liso! Esse sou eu, jornalista, pobre, fudido, sem a dignidade de ser assaltado como um cidadão de bem.
– Toma essa porcaria – disse o meliante empurrando o celular de volta.

Para piorar, mais à frente um homem me esperava, parado, na esquina, dentro de um Peugeot.
Ele abaixou o vidro. Segurava um celular:
– Ei garoto! Eu vi tudo. Aqueles dois sujeitos estavam tentando te assaltar? Eu estou com a polícia aqui agora no telefone. Me diz, o que eles levaram?

Nessa hora não tem muito o que fazer. É abaixar a cabeça e dizer a verdade:
– Não levaram nada não, senhor…
– Tem certeza? Eles não estavam te assaltando?
– Tentaram, só…
– E?
– E eu não tinha nada…

O homem, orgulhoso de seu Peugeot, ciente do seu papel de cidadão, patrulheiro noturno, não entendeu muito bem…
– Nada?
– Não…

silêncio…

– Ao que parece foi só tentativa, mas os dois ladrões devem estar por aqui ainda, se quiserem enviar uma viatura pra pegar eles…

E levantou o vidro e saiu enquanto falava com a polícia…
…sem nem se despedir!

Continua…

Read Full Post »

Older Posts »