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Archive for the ‘Liricas’ Category

ALDEIA

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer.(…)

Fernando Pessoa

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SOMMELIER DE PAIXÕES

Tinha uma habilidade da qual se orgulhava, transformar paixões em ódio. Não que racionalizasse em cima disso, não, no fundo nem fazia de propósito, era assim… porque era assim. Gostava de ver a coisa toda transbordar, como leite fervido, sujando tudo.

Paixão nada mais é a do que solução de amor e ódio dissolvidos. Um veneno? Sim, veneno do forte, por vezes mortal, mas indubitavelmente saboroso. Saboroso para os iniciantes, pois para aquele enfadonho ser, que era uma espécie de sommelier das mais finas paixões, o sabor puro e simples não lhe trazia mais agrado nenhum. Precisava modificar, experimentar, transfigurar! Tinha experimentado o suficiente para aprender a dissecar o sentimento e descobriu que apreciava na verdade os cristais de ódios que ficam quando o amor todo  evapora. Gostava de mastigar isso… que nem chiclete.

Pois, certa vez, na posse de um novíssimo frasco cheio de paixão, nosso sommelier levou ao fogo. O líquido evaporou e ele olhou espantado sem encontrar os tais grãnzinhos de ódio… Frustração!… Não tanto pela falta do ódio empedrado, mas sim por ter se dado conta de que, mesmo não sendo lá um grande apreciador do líquido, perdeu a oportunidade de, ao menos uma vez, experimentá-lo em estado puro…

Mas já era tarde demais. Tudo evaporou…

E foi condensado em outra horta…

 

foi...

foi...

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αnеsЃia

A angústia não é um dos elementos básicos do sentimento humano. É um misto de sentimentos bem dissolvidos numa solução aquosa de PH neutro. É água, farinha e fermento que explode num bolo seco e sem graça.

Seus elementos são por demais homogêneos, unidos numa sólida formação atômica indissociável – Pudéssemos destilar a angústia talvez encontrássemos um pouco de solidão, vazio, vácuo, mas, não, não se pode afirmar.

Nunca ninguém dissecou a angústia…

… ela te disseca.

A palavra angústia, do latim Angustìa, é uma molécula complexa de sentimento codificada numa tabela periódica lusófona. Ela só dá nome a algo sem nome. Geralmente germina em algum canto do peito, num vazio explosivo expansionista, mais ou menos como um Big Bang ao contrário, que varre o universo com a vassoura do vazio.

Certas angústias costumam brotar no metrô, entre as estações Brigadeiro e Paraíso, ao som metálico e incessante do atrito férreo noturno. É nesse momento que um nada contamina os pensamentos e derruba a primeira peça, que num dominó eterno vai correndo sobre trilhos, preenchendo tudo de vácuo.

A cura para a angústia é queimar com fogo. É faiscar a alma antes que o nada domine. Aos primeiros sintomas recomenda-se acender e explodir tudo, sentir o fogo queimar as entranhas, deixar a coisa escorrer pelas paredes como lava, lavando as larvas, cobrindo o tecido de granito.

Ora é simples a combustão interna, outrora não. Para casos crônicos recomenda-se um cigarro. Um cigarro na calada da noite, irrigando o peito de veneno, queimando angustias, e a saúde.

Fumar. Fumar!

Fumar como um Sartre.

 

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São confortáveis esse ônibus novos!
Aqui no fundo a cadeira é alta, e tem uma TV de LCD passando comerciais perto do cobrador.
Sempre essa publicidade incessante. Querem me vender tudo, sempre, toda hora.
Não tenho dinheiro!
Olha, uma ema!
Quanto tempo que não vejo uma ema. Vi uma no Pantanal. Como fica bonita em LCD, andando elegante pelo cerrado.
Ema na TV; Tietê na janela. Vasto rio sujo, iluminado pela luz noturna de tungstênio.
Ah São Paulo, pulsante metrópole inesgotável, interminável. Com prédios infinitos, concreto, cimento, asfalto e atmosfera carbonada. Essa é minha flora!
Como conseguimos construir tudo isso?
Quantas mãos? Quantas vidas? Quanto esforço?
Deveríamos refletir mais sobre essas coisas,
olhar para nossa selva de pedra tão admirados como olhamos para as emas em LCD.

 

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Moisés

Ele caminha bêbado pelas ladeiras de Paraitinga. Não sabe mais quem é, nem pra onde vai. Seu corpo ébrio segue o ritmo dos tambores numa dança letárgica, quase mambembe.
Ele tropeça em algo e cai. Parece ser um bambu. Longo, da altura do corpo. Põe-se a observa o bastão por alguns segundos, levanta e começa a andar com ele. Quando dá o terceiro passo, se apoiando e equilibrando no próprio cajado, ele se lembra de quem é:
– Moisés, Moisés, eu sou Moisés!
E então Moises caminha pelo mar colorido, abrindo espaço imponente até o coração do bloco.

Robin Hood e a Princesa

Ele passou com seu arco-flecha e capuz verde por debaixo do antigo sobrado. Acendeu num cigarro e esperou-a aparecer.
A folia seguia pelas sombras da madrugada, casais se pegavam nas ladeiras e bêbados cambaleantes procuravam local para mijar e vomitar enquanto tambores e buzinas noturnas difundiam as últimas golfada de folia daquela noite.
Robin Hood limpava os confetes do capuz quando a princesa surgiu na sacada. Era encantadora. Seus cabelos volitavam ao vento, luzinhas piscavam na coroa recém recarregada na tomada e a lua refletia naqueles lindos olhos redondos de Capitu mamada.
Robin Hood pensou em escalar e roubar um beijo, mas um Rufião Alado surgiu das sombras e confortou a solidão da donzela. Ele tinha o corpo besuntado em óleo, uma das asas de isopor quebrada e segurava a cerveja enquanto tentava arrumar o cinto de prata. Tinha ainda um dente de ouro e um peitoral maior que o Everest.
Robin Hood não se intimidou. Resolveu subir; claro que esperou o rufião sair primeiro para pegar outra cerveja. De joelhos se declarou, prometeu a lua, um reino, um império, um churros, mas a princesa não o quis. Olhou triste e pediu para sair. “Pede pra sair, pede.”

A ladra de chapéus

– Minha amiga já roubou mais de 20 chapéus nesse carnaval.
– Como assim?
– Roubando ora
– Mais de 20?
– Sim, tem de tudo, de florzinha, grandão, pequeno, de pirata e de princesa. Ela faz coleção.
– Mas ela rouba?
– Sim, passa correndo e leva.
– Caramba, que sem-vergonha.
– Sim, mas não precisa tirar o seu não. Acho que esse ai ela não vai gostar.
– Mas é importado!
– Sério? Nem dá pra ver.

O Antropólogo

Andava com seus shorts cáqui, chapéu e binóculo. Estava à procura, observava diversas espécies na exótica fauna luisense. Tinham as de princesinhas, as de decote, as de chita, as de lençol e as de dragões.

Churros

Com o passar dos anos os churros foram murchando. Perderam aquela crocância e recheio da infância.
Mas não em Paraitinga.
Lá eles ainda bombam doce de leite enchendo as veias até quase vazarem as paredes crocantes e continuam até montarem um insustentável domo árabe que deve ser jogado na boca imediatamente.
Geralmente os churreiros luisenses entregam o doce sorrindo e esperam o cliente dar um jeito na avalanche melada antes de estenderem a mão para recolher o dinheiro.
Nunca tive coragem de pedir desconto.

A boneca de porcelana

Do jeito que chegou ele ficou. Chegou à cidade em meio ao caos, chuva e lama dirigindo seu possante com óculos escuros. Andava como um delegado e estava a fim de arrumar briga. Era um japonês um tanto mirrado, é verdade, mas deve-se dar o crédito pela coragem de espírito.
Achou a fantasia atirada na calçada; uma blusa feminina negra de lã que lhe dava ares de bonequinha de porcelana; ainda mais quando amarrou a camiseta preta molhada no pescoço como se fosse uma gravatinha dessas que as playmates usam. “Quem mexer comigo hoje vou dar porrada!”, disse quando já estava a cara da hello kitty.
Ele achou que o melhor lugar para arrumar uma confusão seria na fila do banheiro. Ficou lá, dando soquinhos na mão esquerda enquanto esperava sua vez. Um rufião tentou passar na sua frente, mas foi brutalmente empurrado. “Olha a fila maldito!”.
Não houve briga…
… e um anjo da guarda oriental respirou aliviado.

O Pirata

O pirata assustava o povo da pequena casa. Todos temiam as investidas do velho capitão dos sete mares. Ele andava só pelas ruas da cidade, atormentando donzelas indefesas e arrumando briga nos portos que parava. Sua tripulação vez ou outra o abandonava e ele buscava refúgio na casa do antigo amigo companheiro de viagens. Qual não foi o susto das mocinhas da casa ao ver que o velho pirata havia passado a noite ali, bem ao lado de seus corpos virginais. E pior, com uma donzela linda em seus braços.

A Jornalista e o Presidente

A chuva caiu no início da noite. A pequena jovem jornalista de cabelos lisos correu algumas ladeiras para se esconder sob o Coreto. Em meio a dezenas cavou um espacinho. Lá de dentro, observou a cidade e os foliões que não paravam, nunca, nem um segundo, como pulam. Alguns dançavam com fantasias molhadas, outros se escondiam em bares.
Aos poucos, a torneira fechou e só pingo restou. Um casal que outrora trocava beijos ardentes sob o dilúvio se separou; nunca mais se encontrou. Mas sob o Coreto, a jornalista ficou.
Um garoto molhado, usando colar de orixás correu até lá e deu em cima da pequena jovem jornalista de cabelos agora encaracolados: “Sabia que eu serei o próximo Presidente da República?”. Uma seqüência de cinco pingos caiu do teto do Coreto; foi o tempo que a jornalista precisou para acreditar.
Mas a política envolve prolixidade; uma seqüência de três mil pingos depois e ela deixou de acreditar…
… mas mesmo assim, votou. E votou com consciência.

Interlúdio entre expedições

O antropólogo descansava em seu refúgio na floresta, em meio ao caos e a lama. Ele podia ouvir as buzinas e os trompetes ao longe, como um convite. Estava louco para descer à floresta, só esperava sua força expedicionária se recompor para irem juntos. Ele fedia, estava molhado da chuva e exalava um odor selvagem quando de repente a porta do banheiro abriu. Primeiro foi o vapor do banho quente que saiu, como que em câmera lenta. Depois um perfume que inebriou a casa e em seguida duas lindas Iracemas em vestidos de chita e sandálias. Tinham os cabelos molhados e desviavam do barro com habilidade. Ele deu um trago e ficou a imaginar se as duas tinham tomado banho juntas… Pensou em fazer um estudo a respeito.

O alemão

Sob o escaldante sol, um alemão de vestes florida e pele encarnada esperava o namorado comprar cerveja. Encostou-se ao poste e observou a movimentação. “Tá na fila?”, perguntou um jovem sábio mago de chapéu pontudo, sem os dois dentes da frente e com bafo de cerveja. “Sorry, no portuguese, only german or english”:
– Não fala português não?
– Sorry, english or german
– Tá a quanto tempo aqui na fila gringo?
– G-gRingo?
– Isso, Gringo. Olha aqui. Cerveja, vai comprar cerveja ai gringo?
– Ce-ceR-veja
– Isso, aqui, aqui ó. Mulher, mulher.
– Um-ller
– Não não, presta atenção: Mulher! M-U-L-H-E-R
– MulleRR
– Isso ae! Muita mulher ae gringo? Fala ae, só tem gostosa esse carnaval aqui! Só Buceta de primeira. Buceta. Fala ae Buceta.
– Bu-cee-da
Depois de um tempo o namorado do gringo saiu com duas cervejas nas mãos e não entendeu direito quando viu Hänz falando português com um nativo. Ele ainda falava com boa pronuncia, usando as mãos, como se estivessem conversando sobre política ou futebol :
– Muller buceda ceRveja GRingo
O mago ria alto e Fritz não entendia nada; como pode, além de tudo Hänz tinha ficado engraçado? O mago dava tapas nas costas do gringo, como se fossem velhos amigos.
– Esse cara é demais, aprende rápido.
– Aprrendre RRapida ; Aprrendre RRapida
Eles se abraçaram, riram e se despediram:
– Falo ae Gringo, boa sorte com a mulherada ae.
– Valou ; tchau.
E Fritz nunca ficou sabendo como seu namorado Hänz aprendeu português tão rápido.

O Homem Elétrico

Quatro meses na tomada para eletrizar no carnaval. Mas não adiantou muito. O Homem Elétrico não pegava ninguém. Toda noite descia cheio de energia, pronto para descolar um broto, mas não dava, não conseguia, mas que merda, porque não? Ele via todo mundo beijar, anões, corcundas, deficientes, gordos, cachorros, pombos e até velhos senhores sem dentes. Então desistiu. Se sua estática não atrai as mulheres, não vai ser ele quem vai correr atrás para eletrizá-las. Acabou usando todo seu poder elétrico para tomar banhos quentes.

A moça de Chita

O antropólogo observava a moça de chita. Ela dançava na praça com uma cerveja na mão, rodando de leve, metade pra um lado, metade pro outro. Ele sabia que estava sujo, imprestável, com a boca como um cinzeiro. Mas isso não era problema dele, mas dela. Beijaram-se. E não pararam por um bom tempo. Ao fim sentiu-se limpo novamente.

O Canto das Sereias

Grande embusteiro e gozador de má fama, o Pirata seguia seus dias de pilhagem moral nas donzelas da pequena cidade. Sua luta era contra a moral e os bons costumes. Bebia rum, roubava beijos, corações e suspiros, até que entrou no perigoso território das sereias.
A primeira, de branco, lançou olhares, enroscou seu corpo ao som da marchinha e requereu um real: “É para inteirar uma bebida, gentil pirata; quero beber junto de vossa formosura”, cantou a sereia com seu doce timbre. Sem dar-se conta do perigo o velho homem do mar se desfez do seu derradeiro real em forma de moeda. “Volto já garboso corsário”, aflautou mais uma vez depois de lhe lamber na periferia dos lábios e antes de mergulhar na multidão para nunca mais voltar.
Quando percebeu a pilhagem, o Pirata até correu atrás da sereia com sua espada em riste, mas já era tarde demais. Ela já tinha desaparecido.
Caminhou só, desolado pela perda de sua virtuosa prata quando de repente deparou-se com mais três belas mulheres de canto suave. Elas dançaram sensualmente e o rodearam. Esfregaram-se em sua pele. Exalavam as três um perfume excitante, rosa, doce, incendiário, mortal. O pirata queria rasgá-las ali, sem cerimônias; rasgá-las no sentido chulo, é claro. Uma delas pegou seu chapéu e colocou na cabeça. Ele abraçou as outras duas e fez uma dança erótica ao som de Juca Teles. Estava excitado o Pirata. Quando terminou deu-se conta de que a terceira sereia havia sumido com seu glorioso chapéu de tantas vitórias em alto mar. “Para onde ela foi?”, perguntou desesperado o Pirata. “Não sabemos, acabamos de conhecê-la”, responderam as duas. E ao que virou para procurá-la, as outras duas também desapareceram.

O inglês

Um inglês andava perdido com a mochila bem juntinha do corpo. Olhava para os lados procurando algo familiar, ou algo que pudesse assimilar com mais facilidade. Estava com sua esposa brasileira; vieram passar seu primeiro carnaval juntos, mas era tudo meio estranho demais, meio loco demais, meio estrangeiro demais. Só um pensamento cruzava sua organizada mente britânica: “oh my sweet lord!”.
Um sujeito só de cueca, com anteninhas de coração na cabeça e chinelos havaianas parou do lado do inglês:
– Oh! oh! Barbosa, essa curva é perigosa.
Ele falava, não cantava. Apenas balbuciava. Estava equilibrando para não cair, o álcool exalava por cada poro do corpo. A esposa do inglês riu e explicou que era uma música de carnaval:
– O que? Ele não fala português? – Disse o homem cueca.
– Não
– Eu canto em inglês pra ele.
Ele se preparou, molhou o glóbulo da orelha abriu os braços:
– Oh! Oh! Barvosa, the turn is danger.

Café com leite

O suíço pulava atrás do bloco. De braços abertos, alto, branco, suado. Uma negra alta, suada de cabelos rasta, se aproximou, fez a dança da bundinha, destrinchou um inglês, sorriu uma fileira de dentes cândidos em perfeito alinhamento. Ele derreteu, sentiu o sangue ferver, ficou mole de desejo… ou melhor, duro. Beijaram-se. O bloco seguiu, jogaram água, serpentina, confete. O bloco passou. Despediram-se. Ele olhou para o amigo: “Yes man, it’s my first Black girl, amazing”. Ela virou para a amiga: “Uhuuuu… É meu primeiro gringo de verdade, até agora só peguei imitação… uhuuuu!!!”

Os veteranos

A cidade encheu. Muitos vieram, não sabia do que se tratava. Os novatos até tentavam cantar, prestavam atenção nas marchinhas e tentavam recitar junto. Alguns desistiam, outros adaptavam: “Chegaram as putinhas do sertão”. “Chupa Tevez amor é flor”.
Alguns veteranos não gostaram muito dessa história. Olhavam sem paciência os calouros. Batiam no peito e diziam: “Já é meu quarto carnaval aqui”, e quase completavam com um: “por isso, me respeita!”.
Mas não houve nem nunca haverá ser humano que consiga manter segredo de um tesouro. A cidade nunca será como antes. E a culpa é dos veteranos.

Cambalhota

Caminho bêbado, sem direção em meio a multidão. Esbarra em um, esbarra em outro. Pérai, o que é isso? Um enorme vão. As pessoas batem palma, gritam, o que estão gritando? “cambalhota, cambalhota”. Alguém arranca seus óculos, outro tira sua latinha, um terceiro apaga seu cigarro. Você está sozinho, no meio de uma roda de malucos que gritam “cambalhota, cambalhota”. Sua cabeça já é uma cambalhota, ela gira sem parar, não consegue pensar. Os gritos aumentam, cada vez mais fortes, você se apóia, coloca a cabeça no chão… e gira. O êxtase, a galera vai ao delírio, você é ovacionado, as pessoas gritam seu nome, vários flashes estouram, você ganha moral, é invencível, indestrutível. E então você resolve chegar naquela menina peituda com decotão. E ela te dá um fora…
…Você é só mais um novamente.

O término

No fim a dor de partir é grande. Foram dias de insanidade grupal, loucura coletiva, delírio conjunto. Onde o mais sóbrio não passou de um pobre abilolado. E o mais louco, um nobre equilibrado.
Foi a celebração da inexistência, da dor de não saber, da frustração de não preencher.
O Carnaval é um breve instante onde nada importa e tudo passa. É a ausência de saber, é o saber ausente. É um completar de vazio e um esvaziar de completar. Um brotamento, um deságüe, uma torrente, um cantar contente de um velho malevolente.
É o que vamos sentir falta.
É a saudade.
É o até ano que vem.

 

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Renatinha vinha de família tradicional, estudou em boas escolas, freqüentou clubes sociais, morou em Londres. O que ela não entendia, era como um ignorante estava na presidência: “Esse sapo barbudo!”, exclamava olhando pra TV. Sua família, de bom sobrenome, também era contra. Seu pai, Fernando de Albuquerque, costumava proclamar virulentos discursos na hora do almoço, enquanto sua mãe demonstrava nojo batendo na foto do “imbecil ignorante” nas capas das revistas.

A jovem Renatinha acabou entrando para a militância de partidos de oposição. Participava de reuniões, levava cartazes, pintava o rosto. Queria fazer parte da juventude que iria derrubar aquela anta aleijada, o imbecil, o retirante canastrão. Travava ferozes discussões com os alienados da esquerda, simpatizantes e a massa desinteressada de não-politizados.

Foi então que certo dia, numa movimentada avenida da cidade, enquanto segurava um cartaz de “Impeachment Já!” , foi fotografada por um sujeito que passava. Click! Ele mostrou a foto no visor digital e puxou assunto. “Oi, meu nome é Luis, se você quiser posso te mandar a foto por e-mail depois”. Conversaram um pouco sobre política, descobriram afinidades, idéias, músicas. Marcaram de ir naquele show daquele jazzista internacional que estava na cidade. De lá partiram direto para loucuras de amor naquele motel com decoração egípcia e cama king-size perto dos Jardins.

Renatinha estava avoada. O pai, seu Fernando de Albuquerque, ficou preocupado. A filha não se agitava mais no jantar, não gritava “é isso ae”, depois de cada um de seus discursos. A mãe passou a ter certeza de que tinha algo de errado, a filha não xingava mais as fotos do presidente! Até o tal partido de oposição que era sua nova paixão, ela parou de frequentar. “Tá tudo bem filha?”. “Claro mãe, tudo maravilhosamente bem!”.

O pai chegou a pedir uma investigação tributária, imaginou que a filha estivesse recebendo um bolsa-família ou um vale qualquer coisa. Mas não. “Que coisa estranha!” Com o tempo, seu Albuquerque e a esposa deixaram a filha de lado. De qualquer maneira ela parecia estar de bem com a vida; sorria, cantava e suspirava.  

O que eles nunca descobriram, é que, secretamente, Renatinha e Luis passaram a chamar o sapo barbudo de “cupido barbudo”. Mas era melhor manter em segredo. Se o seu Fernando de Albuquerque soubesse, era capaz do velho ter um infarto.

 

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Se Deus, no alto de uma nuvem, tivesse uma câmera,

e filmasse os últimos 10 mil anos desse pedaço de terra em que se encontra São Paulo,

e depois passasse tudo em Fast Forward…

 

Seria mais ou menos assim:

 

FF  >>>

 

terra

terra

terra

terra

terra

terra

 

Ploc!

 

Um cravo!

 

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