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Archive for the ‘contos’ Category

Memento

Aprendizado

Tinha dificuldade de aprender certas coisas. Menino novo, época de descoberta, muita coisa nova, cabecinha a mil por hora. Horas em relógio de ponteiro, por exemplo, era uma delas, saber a diferença de esquerda e direita, outra. Mas o que lhe deixava verdadeiramente em apuros naquela tarde de um dia perdido da década de 80 era não ter aprendido de uma vez por todas qual que era masculino e qual que era feminino. Sabia ler há pouco tempo, e, além do mais, ou era homí ou era mulhé, ou era macho ou era fêmea, esse negócio de masculino e feminino era palavra demais pras mesma coisa. Coçou a cabeça. Seria mais fácil se tivesse aqueles desenhinhos como tinha na maioria das vezes.

Tomou coragem e entrou. Cruzou a primeira parede de azulejo e viu uma morena de costas, nua, com a pele molhada segurando uma toalha branca. Ela virou com os seios descobertos, bicos grandes em auréola roxas. Subiu a toalha branca assustada, e ele, atônito, com o sangue fluindo diferente nas veias, finalmente aprendeu o significado da palavra feminino.

O suborno

Ela tinha aquele brilho curioso no olhar quando entregou o saco de doces para o irmãozinho. Ele, um tanto desconfiado, colocou no bolso e pensou um pouco. Não estava certo se devia contar.

– Conta, você prometeu.

De fato, promessa é dívida. Já estava com os doces, agora tinha que contar. Não tinha culpa se sabia mais que ela. Essas meninas nunca sabem de nada. Era algo tão normal, como ela podia ainda não saber. Logo ela que brincava tanto de boneca, fingia que era mamãe, como não podia saber como eram feitos os bebês?

– Conta logo…

– Tá bom.

Não foi uma descrição muito demorada, na verdade foi bem breve, mas que com a ajuda de algumas mímicas e gestos manuais acabou por ser um primor de elucides. No final levantou o dedo e disse:

– Se você contar pra mamãe que foi que te contei eu vou te bater…

E saiu correndo, abrindo o saco de doces e jogando uma jujubinha na boca. “Se você contar pra mamãe que foi eu quem te contou vou te bater”, gritou mais uma vez de longe. Ela, ainda parada no mesmo lugar, sem respirar direito e com a pele vermelha, só conseguiu dizer:

– Urgth , que nojo …

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E eis que me encontro em uma mesa de jurados para um concurso de beleza. O tal Miss Peladão. Não entenda mal, caro leitor. Não se trata de peladões, propriamente dito. Miss Peladão foi o nome encontrado pelo prefeito para homenagear as musas dos times locais da pelada oficial promovida pelo município. Logo, peladão é referente apenas a pelada futebolística. Eram mulheres, e estavam vestidas. Ou parcialmente vestidas.

Não sei bem como fui cair ali. A Dorian, editora de esportes que me arrumou essa. Ligou no meu ramal e disse: “você foi convocado para ser jurado do miss peladão”. É aí que está a armadilha. “Convocado”. Ela usou bem a palavra. Ser convocado para alguma coisa é gratificante. Você imagina chegando um convite em seu nome, requerendo a sua presença. Balela. Provavelmente o pessoal da organização ligou na redação e disse: “temos umavagas para jurado, manda alguém”, e ela ligou pro primeiro ramal que veio na mente. E eu atendi o telefone. “Você foi convocado”.

Não sou afeito a concursos de beleza. Sou até meio contra. Afinal, pra que servem concursos de beleza? Umas mulheres desfilando de maiô, empinando o bumbum, e um bando de jurados bobos dando nota para a “simpatia” ou “carisma” das candidatas. Além do mais, o que você faz com um título de Miss Peladão? Claro, tem a grana, sete mil reais saídos diretamente dos cofres públicos, mas fora isso, qual o prazer de chegar e dizer: “oi, eu sou a Miss Peladão 2009”. É tão sem sentido quanto dizer: “Oi, eu sou a ganhadora da sétima edição do BBB”. É pura perda de tempo! A não ser para os sujeitos que comem as misses peladões e as ex-BBBs. Ah, esses podem tirar onda. Nos meus tenros 20 anos fiquei com a garota mais linda que jamais um mortal do meu porte poderia almejar. Obviamente que ela rapidamente se deu conta da besteira que estava fazendo, mas, no entanto, bem mais tarde, quando provavelmente já tinha me esquecido, ela concorreu para ser miss brasileirão pelo São Paulo F.C. Não sei o que ela ia ganhar com isso, mas eu, sem dúvida, ganhei mais respeito dos meus amigos. Se ela ganhasse eu viraria lenda na turma: o cara que comeu a miss brasileirão no passado. Mas ela perdeu. E eu voltei a ser aquele sujeito que nunca vai traçar uma ex-BBB, capa de playboy ou miss qualquer coisa.

Mas enfim. Meu nome foi anunciado para compor a mesa de jurados. Sentei ao lado de uma arquiteta gostosa, loira, com anéis, correntes de ouro e um sorriso artificialmente branco e vazio. Do outro lado um sujeito estranho, que colocava as notas no papel e escondia com a mão, com medo de alguém pudesse conferir o que estava escrevendo. Era uma pastinha com a lista dos nomes das candidatas e três quadradinhos ao lado: um para a simpatia de biquíni; outro para a simpatia de vestido e o último para a soma de ambas simpatias. Tivesse aquele sujeito ao meu lado escrito normalmente, sem frescuras ou preocupação, acho que não ligaria. A arquiteta do outro lado deixou a lista com as notas à mostra o tempo todo e não lembro de ter espiado nenhuma vez. Mas daquele sujeito mascarado, que escrevia e logo em seguida colocava a mão para ocultar, ah… as notas dele eu precisava ver. Gastei boa parte da minha atenção espiando seus movimentos, o que restava eu concentrava nas bundas… ou melhor, na simpatia, das candidatas. Fiquei um tanto indignado dele ter dado 8 para a mais “simpática”.

No fim ganhou a que queria. Uma negra de grande porte e sorriso cândido. Dei 10 para ela em todas as categorias. Votei mais pela atitude étnica do que pela “simpatia” propriamente dita; a maioria das candidatas negras tinham o cabelo alisado, mas ela não. Conservava cachos portentosos, selvagens e negros. Era, sem dúvida, a beleza natural mais atraente por detrás das toneladas de maquiagem obrigatórias. De bunda não era tanto, mas como sinal dos novos tempo achei por dever exercer um voto político e não bundístico. Ana Paula Suribi, era seu nome. Beleza pura. Confesso que fiquei feliz dela ter ganhado. Sinais dos novos tempos, em que, se deus quiser, cachos orgulhosos surgirão para derrubar a ditadura dos alisamentos. Pena que esse caminho tenha que ser percorrido através de “concursos de beleza”.

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Este texto foi escrito em 06/06/2007 e nunca havia sido publicado anteriormente.

Existem muitas figuras carimbadas aqui na região do Médio Norte de MT. Algumas são do bem, outras são do mal, tem a irmã Terezinha, o tenente Taborelly, o prefeito Chico Mendes, os irmãos Guaraná, Márcio Mendes, Bilú o prefeito, Terno o fotógrafo, enfim, são inúmeros. Já tinha pensado em registrar algumas delas, mas o fato é que não quero ficar novamente refém da escrita como aconteceu em minha última viagem à Nova Zelândia; confesso que esse é um vício que me consome e me atrapalha um pouco. No entanto, existe um sujeito que acabou de sair aqui da redação, e, juro, se não contar sua história agora acho que vou ter espasmos epiléticos.

Tudo começou com uma afta na língua. Ela surgiu na véspera da viagem e me acompanhou desde então. No avião, no ônibus, nos primeiros dias de trabalho, nas primeiras semanas, o tempo passava e a merda da afta não fechava. Nessa época o telefone tocou e do outro lado quem falava era um famacêutico. Disse que queria que um repórter fosse entrevistá-lo. “Qual é o assunto”, perguntei com cuidado de não bater a língua nos dentes. “Te digo quando chegar”. Achei meio suspeito, mas contei pra Marcio Mendes, o dono do jornal: “vai lá, é aqui perto”. Tudo é perto em Diamantino. Mas, peguei a caneta, o gravador e sai sob o escaldante sol mato-grossense. Terno, o fotógrafo, veio junto.

Ao chegar, molhado de suor, me deparo com um homem idoso, de camisa branca aberta mostrando uma barriguinha saliente, ao lado de um ventilador e com as mãos sobre o balcão a mirar sob pesados óculos de grau. Ele não nos viu. “Olá, é o senhor que é o seu Braga?”. “Sim, sou eu, que bom que vieram”, disse já reconhecendo que eramos da imprensa. “Por favor, me acompanhem”, disse indicando uma porta aos fundos.

As farmácias do interior nada têm a ver com as Mega Stores decoradas em neon, lotadas de cremes, shampoos, camisinhas e modes que vemos nos grandes centros urbanos. Farmácias dos rincões são lugares ermos, com cheiro de álcool, misturado com acetona, mais iodo e éter e que dão até um certo barato. A reunião secreta seria na salinhas de aplicar injeção, com três cadeiras de madeira e um cavalete para apoiar o braço. Seu Braga ligou um ventiladorzinho que rangeu um pouco antes de pegar o ritmo. Por fim se aconchegou na cadeira, cruzou as pernas e começou a falar:

– Veja bem, eu chamei vocês do jornal pra dizer que eu tenho intenções de ser o próximo prefeito da cidade de Diamantino. Pode escrever ai nesse bloquinho que eu estou dizendo isso.

Fiquei parado com a caneta em riste tentando entender do que se tratava aquilo. Olhei para Terno que mastigava um chiclete e mantinha sua cara de paisagem sob seus óculos escuros.  Resolvi ligar o gravador.

– Parai, deixa eu entender. O senhor nos chamou aqui para dizer que quer concorrer nas próximas eleições municipais?

– Exatamente, vou entrar para a política!

Respirei fundo, apertei a caneta e comecei a escrever:

– Oook!! Então vamos lá… deixa eu ver… por onde começar…bom…qual é o seu plano de governo, seu Braga?

– Não tenho plano!

– Não tem plano?

– Não.

– E qual o partido do senhor, seu Braga?

– Esse é um ponto importante, é uma ótima pergunta meu jovem… Não tenho partido também! Por enquanto! Mas espero que depois dessa matéria no jornal algum partido possa me fazer um convite.

– Então o senhor não tem partido?

– Não!

– Mas o senhor segue alguma linha ideológica?

(Ele ficou meio desconcertado com a pergunta)

– D-desculpa, pode repetir?

– Se o senhor, seu Braga, tem alguma linha ideológica?

– Olha meu amigo, eu não te entendo.

– Se o senhor acredita em alguma vertente política, tem algum ideal, possui um pensamento filosófico… ou… (eu estava só piorando as coisas ele me olhava cada vez mais com cara de interrogação)… na verdade minha pergunta, seu Braga, é: o que motiva o senhor a entrar para o política?

– Ótima pergunta meu amigo! Eu te digo que depois de muitos anos vivendo nessa cidade chegou a hora de eu dar algo em troca. O que me move a ser prefeito é que eu amo aos pobres e despossuídos, amo de coração os pobres.

– O senhor ama os pobres?

– Amo!

– O senhor crê que está preparado para assumir uma prefeitura?

– É ai que eu te pergunto… O que é estar preparado? Estes que estão aí estão preparados?

– Quais são as principais virtudes do senhor, Seu Braga?

– Posso dizer que se for eleito serei um sujeito honesto, sem corrupção, sem picaretagem!

Saímos da salinha e caminhamos em direção a rua. Na porta seu Braga continuava insistindo na seqüência de perguntas que começou no exato segundo em que desliguei o gravador: “Acha que falei bem? hein, como me sai? Como vai ser a matéria?”. Não tinha muito que dizer, apenas baixei a cabeça e disse: “Foi bem seu Braga, fez certinho”.

Terno tirou algumas fotos, mas as imagens ficaram ruins demais. Não sei da onde tirei essa idéia de fazer campanha pro Terno virar fotógrafo do jornal, ele é ruim demais! Sempre que vamos a algum evento ou fazer entrevistas acabo fazendo as fotos eu mesmo. Mas o garoto tem potencial, deve estar aprendendo. Gosto dele e de imaginar que um dia, se Deus quiser, vai conseguir sacar uma foto sem cortar metade da cabeça do entrevistado.

Peguei a câmera da mão do Terno. “Ok, seu Braga, faz uma pose aí de vencedor”…

fash!

"Pose de vencedor, seu Braga!"

"Pose de vencedor, seu Braga!"

Só quando estava no meio do caminho que lembrei da dor na língua, a maldita afta. Resolvi acabar de uma vez por todas com aquela situação, voltei à farmácia e perguntei a seu Braga o que era bom para afta. “Usa isso aqui que passa”, ele me estendeu uma caixinha com pedra ume. Saquei a carteira pra pagar e ele empurrou o dinheiro de volta: “não, não, não se preocupa com isso”. De minha parte insisti veementemente dizendo que não podia aceitar, mas ele empurrava com mais veemência: “não, não, não” e sorria fazendo um gesto para eu ir. Por alguns segundos pensei em jogar aquela caixinha na cara dele e gritar: “Ta pensando o que seu filho-da-puta, que vai me comprar com uma porra de remédio?” e sair chutando o estabelecimento para mostrar indignação. Mas não dá pra fazer esse tipo de coisa na vida real.

…peguei a caixinha e voltei para a redação.

A entrevista não rendeu muito, na verdade não renderia nada seu eu não tivesse ficado olhando para aquela caixinha de “pedra ume” sob o computador. Perguntei pro Márcio Mendes, o dono do jornal , o que eu devia fazer com aquela entrevista?”. “Esquece isso! Muito fraco”. “Não dá pra jogar nem no site?”. “Ta bom, joga no site”. Na verdade tinha gostado da foto, achei que daria uma matéria divertida, mas aquela merdinha de pedra ume em cima do monitor me deixava nervoso. Talvez fosse melhor nem publicar nada e mostrar pro farmacêutico que eu era incorruptível. Mais alguns dias se passaram, e minha afta passou. Lembrava esporadicamente do seu Braga, geralmente quando passava em frente a sua farmácia ou quando alguém citava algum nome para concorrer à prefeitura da cidade. A matéria no site não teve muita repercussão, ninguém comentou muito, o assunto morreu. Até que um dia seu Braga veio para a redação conversar com o chefe.

No final da tarde daquele dia Márcio chega pra mim e diz: “Lembra da matéria do seu Braga?”. “lembro sim, que que tem?”. “Então, dá uma aumentada nela que a gente vai publicar no impresso”. Na hora saquei que o incorruptível Braga tinha corrompido o mais-que-corruptível jornal. Apenas olhei para Márcio e ele disse o que sempre dizia: “É ué, aqui funciona assim! Já te disse isso milhões de vezes!”.

Nessa hora você lembra das conversas de bar na faculdade, da época em que você era um idealista de merda, que acreditava no bom jornalismo, na dignidade da profissão. Aí se vê trabalhando num jornal que cobra 400 reais por matéria… então esse era o preço da notícia? Quatrocentos reais?! Sentado em frente ao computador abri o jornal bem na página com a matéria, numa perspectiva mais ao fundo, a caixinha da pedra ume em cima do monitor… então era esse o meu preço!

No fundo senti até um certo orgulho… não é qualquer recém formado que se vende por uma porrinha de Pedra Ume!!!!!!

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Nunca tinha sido roubado na vida. Para um cara que viveu em São Paulo a maior parte da vida isso equivale a morar no Rio e nunca ter visto o mar. Não que tenha sido bacana, ou tenha me deixado extremamente feliz. Na verdade foi mais um alívio, um sentimento de: ufa, finalmente após tantos anos pertenço à cidade. E de certa maneira não poderia ter sido melhor, roubaram um celular que eu não tinha pagado nada!

Voltei à loja e perguntei se eles podiam me dar outro:
– Não senhor, desculpe, mas é impossível.
– Ah, mas porque? Vocês gostam tanto de dar celulares pras pessoas.
– Não é bem assim senhor, é uma promoção.
– Me coloca aí nessa promoção então.
– O senhor já está.
– Sim, mas eu perdi o celular.
-Veja bem, o senhor já assinou o contrato, logo já está na promoção. A operadora não tem culpa que roubaram o celular do senhor.
– Ah que droga, então eu quero cancelar essa porcaria.
– Pois não, nesse caso o senhor tem que pagar uma multa no valor de 600 reais.
– O que???
– É isso mesmo, senhor.
– Como assim? Por que?
– Está aqui no contrato que assinou, na verdade é um plano de fidelização, vale por um ano e meio.
– Um ano e meio?
– Sim!
– Puta que pariu! Então é isso que vai pagar por aquele celular?
– Claro, ou o senhor achou mesmo que a gente iria distribuir celular assim, sem cobrar nada.
– Bem que eu desconfiei! Eu sabia!
– O funcionário que vendeu o plano não lhe avisou sobre isso?
– Foi você que me vendeu o plano.
-Oh, lamento senhor, temos ordens de falar as regras contratuais em letrinhas pequenas.
– Maldição, vou ter que pagar esse celular por mais 1 ano!
– Exatamente. E para piorar sua tarifa é bem maior do que a das outras operadoras, ou seja, além do mais estará falando pelo dobro do preço.
– Você se sente bem enganado as pessoas assim?
– Na verdade, não. Mas o que eu posso fazer?… esse é o tipo de capitalismo que não se aprende em aulas de sociologia.
– Bom,ao menos tem como me dar um chip com o mesmo número? Eu uso no meu celular antigo.
– Claro.
– Obrigado…
– Err, senhor, são quinze reais!

Foi então que eu entendi que aquele roubo na madrugada não tinha valido. Afinal, é muito fácil ser roubado e não sentir a dor de ser lesado. Não, você só é realmente assaltado em São Paulo quando a coisa dói no bolso. E, sim, amigos, a sensação do roubo verdadeiro eu só senti naquela loja! Com logotipo, funcionários, CNPJ e razão social… táo arrumadinhos quando o meliante que me levou o aparelho.

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Três e vinte e cinco da manhã, Aclimação, São Paulo, madrugada de um sábado de janeiro de 2008. A crise econômica mundial é o grande hit do momento. O número de desempregados cresce na mesma proporção ao de novos ladrões nas ruas da região central.
– Aí playboy, já era, passa o dinheiro!

Fui pego de surpresa, parte por caminhar cansado e bêbado, parte por não acreditar que aquele garoto estava de fato tentando me assaltar. Era um pivete bem vestido, cabelinho raspado, negro, olhos redondos, um típico bom morador da periferia, bem cuidado por no mínimo três mulheres: mãe, tia, avó.
– Não tenho dinheiro.
– Que não tem dinheiro porra nenhuma. Passa a grana!
– Não tenho mesmo, olha…
– Então me dá o celular?

Era o grande momento; a estréia do meu novo modelo Sony Ericson S500 no mundo do crime. Pensei em dar uns tapas naquela careca jovem e dizer: “rapaz, tua mãe sabe que tu ta aqui?”, provavelmente seria o certo a fazer, com certeza ele não estava armado e não era perigoso. Mas olhei com calma para aquele garoto. Hum, mais bem vestido que eu, calça jeans, sapatinho marrom, relógio da 25 de março no pulso. Pensei no tremendo bom gosto que aquele pivete deveria ter e puxei o celular, dei na mão dele e observei suas feições.

Apreensão.

Analisou por alguns segundos, girou, olhou. Não era possível. Estava em dúvida! Decidi ajudar:
– Ele tira foto.
– Ah é?
– É, 1,5 mega pixels
– Tem MP3?
– Até tem, mas não grava muitas músicas.
– Rádio?
– AM e FM…
– Bom, não sei…
– Perai, com licença… Olha só esse painel, dá pra trocar a tela de proteção…
– Isso não quer dizer nada.
– Ah, mas é um bom celular.
– É, interessante.
– É bom sim, ganhei faz algumas semanas, só.
– Pode crer. Quer saber, já era mano! Vou levar…

Emocionante…
O primeiro assalto a gente nuca esquece…

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Loja vermelha, logotipo vermelho, funcionários de roupa vermelhas. O simples fato de pisar numa dessas lojas já é uma agressão aos sentidos, o que dirão os funcionários que trabalham lá.
– Pois não (em tom agressivo)
– Oi, tudo bem? Vim trocar de celular.
– Pega a senha.

Numero 3089. No painel, 3078. Um bocado de gente esperava com os nervos exaltados. Vermelho, vermelho em todo lugar. Eles têm até luzes vermelhas, neon, enfeitando os últimos modelos de celulares. Algum estrategista de marketing deve ter pensado na mecânica toda por trás da cor: “aguça o sentido consumista, o sujeito compra por impulso, sem parcelar nada, deixa tudo o que tem à vista, se afunda em dívida”. Mas os homens de marketing nunca pensam em quem tem que ficar lá dentro o dia inteiro, ou nos clientes que ficam horas esperando seu número no painel. Mas isso não é problema deles, se algum dia descobrirem que para vender bastante é preciso um ambiente quente, abafado, com cheiro de bosta e fogo saindo das paredes, foda-se, por que não?

3081. Amasso, dobro, faço origamis com a senha. 3082. Engraçado como as pessoas adoram loja de celular. Famílias inteiras vão comprar aparelhos juntos, como se fosse num comercial: namorados, pai, filho, filha e pai, casais de velhinhos, empresários, secretárias, é como se todos os estereótipos da propaganda da TV se materializassem e fossem atraídos alí como mosquitinhos para a luz.

3089… Sou eu!
– Eu vim porque me ligaram, disseram que se eu continuar no meu plano tenho direito a um celular e mais três contas pagas.
– Sim, qual aparelho o senhor gostaria?
– Qualquer um…
– Temos esses três.
– Me dá esse.
– Pois não, agora vou imprimir o contrato, aí é só assinar.
– Vocês vão pagar a minha conta de celular mesmo?
– Sim, durante seis meses vamos compartilhar a conta com o senhor. Um mês a gente paga, no outro o senhor.
– E os torpedos?
– Sim, são 200 torpedos de graça.
– Cara, tem certeza?
– Absoluta…
– É que não faz muito sentido pra mim… pelo menos dentro do modelo de capitalismo que eu estudei nas aulas de sociologia.
– Fica tranqüilo.

Assinei o papel e saí. Peguei o metrô na estação Tatuapé, sentido Barra Funda. Mas, enquanto o trem cortava em direção ao centro e eu brincava de tirar fotos no celular novo, não conseguia entender quem diabos ia pagar por tudo aquilo.

continua…

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Os trinta metros quadrados de solo contaminados mantinham-me firme na convicção de não trocar de aparelho. Às vezes era difícil, constrangedor, diria. Até o toque do telefone era antiquado. Numa época de ring tones que parecem caixas acústicas de show de rock, o meu continuava com Redemption Song do Bob Marley em tons polifônicos dignos do mais safado videoquê.

Nas baladinhas também não era exatamente uma vantagem ter um celular pré-histórico. Tentava anotar o telefone das garotas e o teclado travava. Umas batidas no chão ou na parede resolviam, mas como o problema começou a ficar mais freqüente decidi mudar de tática:
– Acho melhor você anotar o meu…
– A é? Porque? Não vai me ligar né? Canalha! E vai passar o telefone errado ainda… Aí, vocês homens são todos iguais…
– Não, não é isso… é que …
– Adeus!

Não que estivesse intrinsecamente preso ao aparelho numa paixão materialista sem sentido. Só não queria mudar por mudar. A vida já é cheia de despesas, plano de saúde, conta de telefone, luz, bar, não vale a pena pagar mais caro só pra mudar uma coisa que funciona relativamente bem – bom, pelo menos ele ainda fazia e recebia ligações!

Mas em meados de novembro a operadora entrou em contato comigo:
– Perai, você ta me dizendo que eu vou ter direito a 200 torpedos de graça?
– Sim senhor
– E você ta me dizendo que vocês vão pagar minha conta durante três meses?
– Sim senhor
– E ainda por cima vão me dar outro aparelho?
– Sim senhor.
– E quem vai pagar por tudo isso?

continua…

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