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24 – Bagunça

Café. Mais café. A cafeteira não parava de funcionar. Era um tentativa frustrada de dar um tapa nos neurônios, fazer funcionar no tranco. Mas, nada. O pauzinho do word piscava na minha frente. Ensaiava alguma coisa. Escrevia uma frase…“<= Backspace”.

Mais café.

O cachorro me olhava. Às vezes trazia uma bolinha de tênis na boca. Atirava em algum canto e ouvia ele arranhar o piso correndo atrás. Se ao menos o cão pudesse ler alguma coisa, se ao menos pudesse me dar uma opinião, se pudesse conversar. Dizem que cães são ótimos para enfrentar a solidão. Ficava me olhando, mexendo o rabo e apontava a bolinha com o focinho. Pegava do chão. E lá ia ele de novo correr atrás.

Por que eu não conseguia escrever? O que estava acontecendo? Era a bagunça, sim, a bagunça. Eu precisava de bagunça. Aquela casa era organizada demais pra mim. Tentava deixar o lugar com minha cara durante o dia: louça suja, cama desarrumada, roupas espalhadas, mas lá pelas quatro ou cinco da tarde já tinha que começar a arrumar de novo. Não, nunca conheci ninguém tão organizado como meu pai. Ele chegava fazendo uma inspeção, olhava a pia, a sala, o banheiro, qualquer coisa fora do lugar e ele resmungava em algum canto da casa: “mas que bagunça, que bagunça!”, enchia a boca, dando ênfase no gu: BaGUnça. Acho que a palavra que mais ouvi ele dizer na vida foi bagunça. Bagunça, bagunça. Não, nunca conheci ninguém com pavor tão grande de bagunça. A ciência deveria criar uma categoria, tipo bagunçofobia, pra explicar.

O único espaço que tinha para exercer um pouco da arte da desordem era um armário na sala. Não era bem um armário, era mais uma espécie de cômoda, com uma porta, uma prateleira e um lugar pra pendurar cabides. Como não tinha muitas roupas “penduráveis”, jogava tudo na prateleira de baixo. Era um monte aleatório de tecidos. Gostava de mergulhar o braço lá e puxar uma peça de roupa; e era assim que meu dia começava, com uma escolha aleatória do que iria vestir. Achar um par de meias era praticamente uma pesca esportiva.

Nunca dobrei uma camisa, ao menos não nesse estilo tradicional de dobrar. Enrolava de maneira que não ficasse muito esgarçada e jogava lá dentro. Nunca entendi esse negócio sistemático de “dobrar”, com as manguinhas pra dentro, tudo igualzinho, em pilhas. Perda de tempo! Por mais amassada que esteja sua camiseta bastam dez minutos com ela no corpo para ficar mais ou menos assentada.

Meias e cuecas em gavetas distintas, organizadas por tons. Camisetas cuidadosamente dobradas e separadas em pilhas de cores e tipo de tecido; sapatos alinhados no armário em pares, separados em categoria social e esporte. Meu pai tinha também uma sessão só com kits de roupas de ginástica e outra especial para viagens, tudo devidamente dobrado, separado e compartimentado. Tudo no seu devido lugar, quadros bem alinhados, enfeites bem colocados. Aquário limpo, cachorro cheiroso, livros em ordem, pastas, fichários, gavetas temáticas. A moça da limpeza ia duas vezes por semana, mas não tinha muito trabalho. Talvez meu pai seja o maior conservador da lei e da ordem desse planeta. Matava o tempo à noite organizando fichas, pastas, livros, revistas. Gostava também de lavar roupa, pendurar, passar umas camisas. Apreciava cozinhar, mas mais do que isso gostava de lavar a louça depois e colocar tudo no lugar. Lavava, secava e guardava. Graças a Deus ele nunca serviu o exército. Fico imaginando que se tivesse pisado num quartel uma unica vez na vida estaria então vivendo com um desses generais cinco estrelas aposentados. Era como se ele tivesse nascido para isso: para a disciplina. Mas a vida tratou de moldá-lo diferente. Pra começar nasceu no Brasil, viajou, separou, faliu, amou, fugiu, lutou, trabalhou… o destino bagunçou um pouco o general e então ele virou um simpático vendedor, bom de papo, de riso fácil, cuja batalha diária passou a lhe rende mais amigos do que inimigos. Isso, é claro, se não bagunçassem sua casa. “Que baGunça, que bagunça!!”

Mais café. Tinha vontade de fumar um cigarro. Não deveria fumar cigarros. Todo mundo dizia para não fumar. Faz mal, dá câncer, ataque cardíaco, entope as veias, deixa broxa. Só um idiota fumaria cigarros com tanta gente dizendo pra não fazer. Dei um trago, tomei mais um gole de café.

O grande mal desse mundo é a ansiedade.

O cachorro me olhava com a bolinha na boca…

Mais um dia com a página em branco.

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23 – Propaganda

A publicidade se apossou de tudo. Vivaldi, por exemplo, morreu sem receber um centavo pelos milhões de sabonetes que sua opera vendeu. Gorbachev derrubou a União Soviética e hoje aparece em anúncio de marca de grife da américa capitalista. John Lenon, morto, faz figuração em propaganda de carro e Cheguevara continua vendendo mais camisetas que a C&A, Riachuelo e todas lojas de departamentos juntas. Isso fora quando não usam Jesus Cristo ou Buda.

Eles compraram o futebol no atacado. Estamparam o rabo do juiz com logotipos e deram um troco pro Ronaldinho levantar o dedinho na hora do gol: “é a número um, brasil-sil-sil”. Eles se apoderaram da espontaneidade dos nossos comportamentos. “Deixe sua energia mudar o mundo”, diz a propaganda de refrigerante. Aí eles colocam um vídeo de um sujeito fazendo um ritmo com a latinha no metrô e todo mundo sendo “contaminado” pela energia. Coisa que até poderia acontecer na vida real, mas essa “energia”, esse momento mágico, essa confluência divina, não passaria de mais um reforço publicitário. Mudar o mundo. Que grande bobagem. A publicidade se apoderou até dos nossos antigos anseios juvenis, aquele ímpeto setentista hippie de “mudar o mundo”. Quem hoje em dia quer mudar o mundo quando uma porcaria de refrigerante diz pra você fazer isso? Eles nos roubaram a espontaneidade e querem nos vender de volta…

Se o pessoal do hip-hop tá reclamando demais, incitando a desordem. Vamos fazer vídeo-clipes milionários, dar carros potentes, mulheres gostosas, cordões de ouro, assim a gente mantem mais gente nessa rodinha de hamster. Tá vendo, se os negões podem, você também pode. É só se dedicar, acreditar, comprar, consumir. E assim a piramide continua e as vendas de uísque importado aumentam.

A nova mania na aurora do fim do mundo é se apoderar dos nossos mais ancestrais medos apocalípticos. Um senhor com cara de sábio anuncia no vídeo: “um dia estranho, o mais estranho dos dias estranhos” e aí ele conta que o sol não apareceu, que todos tiveram que enfrentar o desconhecido e que não foi nada fácil. Enquanto isso, cenas da caminhonete pra cima e pra baixo, trabalhando. No final o narrador diz: “Nova Ford Ranger, pra enfrentar o que você conhece e o que ainda não conhece”.

Outra propaganda mostra um ator de filme de ação dirigindo por ruas vazias. Uma música clássica, uma loira gostosa do lado, bancos de couro, ar-condicionado, tudo funciona maravilhosamente bem até ele parar, abrir a porta e sair do carro. Lá fora é pura bagunça, gente brigando, acidente, sirene, poluição. O valente Jack Bouer então volta rapidamente pro carro, olha pra loira e diz: “It´s fine”. A música volta e o narrador diz: Novo Citroen C4 Pallas, com ele tudo fica diferente…Sim, a publicidade consegue nos vender até mesmo nosso próprio egoísmo.

Durante o curso de árabe achei que pudesse ter um talento especial para línguas. Na verdade não estava fazendo muito progresso, mas é que às vezes sou desse tipinho que se empolga rapidamente e acredita ter talento pra qualquer coisa que se proponha a fazer, já outras vezes me acho o pior dos seres humanos.

Dois meses se passaram e eu já sabia desenhar todo o alfabeto, por outro lado ainda não tinha ideia de como posicionar a língua corretamente e emitir o som do Alif, a primeira letra do alfabeto; e por consequencia todas as demais. Comecei a achar que no fundo tinha um talento especial para desenhar. Desenhar letras árabes. Era isso que eu deveria fazer na vida, virar desenhista de alfabeto árabe.

Olhava para Omaima, a professora, e desenhava no caderno, ilustrando a suavidade do seu sotaque em linhas musicais arábicas. Era tão doce, tão meiga.

Mas então ela passava para o árabe.

– Máçal kheir, arranhava o ouvido de todo mundo com uma fisionomia horrível, como se fosse outra pessoa. Logo depois emendava docemente: “E esta é como diz a Bom dia”.

Conheci um sujeito que usava um pulôver e óclinhos de intelectual. Costumávamos pegar metrô juntos na saída do curso. O sujeito fazia letras na USP e era um desses tipos raros que você encontra por aí; desses que sabem de tudo. Conheci poucos como ele. Era um baú de informação e não fazia questão de guardar nada para si. Me explicou a prosódia russa, a história do latim, as facilidades do grego, a semiótica de Saussure. O problema de pessoas como aquele rapaz é que raramente encontram um bom ouvinte nesse mundo raso. É verdade que qualquer um que não assista novela, Big Brother ou futebol, goza de certa falta de atenção nesses tempos ignóbeis, mas um cara que consegue discorrer da estação Consolação até o Paraíso sobre as origens eslavas do russo, ahh, certamente essa pessoa vive na mais profunda e sombria solidão.

Devo dizer, eu era um bom ouvinte. Ainda sou. Em fato, sempre fui um bom ouvinte. Na verdade tudo o que aprendi na vida foi ouvindo os outros. Não sou do tipo que lê. Até leio um pouco, leio bastante pra média brasileira, mas aprendi muito mais coisa ouvindo dos outros. No bar, no metrô, no ônibus, as pessoas precisam falar, tem necessidade de falar e não custa nada ouvi-las. Já pensei em ser mais seletivo, ouvir só a quem me interessa, ou quem pode me acrescentar algo. Mas a melhor coisa é deixá-las falar. Sim, pois com apenas uma palavra o bom ouvinte, aquele que presta atenção de verdade, pode mudar radicalmente o curso da proza. “E o corinthians hein?”, pronto, e de repente a conversa sai da seara da política para o futebol. Geralmente o falador é um rio que segue implacável, discorrendo, discorrendo, discorrendo. O ouvinte é apenas o catalizador,  que diz pra onde essa água toda vai.

– Você deveria tentar fazer letras, disse o rapaz segundos antes do apito anunciar o fechamento das portas. Era a minha estação, já estava do lado de fora quando ele disse aquilo. Acenei com a mão em despedida. Ele seguiu viagem.

Outra verdade nos faladores é que eles geralmente se identificam nos ouvintes. Eu por exemplo, não tenho qualquer especial interesse por carros ou motores, mas certa vez me pus a ouvir um sujeito apaixonado por veículos. Ao final da conversa ele me tinha como um grande entendedor e uma vez até me ligou pra perguntar algo.

“Você deveria fazer letras”. Fiquei com aquilo na cabeça. De fato eu já havia pensado em tentar uma segunda faculdade. Todo mundo que se formou em jornalismo pensa em fazer uma segunda faculdade. Além do mais, eu estava me dando bem no árabe; já sabia escrever todo o alfabeto.

Fazia tempo que eu já pensava em uma segunda faculdade. E tinha que ser Letras! Já tinha isso em mente desde de quando conheci Aline, aquela gatinha de letras que gostava do meu blog. Aliás, até mesmo antes dela, quando Ritinha Vitae abandonou o curso de jornalismo e a virgindade para se dedicar às letras e a promiscuidade. Aliás, muito antes disso, quando namorei com Manoella, estudante de letras e dona de um bumbum incrível. Sim, todos os caminhos me levavam à Letras. Todo mundo dizia que era o curso mais fácil de passar. É fácil, dizia Aline. É fácil, dizia Ritinha. É fácil, dizia Manolla. É fácil disse o rapaz de pulôver e óclinhos.

E então, naquele momento, eu aposentei de vez a ideia de ser garçom em Dubai e comecei a pensar no vestibular. Poderia retomar a ideia de ser escritor. Sim, seria um escritor com diploma de escritor. Se fosse um fracasso viveria de dar aulas ou de fazer críticas literárias a outros mais bem sucedidos. Além do mais, que diabos! Um sujeito que fala várias línguas e entende de semiótica não precisa se preocupar com mais nada nesse mundo. Dinheiro, mulher, sucesso, era tudo consequencia. Sim, dali em diante estudaria com afinco para a prova de Letras na Universidade de São Paulo. O curso mais fácil de passar!

Caminhos

21 – Rotina

Não parece ter ninguém presente. Os corpos são meros avatares desprovidos de realidade, zanzando com sensações anestesiadas sem saber se o clima está quente ou frio ou se é o ar condicionado do carro (shopping-casa-trabalho) que está desregulado. Vagam anônimos por entre avenidas e ruas da babilônia tentando desesperadamente serem notados. A maior parte da atenção é para sí, em como andam, como vestem, como falam. No mais, são todos sequestradores.

Cada centímetro, cada esquina, cada parede é planejada cuidadosamente para sequestrar um breve segundo dessa falta de atenção. E, devo dizer, eles tentam de tudo. Slogans, logotipo, camisetas, adesivos, banners, telas LCD, bandeiras, bundas, jornais, revistas, etiquetas, preços, números, letras, mamilos, cifras, telefones, www, @s, promouters gostosas, cor, luz, som, ursinho de pelúcia cuidadosamente colocado em frente a vagina em uma foto sensual na revista da banca de jornal. Alguns param, repousam os olhos, vão.

Na rua, buzina e motor. Nas galerias, conversas e ringtones. Tento escapara. Subo pela Padre João Manoel e a Paulista se descortina por entre prédios. Lá está ela, enorme, escura. O sol da manhã tenta achar brecha entre os prédios. Para quem vem de fora parece tudo agitado, mas é um dos momentos mais calmos do dia. Garçons servem tranquilos num café em frente ao metrô, garis conversam mostrando fotos no celular. O dono da banca lê as notícias do dia.

Meio dia, sol a pino, avenida ilustre, grande, iluminada; hora dos imensos cupinzeiros de concreto liberarem trabalhadores famintos que zanzam em busca de comida. O café enche; garçonetes suam entre indas e vindas forçando sorrisos, olham o relógio torcendo pra hora passar. O jornaleiro larga o jornal, os garis desaparecem, a rua é um mar de rostos, todos diferentes, cores, cabelos, roupas. Todo mundo precisa ser diferente, os carros na avenida também; exibem suas marcas, estilos e calotas, parados no tráfego. Todo mundo quer ser diferente mas faz todo dia a mesma coisa.

Todo mundo quer ser livre. Todo mundo quer fazer o que quer. Todo mundo quer ter um cartão de crédito.

A bolha prossegue. Todo dia um pouco diferente. Todo dia um pouco mais. Todo dia um pouco mais rápido. Todo dia um pouco maior. Ploc!

Ela fumava um cigarro e me olhava com olhos fraternais. Fazia isso sempre. Não que fossem verdadeiros ou falsos, sabia fazia o olhar que quisesse. O problema é que sempre contrastavam com o boca. Lábios carnudos, como um filé de picanha cru, com aquele sorriso irônico, pronto para desferir o mais mortal dos comentários. “Eu acho que você escreve mal. Não é que escreve mal, talvez escreva até bem, mas é que você quer ser beat, e você não é beat de verdade. Você não sabe o que é uma vida beat de verdade”.

A noite havia transcorrido bastante após a cerveja com Jaimovsky e Ritinha Vitae. Estava em algum ponto da Rua Augusta, eu, ela, Bea Tnik, e mais um grupinho de amigos que seguia na frente, incluindo ali seu novo namorado, o benê, um sujeito que não conhecia, mas que não ficava muito confortável ao vê-la bêbada se escorando em mim logo atrás. “Ele é ótimo, sabia. Amo ele, de verdade. Sabia que to namorando dois, thi? Ele e mais um carinha da alemanhã que conheci no facebook… Mas não é esses namorinhos virtuais não, ele já veio pra cá, transamos pra caramba, uns 30 dias sem parar. Nossa thi, o alemão mete bem. Na verdade não é bem alemão, é macedônio, chamo ele de lesmão. Ele vai me levar pra lá, pra europa, em julho. Vou morar com ele. E o mais legal é que o benê sabe disso, nosso namoro tem prazo pra terminar.”

Ela estava mais magra. Bem mais magra do que a última vez que nos vimos. Disse estar com anorexia nervosa; o mais novo item na sua coleção de problemas. Mas o sorriso era o mesmo, sempre irônico, emblemático, como se estivesse escondendo um comentário feroz e devastador. Estava com seus cabelos vermelhos de sempre e uma blusa de frio cobrindo a tatuagem gigante da fênix que tem nas costas. “Você tá gordo. Olha sua postura tá horrível. Qué isso meu, que absurdo, você sempre foi um cara preza, agora virou um jeca? Faz uns exercícios thi. Pára de comer”.

Cruzamos a Luis Coelho e baixamos no BH, ela entrou, pegou duas cervejas da geladeira, aproveitou a movimentação e saiu sem pagar. “Sabe, eu te amo thi. Eu casaria com você, você é a melhor pessoa que já conheci na vida. Mas acho que você não me comeria direito. Gosto de homens que me jogam na cama e transam comigo como se eu fosse uma puta, me arregaçam e depois me tratam como uma princesa, sabe esse tipo? Você não tem muito esse perfil. Sim, eu sei que eu não faço seu tipo também, mas eu te amo, de verdade”. Dizia isso baixinho, com voz sedutora, próximo ao meu ouvido. Logo depois, saia dando risada, falando alto, entrando na conversa de outro grupo.

Descemos a Augusta sentido meretrício. Paramos para comprar mais cerveja, fiz um comentário sobre um ex-namorado dela. Ela riu alto e me deu um tapa na cara. “Como você é besta. Seu filho-da-puta”, disse ainda rindo, meio nervosa. A marca ficou no rosto por algum tempo.

“Desculpa thi. Não estou bem, sabe. Tenho problemas. Estão cada vez piores. To sem grana nenhuma, meus remédios são todos caros. Não é loucurinha tipo coisinha pouca, é loucura mesmo, diagnoticada, problema sério, ando tendo direto sindrome do pânico”

O resto da noite ela tentou ser espontânea, mas não conseguiu mais. Aquele tapa incomodou mais a ela do que a mim. “Porra meu, vai ficar aí de cara só porque te dei um tapa? Desculpa thi, não devia ter feito isso. Você tá certo. Faz quanto tempo que a gente não se fala? Tempo pra caralho né? Também, você fica perdido lá longe. Porque nos abandonou? Volta pra cá? Me perdoa”.

Não tinha muito o que perdoar. No fundo entendia Tnik. Talvez eu não soubesse de verdade o que era ter uma vida beat. Ela perdeu o pai na véspera do natal de 1995, quando tinha 15 anos. Foi assassinado na sua frente no interior. Tudo o que veio depois foi consequência daquele dia. Não que isso tenha qualquer coisa a ver com ser ou não ser beatnik, mas ele encontrou nessa literatura uma espécie de remédio pros traumas. Podíamos ler os mesmos livros, mas nunca leríamos da mesma maneira.

O céu já mudava de cor quando nos despedimos no cruzamrnto com a paulista. “Você devia voltar pra São Paulo. Faz falta aqui, sabia?”. Me abraçou, sorriu e virou as costas andando pela cidade com seu cabelo vermelho fogo. Era pura paisagem paulistana.

19 – Patife

Ritinha Vitae cruzou com Jaimovsky na porta do bar. Vi de longe quando se cumprimentaram e ele apontou para a mesa onde eu bebia sozinho. Fazia tempo que não via Vitae. Tinha cortado o cabelo, bem curto. “Eae seu energúmeno, quanto tempo. Me dá um beijo!”. O “energúmeno” não tinha a mesma entonação nem a vivacidade de antes, dava pra ver que ela estava meio pra baixo. Sentou na cadeira do Jamovsky, acendeu um cigarro e bebeu um gole da vodka com raspa de limão: “Hum, você que pediu isso?”.

Ela tinha terminado o namoro. Era um namoro que nunca ia dar certo. Todo mundo tinha avisado, mas ela insistiu. Na verdade acreditou que daria certo mais pelo medo de ficar sozinha do que por lampejos de amor, paixão ou mesmo racionalidade. “Isso não pode, ele terminar comigo. Ele, logo ele, o Patife? Eu é que tinha que terminar!”. Na verdade já tinham terminado algumas outras vezes, sempre por iniciativa dela. Aliás, posso contar nos dedos de uma mão as vezes que vi eles juntos; estavam sempre “terminados”. “Ele não quer voltar, de jeito nenhum. Isso é uma humilhação, levar um fora do Patife! Logo do Patife?”.

Geralmente os dois discutiam, tinham uma briga feia, provavelmente por causa de alguma banda ou escritor, e então terminavam, sempre por iniciativa dela. No fundo o que Vitae gostava era de ver ele rastejar de volta, que nem um cachorrinho, lamber o chão e pedir pelo-amor-de-deus-volta-pra-mim. Mas dessa vez foi diferente. Dava pra ver que ela estava transtornada. Nunca imaginou que ele pudesse terminar de verdade. “Ele disse que tinha cansado das minhas loucuras, e nunca mais me ligou. Ele nunca fez isso. Geralmente no dia seguinte já ligava. E eu tonta, em vez de ficar quieta, fui atrás! Aí que raiva. Agora fui eu quem levou o fora. E agora, o que que eu faço? Fuma um cigarro comigo. Você parou de fumar? Sério? Aquele lugar tá te fazendo mal! É acho que deveria parar de fumar também”, disse jogando o maço na mesa.

Tinha o beiço típico da decepção e ria menos do que o de costume. “Maldito Patife, eu é que tinha que ter terminado com ele, como fui burra de ligar e pedir pra voltar… Como assim não tem diferença? É a mesma diferença entre ser despedido e se demitir, oras. Como vou arrumar outro emprego sendo mandada embora assim?”

Ele chama o garçom, pede uma vodka com gelo e uma raspa de limão. “Lembra desse drink Thiaguinho”- é um dos únicos que tem o costume de me chamar dessa forma. “Vodka, gelo e uma raspa de limão”, levanta o copo e dá um gole. “Cerveja todo dia empapuça”. Estava em sua jaqueta de couro com o maço de L&M no bolso. Jaimovsky e é um escritor sem livros, uma espécie de neo-bit, ou pós-beat, sentado em pleno Charm, na Augusta, segurando um cigarro, com olhar perdido no copo de vodka.

“O que ficam são as pequenas coisas Thiaguinho. Lembro até hoje do jeito que meu pai segurava o cigarro”, e então mostra o cigarro meio inclinado, com a ponta em brasa, deixando correr uma fina linha branca de fumaça. “O jeito que ele bebia o drink dele” e então pegava o copo de vodka com raspa de limão com a mesma calma e tranquilidade, num gesto digno de Hunfrey Bougard no seu momento de maior inspiração.

É início de noite na Augusta. Os bares começam a ferver, primeiro chegam os que trabalham perto e os que ficaram a toa o dia inteiro, como nós. Em volta dezenas de pessoas, fumaça de cigarro, um garçom atarefado, e uma moça sentada sozinha com olhos voltados para o telejornal, atrás da nossa mesa. Viro para trás e vejo uma cena de enchente. Resolvo voltar pra conversa.

“Não sei se você sabe Thiaguinho, ele morreu no ano passado. Essa é uma das coisas que ele deixou, as pequenas coisas. Isso é o importante da vida Thiaguinho, as pequenas coisas. Os budistas falam isso. Já leu o livro dos mortos tibetanos? Não? Nem eu, mas eu tenho ele. Comprei num sebo. Tem que ler Thiaguinho, tem que ler.”

Falando nisso já leu o almoço nú do Burroughs , Porra thiaguinho ainda não? Quanto tempo faz que já te falei pra ler? Tá lendo o que? pergunte ao pó? É, o Fante também é bom, mas lê o almoço nú”

“Essa rua aqui, Thiaguinho, pra mim é o lugar mais impessoal de toda São Paulo, talvez, de todo Brasil. As pessoas não se olham nos olhos, são grupos diferentes, vagando por aí, interessados em seus mundinhos. Eu posso me levantar daqui, ir alí no meio daquele grupo, baixar minhas calças e cagar que eu não vou ser notado por ninguém. Isso não é incrivel?”.

Eu larguei meus contos. Faz tempo que não escrevo mais nada. É foda ganhar a vida hoje em dia. Escrever não tem mais valor. Tava pensando em pagar a mim mesmo pra escrever, mas não tenho um puto. Agora to no twitter. Esse twitter é algo incrível. Eu escrevo às vezes em inglês, o nome dele é bicstopmotion, com o arrobinha na frente. Sabe esses desenhos que você faz no caderno e vai passando? Bic Stop Motion, saca? Quantos seguidores eu tenho? Não sei, não olho meu contador, só vou escrevendo”.

“Já ouviu Egberto Gismonti? Porra Thiaguinho, caralho, você já tem 27 anos mano, que mundo você vive? Você tem que sair lá do mato cara. Você não era o viajante? Você é o viajante pra mim. Você é o viajante assim como eu sou o escritor. Tá no seu sangue. Você tem que ir pra Londres, Nova York, Paris, você tem que ir atrás dela, pegar essa cultura toda que tá por aí”

“Sim, parece legal isso que você falou, natureza, mais tempo livre, oportunidade de trabalho, mas você tem que ir pros grandes centros. Você não tá com uma cara boa. O que tá acontecendo. Mulher né? Só podia ser mulher. Você sempre foi pegador, tá chorando por causa de mulher?”

Mas também não se preocupa muito com isso não, a vida é um cliclo. Às vezes fica lá um período. É isso que você tá fazendo né? É de fato, é a melhor coisa. Mas cara, suga tudo o que você tem que sugar de cultura e experiência e depois vai pra algum canto”.

E então ele se levantou e foi fumar um cigarro.