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Posts Tagged ‘Sociedade’

Vivemos uma democracia Big Brother, ou seja, votamos naquele que aparece melhor na TV. O brasileiro se acostumou com essa idéia de escolher o sujeito que mais simpatiza, ou que “acha” ser o mais “legal”. Nessas eleições o clima é igualzinho no começo do ano, quando todo mundo fala de fulano que pegou sicrana, beltrano que deu escândalo, a gostosa que mostrou o seio, e assim vai. A corrida presidencial se transformou num reality show de mau gosto, e o público vai votar baseado nessa farsa midiática.

A discussão sobre aborto tomou conta da agenda política nesse segundo turno, como se isso importasse alguma coisa. Um candidato a presidente pode ser a favor do aborto, da maconha, do casamento gay, da eutanásia, da putaria e da cachaça, pode ser a favor do que diabos ele quiser, não interessa, pois não cabe a ele dar pitaco em temas referentes a sociedade civil, pra isso existe toda uma corja de legisladores conhecidos como senadores e deputados. O que a gente precisa saber de um candidato a presidente é qual política econômica ele vai aplicar, se acredita na privatização, na estatização, na distribuição de renda, na diplomacia, no austeridade fiscal? É isso que uma sociedade deveria discutir antes de sair digitando o voto nas urnas.

É chocante ver o nível de reducionismo dessas eleições. O brasileiro não problematiza mais os temas políticos e uma parcela importante da população não consegue ver, por exemplo, que ser contra a distribuição de renda e a educação é uma maneira muito pior de ser contra a “vida” do que se declarar abertamente a favor do aborto. Discutir apenas um tema com essa paixão toda é raso demais e não leva a lugar nenhum.

Acho que a culpa disso são esses reality show que o povo ficou viciado. O sujeito se acostumou a votar pela estampa. Afinal, qual profundidade ideológica ele precisa ter pra decidir entre o fortão, a gostosa ou o homossexual, no tal do “paredão”? Aí, nas eleições, a superficialidade é a mesma. Num debate, por exemplo, vale muito mais o jeito de falar do que o conteúdo em si. Se a candidata é um pouco rouca, se fala meio baixo, titubeia, não serve, sai fora, tá eliminada. Se o sujeito sorri, gesticula, é educado, ah, é nele que eu vou votar, olha só que cara bacana, que homem bom, digno.

No futuro, se os caminho politicos se encurtarem, é bem provável que tenhamos um Cléber Bambam no Palácio do Planalto.

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Acabei de ver dois filmes que neste momento são como um assento na janela no vagão principal da locomotiva humana. O primeiro chama-se “Us Now”, ou “Nós Agora”. Achei numa lista de documentários num blog qualquer na internet (nunca tinha sequer ouvido falar). O outro é o novo filme do cineasta americano Michel Moore: “Capitalismo: uma história de amor”. Combinados, os dois são uma viagem vertiginosa através dos ventos da mudança.

É estranho pensar nisso, aqui, sozinho no meu quarto, num pedaço de chão do velho Centro-Oeste. Há alguns anos estaria isolado, me comunicando por carta, interurbanos, telegramas, longe do núcleo pensante e das discussões que me interessam. Mas um computador, internet e algumas ferramentas na web me colocam em contato com toda a humanidade. Seja em mensagens instantâneas, grupos de discussão, fóruns, redes sociais. Do meu quarto eu vejo o mundo e participo dele numa espécie de acrópole digital.

“Uma revolução não começa quando a sociedade adota novas ferramentas, começa quando a sociedade adota novos comportamentos”, diz o escritor Clay Shirky logo no início do documentário “Us Now”. E de fato, eu, que ainda sou considerado jovem, lembro bem do começo da internet. Do barulhinho estranho da conexão discada e da demora para carregar uma foto. Em menos de 10 anos a coisa toda deu um salto e agora nos comunicamos em tempo real, discutimos, vemos nossa casa do espaço, votamos, baixamos filmes e até pedimos pizza pelo twitter.

A sociedade já adotou novas ferramentas. A internet já faz parte do nosso dia-a-dia. É uma canal poderoso de democracia, de participação popular e de tomadas de decisões. Só falta agora adotar novos comportamentos. E é aí que nós, brasileiros, podemos nos dar mal. O filme de Michel Moore mostra como a mudança está acontecendo lá nos Estado Unidos. O país caminha à passos largos para uma mudança estrutural tanto na sociedade quanto na economia, ele chega até a propor em certo momento a adoção do socialismo. Pessoas se organizam em passeatas, greves, mandam cartas para seus deputados, cobram ações do seu senador. O cineasta mostra a força do povo no início da crise econômica, ao pressionar pelo não socorro aos bancos e logo depois na eleição de Obama.

Enquanto isso, aqui, em terras-brasilis, a maior utilização das redes sociais até agora foi o incremento na audiência do Big Brother. Este é ano de eleição, mas fora uma ou outra coluna de jornal, não existe uma discussão na sociedade sobre o que queremos ou não para nosso país. Usamos o twitter para dizer o que comemos no almoço, o Orkut para mostrar as fotos da festa do último fim-de-semana e o Facebook para mostrar o quanto sabemos escrever bem em inglês. Os assuntos mais acessados em sites de notícias são Big Brother e confusão com celebridades. Em resumo, o brasileiro ainda não adotou novos hábitos e isso pode nos custar aquele futuro tão desejado mais uma vez.

Aqui em Mato Grosso a televisão continua bombando a cabeça da galera. Não existe oposição ou grupos de discussão. Logo aqui, talvez o local mais estratégico para o futuro do país, a coisa marcha como no século passado, com políticos corruptos, empresários fraudulentos e sociedade civil apática. Pela primeira vez na história temos a chance de fazer algo realmente de vanguarda, de encabeçar uma economia sustentável no planeta, de dar o exemplo, de promover o brazilian way of life. Mas ao invés disso o desmatamento continua a comer solto o nortão para alimentar bocas e estômagos vidrados em Big Brother e seus merchandising maravilhosos lá no Sudeste.

É hora de agir! Não aquela ação de outrora de pegar em armas ou promover saques, mas a de simplesmente ficar ligado no mundo. Só isso talvez já baste! Saber o que acontece, entender o funcionamento e descobrir qual o seu papel dentro da sociedade. É hora de nos tornarmos cidadãos, de questionar certas coisas e não admitir mais nos enfiarem porcarias guela abaixo. É hora de questionar a mídia, o seu deputado, a empresa que te vende shampoo. É hora de parar de sonhar com dinheiro, de querer virar celebridade. É hora de ridicularizar grandes executivos que acham que são bem sucedidos, de questionar fortunas, de querer transparência, de procurar a verdade!

A sociedade já adotou as ferramentas… está na hora de você adotar novos hábitos.

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Política e mídia se misturam em Mato Grosso. Deputado bom é deputado na TV. E não só em propaganda eleitoral. Pra ser lembrado pela população o político precisa aparecer, sorrir em outdoors enormes, ter um ônibus com a lataria pintada e apresentar seu próprio programa de TV em alguma afiliada local. Um desses camaradas é o nobre deputado estadual Sérgio Ricardo (PR). Confesso que não sou um telespectador assíduo do seu programa criativamente chamado de “Programa do Sérgio Ricardo”, mas estou nesse momento com a TV ligada ouvindo o nobre deputado falar vestido com sua camiseta do Palmeiras e a vontade de escrever me é incontrolável.

Ao que parece o programa dele é todo sábado. É um dos lideres de audiência no estado (pelo menos é bem comentado entre a população). Mas ainda não deu pra sacar muito bem como funciona o tal programa. Após vinte minutos em rede estadual, tudo o que ele fez foi passar hinos de times de futebol e comentar: “ah, esse hino do inter é muito triste, coloca o do grêmio aí”, e aí o sujeito lá na cabine troca: “ah, esse é melhor”. Na chamada para o intervalo passa a vinheta com cenas do deputado distribuindo peixe para os pobre e percorrendo as rodovias do estado com seu luxuoso ônibus estilo cantor pop-sertanejo; com rosto e número do partido pintados na lataria.

Acho incrível a presença constante de políticos nas ruas de Cuiabá. Na maioria das vezes estão fazendo joinha ao lado de uma frase emblemática estampadas em gigantescos outdoors: “Parabéns Cuiabá, sua bonita!” ou “Muito obrigado governador Maggi por trazer a Copa para a gente”. Isso tudo mais os carros adesivados, os pobres (e não tão pobres) com camisetas políticos e os tais ônibus particulares tunados de sertanejo-pop. E o que é mais assustador: estamos há mais de um ano das eleições. Não quero nem imaginar como essa cidade vai ficar daqui uns meses.

De volta do intervalo o deputado anuncia com entusiasmo: “E atenção, hoje tem jogo no Jardim da Glória valendo o Troféu Sérgio Ricardo”. Entra correndo um cantor de lambadão mexendo o corpo todo cantando playback: “e vai no vuco-vuco, e vai no vaco-vaco”. Uma cuiabana vestida com roupas exageradamente típicas aparece e diz: “vou declarar um poesia para você Sérgio Ricardo”, respira fundo e começa: “Sérgio, você não é revista, mas estou sempre Contigo, não é a TIM, mas meu amor por você é sem fronteiras…” e vai seguindo numa lírica majestosa capaz de matar um poeta envenenado.

Ainda me pergunto até quando a população vai aceitar esse tipo de programação? O fim inglório desse tipo de promiscuidade deveria ter ocorrido com a prisão de Lino Rossi, apresentador do “Cadeia Neles”, programa líder de audiência no horário (sic) do almoço! Anos à frente da atração, Lino Rossi, o político que consegui se eleger vereador, deputado estadual e depois federal, bradava contra os bandidos em rede estadual. “Tem que ter pena de morte!”. “A polícia tem que matar, sim!”. “Lugar de bandido é na cadeia!”. Isso até o dia em que foi preso, acusado de ser um dos principais beneficiários da máfia dos sanguessugas. O programa, claro, continuou líder de audiência com outro apresentador. Além do mais, o nobre político foi solto logo em seguida e ainda aguarda julgamento.

Não tive saco de acompanhar o programa do Sério Ricardo até o fim, joguei no mute e vim aqui escrever esse texto. Enquanto digito tem um telefone na tela piscando pedindo doações. Até tentei aumentar pra saber mais sobre isso. Doações? Pra que esse cara quer doações? Mas o controle remoto há dias não funciona e o botão da TV ainda tá quebrado. Preciso comprar pilhas. Jornalistas podem pedir doações?

Doações? pode sim amigo!

Pode sim amigo!

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