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Posts Tagged ‘2010’

Vivemos uma democracia Big Brother, ou seja, votamos naquele que aparece melhor na TV. O brasileiro se acostumou com essa idéia de escolher o sujeito que mais simpatiza, ou que “acha” ser o mais “legal”. Nessas eleições o clima é igualzinho no começo do ano, quando todo mundo fala de fulano que pegou sicrana, beltrano que deu escândalo, a gostosa que mostrou o seio, e assim vai. A corrida presidencial se transformou num reality show de mau gosto, e o público vai votar baseado nessa farsa midiática.

A discussão sobre aborto tomou conta da agenda política nesse segundo turno, como se isso importasse alguma coisa. Um candidato a presidente pode ser a favor do aborto, da maconha, do casamento gay, da eutanásia, da putaria e da cachaça, pode ser a favor do que diabos ele quiser, não interessa, pois não cabe a ele dar pitaco em temas referentes a sociedade civil, pra isso existe toda uma corja de legisladores conhecidos como senadores e deputados. O que a gente precisa saber de um candidato a presidente é qual política econômica ele vai aplicar, se acredita na privatização, na estatização, na distribuição de renda, na diplomacia, no austeridade fiscal? É isso que uma sociedade deveria discutir antes de sair digitando o voto nas urnas.

É chocante ver o nível de reducionismo dessas eleições. O brasileiro não problematiza mais os temas políticos e uma parcela importante da população não consegue ver, por exemplo, que ser contra a distribuição de renda e a educação é uma maneira muito pior de ser contra a “vida” do que se declarar abertamente a favor do aborto. Discutir apenas um tema com essa paixão toda é raso demais e não leva a lugar nenhum.

Acho que a culpa disso são esses reality show que o povo ficou viciado. O sujeito se acostumou a votar pela estampa. Afinal, qual profundidade ideológica ele precisa ter pra decidir entre o fortão, a gostosa ou o homossexual, no tal do “paredão”? Aí, nas eleições, a superficialidade é a mesma. Num debate, por exemplo, vale muito mais o jeito de falar do que o conteúdo em si. Se a candidata é um pouco rouca, se fala meio baixo, titubeia, não serve, sai fora, tá eliminada. Se o sujeito sorri, gesticula, é educado, ah, é nele que eu vou votar, olha só que cara bacana, que homem bom, digno.

No futuro, se os caminho politicos se encurtarem, é bem provável que tenhamos um Cléber Bambam no Palácio do Planalto.

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A memória humana costuma se subdividir em períodos históricos. Já tivemos o feudalismo, o iluminismo, o modernismo, o pós-modernismo e agora vivemos o pré-apocalipse. Não que eu creia e propague essa besteira de 2012 e calendário Maia; abstrações desse tipo só confundem ainda mais o entendimento da realidade. Na verdade, nem acredito em apocalipse e nem que o mundo vá, de fato, acabar. Quando digo que vivemos o período pré-apocalipse quero dizer que esse é nosso espírito, nosso zeitgeist, nossa motivação.

Independente se você é do time do Nostradamus ou da Pollyanna, o fim do mundo é o que nos move. Todo o pensamento humano contemporâneo é voltado para um possível fim ou recomeço da humanidade como um todo. Tudo bem que essa história de fim de mundo é antiga, já se discutia isso lá nos porões da Bretanha medieval, mas a paixão e desdém que envolve o tema hoje em dia é deveras peculiar. O apocalipse nos fascina e nos entedia. É uma espécie de voyeurismo obtuso, onde nos deliciamos em telas de LCD sem saber se o que vemos é Hollywood ou o Jornal Nacional.

Enquanto o assunto deveria despertar pânico em tempos idos, hoje em dia a gente literalmente caga pra ele. “É o fim do mundo”, dizemos enquanto imagens de alagamento passam na TV. Mas e daí? No fundo a gente se acostumou com esse fim. Somos como um senhor velho com um câncer diagnosticado. Somos um José Alencar da vida. Um sujeito que segue vivendo, sorrindo pra morte, crente de que de uma hora pra outra pode bater as botas.

Nossa doença já foi diagnosticada. Aquecimento global! Os que negam são apenas parte da nossa própria negação, já os ambientalistas são apenas parte daquela consciência dizendo que somos velhos o bastante para continuar fumando e enchendo a cara. O fato é: a doença existe! Pela primeira vez na história da humanidade temos de lidar com a nossa própria: possível morte em espécie. Durante séculos especulou-se e filosofou-se sobre o apocalipse e nós temos o bizarro privilégio de ser a primeira geração a talvez presenciar o começo dele. “É o fim do mundo”, repetimos como um mantra em nossas salas de estar com ar-condicionado vendo cenas de São Luis do Paraitinga alagada pulsando em HDTV.

E é por isso que até acharem outro nome melhor eu continuo a chamar nossa época de Pré-apocalipse. Onde igrejas desabam, a terra aquece, a chuva alaga, os morros deslizam e o Big Brother Brasil se prepara para bater novo recorde de audiência…

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