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Archive for the ‘Sociedade’ Category

Acabei de ver dois filmes que neste momento são como um assento na janela no vagão principal da locomotiva humana. O primeiro chama-se “Us Now”, ou “Nós Agora”. Achei numa lista de documentários num blog qualquer na internet (nunca tinha sequer ouvido falar). O outro é o novo filme do cineasta americano Michel Moore: “Capitalismo: uma história de amor”. Combinados, os dois são uma viagem vertiginosa através dos ventos da mudança.

É estranho pensar nisso, aqui, sozinho no meu quarto, num pedaço de chão do velho Centro-Oeste. Há alguns anos estaria isolado, me comunicando por carta, interurbanos, telegramas, longe do núcleo pensante e das discussões que me interessam. Mas um computador, internet e algumas ferramentas na web me colocam em contato com toda a humanidade. Seja em mensagens instantâneas, grupos de discussão, fóruns, redes sociais. Do meu quarto eu vejo o mundo e participo dele numa espécie de acrópole digital.

“Uma revolução não começa quando a sociedade adota novas ferramentas, começa quando a sociedade adota novos comportamentos”, diz o escritor Clay Shirky logo no início do documentário “Us Now”. E de fato, eu, que ainda sou considerado jovem, lembro bem do começo da internet. Do barulhinho estranho da conexão discada e da demora para carregar uma foto. Em menos de 10 anos a coisa toda deu um salto e agora nos comunicamos em tempo real, discutimos, vemos nossa casa do espaço, votamos, baixamos filmes e até pedimos pizza pelo twitter.

A sociedade já adotou novas ferramentas. A internet já faz parte do nosso dia-a-dia. É uma canal poderoso de democracia, de participação popular e de tomadas de decisões. Só falta agora adotar novos comportamentos. E é aí que nós, brasileiros, podemos nos dar mal. O filme de Michel Moore mostra como a mudança está acontecendo lá nos Estado Unidos. O país caminha à passos largos para uma mudança estrutural tanto na sociedade quanto na economia, ele chega até a propor em certo momento a adoção do socialismo. Pessoas se organizam em passeatas, greves, mandam cartas para seus deputados, cobram ações do seu senador. O cineasta mostra a força do povo no início da crise econômica, ao pressionar pelo não socorro aos bancos e logo depois na eleição de Obama.

Enquanto isso, aqui, em terras-brasilis, a maior utilização das redes sociais até agora foi o incremento na audiência do Big Brother. Este é ano de eleição, mas fora uma ou outra coluna de jornal, não existe uma discussão na sociedade sobre o que queremos ou não para nosso país. Usamos o twitter para dizer o que comemos no almoço, o Orkut para mostrar as fotos da festa do último fim-de-semana e o Facebook para mostrar o quanto sabemos escrever bem em inglês. Os assuntos mais acessados em sites de notícias são Big Brother e confusão com celebridades. Em resumo, o brasileiro ainda não adotou novos hábitos e isso pode nos custar aquele futuro tão desejado mais uma vez.

Aqui em Mato Grosso a televisão continua bombando a cabeça da galera. Não existe oposição ou grupos de discussão. Logo aqui, talvez o local mais estratégico para o futuro do país, a coisa marcha como no século passado, com políticos corruptos, empresários fraudulentos e sociedade civil apática. Pela primeira vez na história temos a chance de fazer algo realmente de vanguarda, de encabeçar uma economia sustentável no planeta, de dar o exemplo, de promover o brazilian way of life. Mas ao invés disso o desmatamento continua a comer solto o nortão para alimentar bocas e estômagos vidrados em Big Brother e seus merchandising maravilhosos lá no Sudeste.

É hora de agir! Não aquela ação de outrora de pegar em armas ou promover saques, mas a de simplesmente ficar ligado no mundo. Só isso talvez já baste! Saber o que acontece, entender o funcionamento e descobrir qual o seu papel dentro da sociedade. É hora de nos tornarmos cidadãos, de questionar certas coisas e não admitir mais nos enfiarem porcarias guela abaixo. É hora de questionar a mídia, o seu deputado, a empresa que te vende shampoo. É hora de parar de sonhar com dinheiro, de querer virar celebridade. É hora de ridicularizar grandes executivos que acham que são bem sucedidos, de questionar fortunas, de querer transparência, de procurar a verdade!

A sociedade já adotou as ferramentas… está na hora de você adotar novos hábitos.

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“É perda de tempo tentar entender o momento em que se vive”, falam os filósofos. A história deve ser analisada em perspectiva, dizem os doutores. Mas quando não parece haver muitas perspectivas futuras, analisar o presente é um dever de todos nós. Pare e pense: o que significa essa época de crise ambiental? Por que chegamos nesse ponto e por que tanta gente se recusa a admitir? Será que esses anos todos de mercado, economia, conforto, bens, serviços nos anestesiou os sentidos. A realidade paira em outra dimensão, longe, em florestas, rios e mares sem câmeras de segurança?

Na última sexta-feira a senadora Marina Silva deu uma palestra aqui em Cuiabá durante o congresso de jornalismo ambiental. Com um discurso afiado, lógico, coerente, ela faz tudo parecer simples. Existe um problema, o mundo já diagnosticou esse problema, sabe da sua existência e pretende unir forças para superá-lo. Pelo menos uma boa parte das pessoas. O que parece ilógico nessa história toda é que tem gente que quer continuar batendo carteira no salão de festas do Titanic. Pra gastar aonde é que eu não sei.

Atualmente, aqui em Cuiabá, a Assembleia Legislativa modificou o estudo de zoneamento do estado. Era um estudo de mais de 20 anos, que consumiu cerca de 30 milhões de reais dos cofres públicos. Os deputados fizeram uma primeira tentativa de estragar o troço no ano passado, colocaram o resultado do estudo técnico para consulta popular, foram em 15 municípios, consumiram um bocado de grana e apresentaram uma contra proposta muito parecida com a primeira. Ficou ok, disseram os ambientalistas. O medo inicial era de que tudo viesse por água abaixo, mas a população entendeu o problema. A maioria das reservas legais e terras indígenas permaneceram iguais Ponto pra sociedade. Mas deputado que é deputado não representa a sociedade, representa financiador de campanha. Uma nova proposta surgiu do nada para substituir o estudo original, o temido substitutivo 2, que acaba com cerca de 60% das reservas legais, tira 15 terras indígenas em processo de homologação, permite plantar cana perto de nascentes e foi feito em TRÊS meses.

Talvez existam duas explicações lógicas para isso. A primeira é a de que o sujeito acha que tá tudo fudido mesmo e que foda-se o mundo, vou desmatar mais esse trecho aqui, aquele lá, plantar mais um bocado aqui e continuar gastando a grana em putas e whisky. Talvez o indivíduo já esteja tão descrente, mas tão descrente de qualquer coisa que só queira esperar os dias passarem, ver a coisa toda ir pelos ares como num daqueles filmes catastrófico de Hollywood que ele viu lá na tela de LCD da fazenda. No fundo ele quer que tudo acabe de uma hora para outra, assim, de repente, como um infarto numa manhã de domingo. Sem escassez d’água, de comida, de energia, sem ver os filhos, parentes e amigos definharem em dor. Apenas a tragédia final.

O cara não deixa de ser um filho-da-puta.

Outra explicação é a de que o sujeito seja uma ameba. Mas, mesmo esta não é uma explicação muito lógica, pois como explicou Francisco de Arruda Machado, da faculdade de biociências de Mato Grosso, durante o congresso de jornalismo ambiental: “Nem uma ameba ele é! Porque no seu microuniverso a ameba é capaz de decidir o que é melhor para a própria sobrevivência”.

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Ser Indignado!

Tenho um pouco de saudade dessa veia paulistana de falar mal dos lugares. Taí uma coisa difícil de tirar do bom paulistano: o mau-humor! Não é aquele mal-humor folclórico, de faces carrancudas e gestos brutos. É mais uma casmurrice típica, inerente, contumaz. O paulistano é praticamente um gourmet do mau humor. Ele aprecia a ruindade das coisas pra exaltar o melhor. Tenho um amigo que quando dirige um forasteiro pela capital faz questão de apontar os pontos turísticos dizendo: “ta vendo aquela estátua do Borba Gato , ali? Pois então, foi escolhida a mais feia da cidade pela Folha de São Paulo”. “Olha esse templo da Universal, foi eleita a obra mais tosca do ano pela revista de arquitetura”. Agora diga: em qual lugar do Brasil você encontra eleição para obra mais tosca? Só em São Paulo!

O paulistano tem orgulho do seu faro apurado para coisa ruim. As criticas são sempre muito mais pesadas do que os elogios, o que transforma a esculhembação numa ode ao intolerável. Um paulistano típico anda pelas ruas da cidade com orgulho de xingar os 200 quilômetros de congestionamento e se enche de brios com a força que tem de esbravejar contra as enchentes, a miséria a desigualdade. O paulistano é antes de tudo um ser indignado!

Não existe prazer mais secreto de um paulistano do que detonar o prefeito. Não importa partido, sexo, cor, nacionalidade, quem estiver na cadeira, vai ouvir. E a arte da indignação paulistana é cheia de retórica. Geralmente numa padaria, buteco, farmácia, é possível ver um ser indignado, com fala ríspida, gesticulando, com as mãos na cabeça como se a coisa não tivesse mais jeito. “É um filho da puta esse prefeito”.

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Memento

Aprendizado

Tinha dificuldade de aprender certas coisas. Menino novo, época de descoberta, muita coisa nova, cabecinha a mil por hora. Horas em relógio de ponteiro, por exemplo, era uma delas, saber a diferença de esquerda e direita, outra. Mas o que lhe deixava verdadeiramente em apuros naquela tarde de um dia perdido da década de 80 era não ter aprendido de uma vez por todas qual que era masculino e qual que era feminino. Sabia ler há pouco tempo, e, além do mais, ou era homí ou era mulhé, ou era macho ou era fêmea, esse negócio de masculino e feminino era palavra demais pras mesma coisa. Coçou a cabeça. Seria mais fácil se tivesse aqueles desenhinhos como tinha na maioria das vezes.

Tomou coragem e entrou. Cruzou a primeira parede de azulejo e viu uma morena de costas, nua, com a pele molhada segurando uma toalha branca. Ela virou com os seios descobertos, bicos grandes em auréola roxas. Subiu a toalha branca assustada, e ele, atônito, com o sangue fluindo diferente nas veias, finalmente aprendeu o significado da palavra feminino.

O suborno

Ela tinha aquele brilho curioso no olhar quando entregou o saco de doces para o irmãozinho. Ele, um tanto desconfiado, colocou no bolso e pensou um pouco. Não estava certo se devia contar.

– Conta, você prometeu.

De fato, promessa é dívida. Já estava com os doces, agora tinha que contar. Não tinha culpa se sabia mais que ela. Essas meninas nunca sabem de nada. Era algo tão normal, como ela podia ainda não saber. Logo ela que brincava tanto de boneca, fingia que era mamãe, como não podia saber como eram feitos os bebês?

– Conta logo…

– Tá bom.

Não foi uma descrição muito demorada, na verdade foi bem breve, mas que com a ajuda de algumas mímicas e gestos manuais acabou por ser um primor de elucides. No final levantou o dedo e disse:

– Se você contar pra mamãe que foi que te contei eu vou te bater…

E saiu correndo, abrindo o saco de doces e jogando uma jujubinha na boca. “Se você contar pra mamãe que foi eu quem te contou vou te bater”, gritou mais uma vez de longe. Ela, ainda parada no mesmo lugar, sem respirar direito e com a pele vermelha, só conseguiu dizer:

– Urgth , que nojo …

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Alguém da organização teve essa ideia de trocar dinheiro de verdade por “dálias”. No começo achei que eram dessas fichinhas que você compra e troca por cerveja, mas não, era dinheiro, dinheiro corrente mesmo. Você ia no caixa, ou casa de câmbio, e trocava seus 30, 50 ou 60 reais por fichinhas de papelão de 10, 5, ou 2 dálias. Tinha até o 50 dáliacents. O câmbio era o mesmo do real, o que facilitava um bocado.

Foi na virada do ano 2009, 2010, no festival Psicodália, em Santa Catarina. Uma tentativa de resgatar o velho e bom espírito rock`n roll. O lugar era fantástico, uma fazenda em Rio Negrinho, perto da divisa com o Paraná. O esquema era uma espécie de empreendimento turístico temático. Tão temático e direcionado que você não encontra em panfletos da CVC ou em anúncios de revistas especializadas, afinal, maluco que é maluco não vê anúncio, ouve falar. E foi de ouvir falar que cai lá no festival e me vi ali, naquela casa de câmbio, trocando meu dinheiro por “dálias”.

No fundo é uma tentativa de driblar o capitalismo, fazer a galera se desligar dessa coisa de grana, real, economia – pra ter uma ideia, nem celular pegava no lugar, o que no fundo deve ter sido cuidadosamente pensado. Enfim, foi uma tentativa. Não diria frustrada, mas uma tentativa. É que o capitalismo é foda, ele acaba englobando tudo, é que nem aquele filme “A coisa”, que as pessoas comem e o troço cresce se esparramando. Não tem jeito, evento é evento! Pra começar você paga 100 reais para participar, eles te dão uma pulserinha e só entra quem paga. Não é nenhuma putaria histórica como o Woodstock ou uma sociedade alternativa à la Serguei. Mas é uma tentativa. E tentativas são sempre válidas.

Uma vez lá dentro e com as devidas dálias em mãos, o sujeito pode começar a consumir cerveja, comida, suvenires. O preço é honesto: duas dálias por uma Antarctica, três por um x-burguer e quatro por um quarto de pizza. E o que é melhor: preço redondo! O simples fato de passar o ano novo em um lugar com os preços assim já é um golpe no sistema capitalista, um indicativo de progresso. Nada de 2,95 ou 3,80. Não! no máximo cinqüenta centavos pra quebrar uma coisinha ou outra, mas a maioria: preço redondo! Justamente como o mundo deveria ser! Sem enganações subliminares.

No começo me intrigava saber como os organizadores conseguiam manter um preço honesto nos produtos em uma fazenda distante em Rio Negrinho, interior de Santa Catarina. Eles devem ter comprado uma caralhada de cerveja, pizza e pão, colocado tudo em caminhões e levado pra lá. Se pensarmos que tem ainda a mão-de-obra dando duro em pleno réveillon, fica difícil imaginar como vender tão barato. Mas logo descobrimos que a política de manutenção de preços envolvia o pagamento de imposto na hora de escoar a mercadoria consumida. Em outras palavras: na hora de cagar.

Os banheiros eram péssimos, o que, de alguma maneira, deve ter sido pensado pelo departamento financeiro e de marketing juntos. Nada de dinheiro, celular e privadas limpas. O espírito é usar o mato, gente! E nada de gastar com faxineiras, é melhor usar essa grana para subsidiar os alimentos.

Economicamente pensando o tributo também facilitou na manutenção da oferta de comida, controlando a demanda. Sim, pois nos primeiros dias os preços baixos geraram uma corrida pelo consumo irracional. É normal, as pessoas compram mesmo, especialmente se estiverem vindo de grandes centros urbanos, como São Paulo. Quando que você vai achar um x-calabresa por três reais na paulicéia desvairada? “Então me vê logo três que é o que eu to acostumado a pagar!”

O estoque do Dog Dylan, o hambúrguer mais procurado pelos lariquentos de plantão, sofreu um duro golpe e teve que trocar a carne de hambúrguer por ovo frito. Os consumidores não gostaram muito, mas a política de manutenção de preços continuou. Em uma reunião de emergência eles devem ter optado por essa ousada estratégia.

A situação dos banheiros ficou calamitosa. Todo o estoque do Dog Dylan estava lá, exposta, esparramada. Quando um companheiro tinha que cumprir com as necessidades fisiológicas era como se tivesse sido pego na malha fina do imposto de renda. Batia um desespero e a comoção era geral: “vá lá amigo, força, vai dar certo”.

Claro que medidas extremas levam a reações radicais. Um sujeito cansado do alto valor tributário resolveu se manifestar e cagou dentro do chuveiro. Do lado de fora uma fila de gaúchos com a toalhinha debaixo do braço protestava indignada: “Bá, mas que filho da puta!”. “Sem comentários”. “Que consideração um cara desse tem pelo festival?”. “Bá, se eu pego, dou uma surra de pau”. Pelo tanto de reações negativas deu pra perceber que o ato de desobediência civil não foi muito bem vindo dentro do contexto do festival. As pessoas aceitaram ter dificuldade para cagar. E isso também pode significar um duro golpe no sistema. O simples fato de refletir sobre os próprios dejetos talvez já seja um golpe no sistema capitalista. No próximo festival eles deveriam ir além e prover dessas privadas ecológicas. Todo mundo cagaria no mesmo lugar e depois, em um evento coletivo, a bosta seria apresentada, pesada e transformada em adubo para canabis satiris.

Mas o festival foi legal. No fundo deu pra sentir uma leve mudança. Talvez no geral a coisa ainda esteja engatinhando, mas há certa boa vontade no pessoal que estava lá. E boa vontade é essencial, mesmo que o pensamento ainda esteja um tanto perdido. Por exemplo, ví uma garota indignada recolhendo latinhas de cerveja do chão e gritando discursinhos ambientais moralistas e vazios; uma prova de que o pensamento ecológico muitas vezes ainda está estagnado no “não jogue lixo no chão”. Tenho um amigo em Cuiabá que quer começar a campanha: jogue seu lixo na rua. É disso que o mundo precisa! Chega de privadas que levam a bosta embora facilmente, chega de coleta de lixo que só escondem o problema. A gente precisa se confrontar com nossos próprios dejetos e refletir no tanto que consumimos. O problema não está nas latinhas no chão, está na hora de comprá-las, está na opção de não investir em retornáveis, está no ímpeto de fabricá-las.

Mas como disse, o que importa é a boa vontade. Boa vontade de fazer um festival, de curtir um som com a galera, de tentar mudar, de refletir. No reveillon deste ano senti que o ano começou cheio de boa vontade. Agora a gente só tem que aprender o que fazer com ela.

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Após entrevistarmos o delegado da Delegacia de Roubo e Furto de Veículos, fomos até a cela onde estavam presos os membros da quadrilha. Franck, o cinegrafista; Wanderson, o auxiliar; Malu, a repórter e eu, fotógrafo do site, mal conseguíamos conter a curiosidade: Queríamos ver a jovem de 25 anos que era usada como isca para seduzir e depois roubar velhos senhores de posses de Cuiabá.

– Vira a cara PORRA! Na hora de roubar é muito macho, né! – gritou o investigador batendo na grade com um cassetete. O jovem líder da quadrilha até mostrou o rosto, mas as lentes das câmeras não tinham muito interesse nele, apenas na jovem que ajeitava o cabelo e tentava parecer bela.

O delegado já havia nos alertado para os baixos dotes físicos da “sedutora” alguns minutos antes: “É foda, se for pra aprontar podia ser pelo menos com alguma coisa que preste. Tá na cara que é bandida! Ô bichinha judiada!”. Malu a repórter, não gostou do comentário, mas o delegado não deu importância e continuou a falar olhando para a ala masculina da equipe. “Eu até podia dizer o nome da vítima, mas isso ia acabar com o casamento dele. A gente não quer uma coisa dessas, né?”. Câmera e microfone ligados, ele se ajeitou na cadeira: “Os meliantes foram presos em Várzea Grande. Trata-se de uma quadrilha perigosa, que já era investigada há muito tempo por nós” – Sempre que a polícia prende uma quadrilha a versão oficial é de que eles já “eram investigados há muito tempo”. Na maioria das vezes é balela.

– Faz uma pose sensual – disse para a jovem. Ela sorriu e ajeitou o cabelo.

– Sensual? – repetiu entre o brava e o lisonjeada.

Fazê-la sensual era uma tarefa difícil. A jovem era como um cão sarnento. A pele, judiada pela droga, pulsava em manchas brancas, o rosto, talhado pelo sofrimento, era reto e duro. Tentei descontrair um pouco para ver se ajudava: “Então você que é a sedutora de rapazes?”. O sorriso e a fala revelaram parte da verdade: “Falar até papagaio fala”, disse no melhor linguajar malandrístico. “Quero ver é provar!”.

Clicava a moça na esperança de obter uma foto minimamente digna. Talvez os olhos, sim, os olhos poderiam dizer alguma coisa. Se conseguisse capturar toda a essência sedutora da jovem. Queria imprimir em uma imagem toda a magia que fez o senhor de 70 anos se entregar. Se ela tinha algo que enfeitiçou aquele senhor, queria que os leitores descobrissem, olhassem para a foto e entendessem. Só mais tarde, quando o editor olhou a foto e perguntou: “Cara, isso é homem ou mulher?”, descobri que falhei na missão.

No carro, a caminho da redação, tentávamos entender o que leva um homem de posses a se envolver com uma jovem daquele tipo: “Com a grana que ele tem, podia ir na Cristal e pegar a menina mais bonita”, argumentou Franck, o cinegrafista, citando um famoso e caro puteiro de Cuiabá. “É um safado, pilantra, tinha mesmo é que se dar mal. Foi bem feito!”, disse Malu, a repórter.

Já na redação a história correu como rastilho de pólvora. Todo mundo queria dar pitaco: “ô velho é safado”. “Que burro!”. “Com a grana dele podia pegar coisa melhor”. A matéria foi uma das mais acessadas do site no dia. Por algum estranho motivo as pessoas gostam de ver histórias como essa. Dá ibope! A cena da redação deve ter se repetido em milhares de outras salas e departamentos de Mato Grosso, todo mundo querendo entender porquê um homem de tanto dinheiro foi se envolver com uma bandida sarnenta se podia pegar coisa muito melhor na “Cristal”.

Eu, já acho que o caso é mais uma prova de que dinheiro não é tudo nessa vida. O velho até poderia conseguir peitinho mais durinhos e pele mais sedosa na Cristal, mas e toda a emoção de estar sendo “amado” e “desejado” novamente? Talvez ele já tivesse se frustrado na compra do seu Citroen C4 Pallas, no fundo não era bem aquela satisfação que procurava. Também não queria mais transar com prostitutas que só pensavam no seu dinheiro. Queria sentir o frescor da juventude novamente. Queria sentir-se selvagem. E essa era a essência da foto que eu não consegui capturar… Essa era a essência da sedutora!

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A memória humana costuma se subdividir em períodos históricos. Já tivemos o feudalismo, o iluminismo, o modernismo, o pós-modernismo e agora vivemos o pré-apocalipse. Não que eu creia e propague essa besteira de 2012 e calendário Maia; abstrações desse tipo só confundem ainda mais o entendimento da realidade. Na verdade, nem acredito em apocalipse e nem que o mundo vá, de fato, acabar. Quando digo que vivemos o período pré-apocalipse quero dizer que esse é nosso espírito, nosso zeitgeist, nossa motivação.

Independente se você é do time do Nostradamus ou da Pollyanna, o fim do mundo é o que nos move. Todo o pensamento humano contemporâneo é voltado para um possível fim ou recomeço da humanidade como um todo. Tudo bem que essa história de fim de mundo é antiga, já se discutia isso lá nos porões da Bretanha medieval, mas a paixão e desdém que envolve o tema hoje em dia é deveras peculiar. O apocalipse nos fascina e nos entedia. É uma espécie de voyeurismo obtuso, onde nos deliciamos em telas de LCD sem saber se o que vemos é Hollywood ou o Jornal Nacional.

Enquanto o assunto deveria despertar pânico em tempos idos, hoje em dia a gente literalmente caga pra ele. “É o fim do mundo”, dizemos enquanto imagens de alagamento passam na TV. Mas e daí? No fundo a gente se acostumou com esse fim. Somos como um senhor velho com um câncer diagnosticado. Somos um José Alencar da vida. Um sujeito que segue vivendo, sorrindo pra morte, crente de que de uma hora pra outra pode bater as botas.

Nossa doença já foi diagnosticada. Aquecimento global! Os que negam são apenas parte da nossa própria negação, já os ambientalistas são apenas parte daquela consciência dizendo que somos velhos o bastante para continuar fumando e enchendo a cara. O fato é: a doença existe! Pela primeira vez na história da humanidade temos de lidar com a nossa própria: possível morte em espécie. Durante séculos especulou-se e filosofou-se sobre o apocalipse e nós temos o bizarro privilégio de ser a primeira geração a talvez presenciar o começo dele. “É o fim do mundo”, repetimos como um mantra em nossas salas de estar com ar-condicionado vendo cenas de São Luis do Paraitinga alagada pulsando em HDTV.

E é por isso que até acharem outro nome melhor eu continuo a chamar nossa época de Pré-apocalipse. Onde igrejas desabam, a terra aquece, a chuva alaga, os morros deslizam e o Big Brother Brasil se prepara para bater novo recorde de audiência…

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