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Archive for the ‘Notícias do Mato’ Category

“É perda de tempo tentar entender o momento em que se vive”, falam os filósofos. A história deve ser analisada em perspectiva, dizem os doutores. Mas quando não parece haver muitas perspectivas futuras, analisar o presente é um dever de todos nós. Pare e pense: o que significa essa época de crise ambiental? Por que chegamos nesse ponto e por que tanta gente se recusa a admitir? Será que esses anos todos de mercado, economia, conforto, bens, serviços nos anestesiou os sentidos. A realidade paira em outra dimensão, longe, em florestas, rios e mares sem câmeras de segurança?

Na última sexta-feira a senadora Marina Silva deu uma palestra aqui em Cuiabá durante o congresso de jornalismo ambiental. Com um discurso afiado, lógico, coerente, ela faz tudo parecer simples. Existe um problema, o mundo já diagnosticou esse problema, sabe da sua existência e pretende unir forças para superá-lo. Pelo menos uma boa parte das pessoas. O que parece ilógico nessa história toda é que tem gente que quer continuar batendo carteira no salão de festas do Titanic. Pra gastar aonde é que eu não sei.

Atualmente, aqui em Cuiabá, a Assembleia Legislativa modificou o estudo de zoneamento do estado. Era um estudo de mais de 20 anos, que consumiu cerca de 30 milhões de reais dos cofres públicos. Os deputados fizeram uma primeira tentativa de estragar o troço no ano passado, colocaram o resultado do estudo técnico para consulta popular, foram em 15 municípios, consumiram um bocado de grana e apresentaram uma contra proposta muito parecida com a primeira. Ficou ok, disseram os ambientalistas. O medo inicial era de que tudo viesse por água abaixo, mas a população entendeu o problema. A maioria das reservas legais e terras indígenas permaneceram iguais Ponto pra sociedade. Mas deputado que é deputado não representa a sociedade, representa financiador de campanha. Uma nova proposta surgiu do nada para substituir o estudo original, o temido substitutivo 2, que acaba com cerca de 60% das reservas legais, tira 15 terras indígenas em processo de homologação, permite plantar cana perto de nascentes e foi feito em TRÊS meses.

Talvez existam duas explicações lógicas para isso. A primeira é a de que o sujeito acha que tá tudo fudido mesmo e que foda-se o mundo, vou desmatar mais esse trecho aqui, aquele lá, plantar mais um bocado aqui e continuar gastando a grana em putas e whisky. Talvez o indivíduo já esteja tão descrente, mas tão descrente de qualquer coisa que só queira esperar os dias passarem, ver a coisa toda ir pelos ares como num daqueles filmes catastrófico de Hollywood que ele viu lá na tela de LCD da fazenda. No fundo ele quer que tudo acabe de uma hora para outra, assim, de repente, como um infarto numa manhã de domingo. Sem escassez d’água, de comida, de energia, sem ver os filhos, parentes e amigos definharem em dor. Apenas a tragédia final.

O cara não deixa de ser um filho-da-puta.

Outra explicação é a de que o sujeito seja uma ameba. Mas, mesmo esta não é uma explicação muito lógica, pois como explicou Francisco de Arruda Machado, da faculdade de biociências de Mato Grosso, durante o congresso de jornalismo ambiental: “Nem uma ameba ele é! Porque no seu microuniverso a ameba é capaz de decidir o que é melhor para a própria sobrevivência”.

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Após entrevistarmos o delegado da Delegacia de Roubo e Furto de Veículos, fomos até a cela onde estavam presos os membros da quadrilha. Franck, o cinegrafista; Wanderson, o auxiliar; Malu, a repórter e eu, fotógrafo do site, mal conseguíamos conter a curiosidade: Queríamos ver a jovem de 25 anos que era usada como isca para seduzir e depois roubar velhos senhores de posses de Cuiabá.

– Vira a cara PORRA! Na hora de roubar é muito macho, né! – gritou o investigador batendo na grade com um cassetete. O jovem líder da quadrilha até mostrou o rosto, mas as lentes das câmeras não tinham muito interesse nele, apenas na jovem que ajeitava o cabelo e tentava parecer bela.

O delegado já havia nos alertado para os baixos dotes físicos da “sedutora” alguns minutos antes: “É foda, se for pra aprontar podia ser pelo menos com alguma coisa que preste. Tá na cara que é bandida! Ô bichinha judiada!”. Malu a repórter, não gostou do comentário, mas o delegado não deu importância e continuou a falar olhando para a ala masculina da equipe. “Eu até podia dizer o nome da vítima, mas isso ia acabar com o casamento dele. A gente não quer uma coisa dessas, né?”. Câmera e microfone ligados, ele se ajeitou na cadeira: “Os meliantes foram presos em Várzea Grande. Trata-se de uma quadrilha perigosa, que já era investigada há muito tempo por nós” – Sempre que a polícia prende uma quadrilha a versão oficial é de que eles já “eram investigados há muito tempo”. Na maioria das vezes é balela.

– Faz uma pose sensual – disse para a jovem. Ela sorriu e ajeitou o cabelo.

– Sensual? – repetiu entre o brava e o lisonjeada.

Fazê-la sensual era uma tarefa difícil. A jovem era como um cão sarnento. A pele, judiada pela droga, pulsava em manchas brancas, o rosto, talhado pelo sofrimento, era reto e duro. Tentei descontrair um pouco para ver se ajudava: “Então você que é a sedutora de rapazes?”. O sorriso e a fala revelaram parte da verdade: “Falar até papagaio fala”, disse no melhor linguajar malandrístico. “Quero ver é provar!”.

Clicava a moça na esperança de obter uma foto minimamente digna. Talvez os olhos, sim, os olhos poderiam dizer alguma coisa. Se conseguisse capturar toda a essência sedutora da jovem. Queria imprimir em uma imagem toda a magia que fez o senhor de 70 anos se entregar. Se ela tinha algo que enfeitiçou aquele senhor, queria que os leitores descobrissem, olhassem para a foto e entendessem. Só mais tarde, quando o editor olhou a foto e perguntou: “Cara, isso é homem ou mulher?”, descobri que falhei na missão.

No carro, a caminho da redação, tentávamos entender o que leva um homem de posses a se envolver com uma jovem daquele tipo: “Com a grana que ele tem, podia ir na Cristal e pegar a menina mais bonita”, argumentou Franck, o cinegrafista, citando um famoso e caro puteiro de Cuiabá. “É um safado, pilantra, tinha mesmo é que se dar mal. Foi bem feito!”, disse Malu, a repórter.

Já na redação a história correu como rastilho de pólvora. Todo mundo queria dar pitaco: “ô velho é safado”. “Que burro!”. “Com a grana dele podia pegar coisa melhor”. A matéria foi uma das mais acessadas do site no dia. Por algum estranho motivo as pessoas gostam de ver histórias como essa. Dá ibope! A cena da redação deve ter se repetido em milhares de outras salas e departamentos de Mato Grosso, todo mundo querendo entender porquê um homem de tanto dinheiro foi se envolver com uma bandida sarnenta se podia pegar coisa muito melhor na “Cristal”.

Eu, já acho que o caso é mais uma prova de que dinheiro não é tudo nessa vida. O velho até poderia conseguir peitinho mais durinhos e pele mais sedosa na Cristal, mas e toda a emoção de estar sendo “amado” e “desejado” novamente? Talvez ele já tivesse se frustrado na compra do seu Citroen C4 Pallas, no fundo não era bem aquela satisfação que procurava. Também não queria mais transar com prostitutas que só pensavam no seu dinheiro. Queria sentir o frescor da juventude novamente. Queria sentir-se selvagem. E essa era a essência da foto que eu não consegui capturar… Essa era a essência da sedutora!

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E eis que me encontro em uma mesa de jurados para um concurso de beleza. O tal Miss Peladão. Não entenda mal, caro leitor. Não se trata de peladões, propriamente dito. Miss Peladão foi o nome encontrado pelo prefeito para homenagear as musas dos times locais da pelada oficial promovida pelo município. Logo, peladão é referente apenas a pelada futebolística. Eram mulheres, e estavam vestidas. Ou parcialmente vestidas.

Não sei bem como fui cair ali. A Dorian, editora de esportes que me arrumou essa. Ligou no meu ramal e disse: “você foi convocado para ser jurado do miss peladão”. É aí que está a armadilha. “Convocado”. Ela usou bem a palavra. Ser convocado para alguma coisa é gratificante. Você imagina chegando um convite em seu nome, requerendo a sua presença. Balela. Provavelmente o pessoal da organização ligou na redação e disse: “temos umavagas para jurado, manda alguém”, e ela ligou pro primeiro ramal que veio na mente. E eu atendi o telefone. “Você foi convocado”.

Não sou afeito a concursos de beleza. Sou até meio contra. Afinal, pra que servem concursos de beleza? Umas mulheres desfilando de maiô, empinando o bumbum, e um bando de jurados bobos dando nota para a “simpatia” ou “carisma” das candidatas. Além do mais, o que você faz com um título de Miss Peladão? Claro, tem a grana, sete mil reais saídos diretamente dos cofres públicos, mas fora isso, qual o prazer de chegar e dizer: “oi, eu sou a Miss Peladão 2009”. É tão sem sentido quanto dizer: “Oi, eu sou a ganhadora da sétima edição do BBB”. É pura perda de tempo! A não ser para os sujeitos que comem as misses peladões e as ex-BBBs. Ah, esses podem tirar onda. Nos meus tenros 20 anos fiquei com a garota mais linda que jamais um mortal do meu porte poderia almejar. Obviamente que ela rapidamente se deu conta da besteira que estava fazendo, mas, no entanto, bem mais tarde, quando provavelmente já tinha me esquecido, ela concorreu para ser miss brasileirão pelo São Paulo F.C. Não sei o que ela ia ganhar com isso, mas eu, sem dúvida, ganhei mais respeito dos meus amigos. Se ela ganhasse eu viraria lenda na turma: o cara que comeu a miss brasileirão no passado. Mas ela perdeu. E eu voltei a ser aquele sujeito que nunca vai traçar uma ex-BBB, capa de playboy ou miss qualquer coisa.

Mas enfim. Meu nome foi anunciado para compor a mesa de jurados. Sentei ao lado de uma arquiteta gostosa, loira, com anéis, correntes de ouro e um sorriso artificialmente branco e vazio. Do outro lado um sujeito estranho, que colocava as notas no papel e escondia com a mão, com medo de alguém pudesse conferir o que estava escrevendo. Era uma pastinha com a lista dos nomes das candidatas e três quadradinhos ao lado: um para a simpatia de biquíni; outro para a simpatia de vestido e o último para a soma de ambas simpatias. Tivesse aquele sujeito ao meu lado escrito normalmente, sem frescuras ou preocupação, acho que não ligaria. A arquiteta do outro lado deixou a lista com as notas à mostra o tempo todo e não lembro de ter espiado nenhuma vez. Mas daquele sujeito mascarado, que escrevia e logo em seguida colocava a mão para ocultar, ah… as notas dele eu precisava ver. Gastei boa parte da minha atenção espiando seus movimentos, o que restava eu concentrava nas bundas… ou melhor, na simpatia, das candidatas. Fiquei um tanto indignado dele ter dado 8 para a mais “simpática”.

No fim ganhou a que queria. Uma negra de grande porte e sorriso cândido. Dei 10 para ela em todas as categorias. Votei mais pela atitude étnica do que pela “simpatia” propriamente dita; a maioria das candidatas negras tinham o cabelo alisado, mas ela não. Conservava cachos portentosos, selvagens e negros. Era, sem dúvida, a beleza natural mais atraente por detrás das toneladas de maquiagem obrigatórias. De bunda não era tanto, mas como sinal dos novos tempo achei por dever exercer um voto político e não bundístico. Ana Paula Suribi, era seu nome. Beleza pura. Confesso que fiquei feliz dela ter ganhado. Sinais dos novos tempos, em que, se deus quiser, cachos orgulhosos surgirão para derrubar a ditadura dos alisamentos. Pena que esse caminho tenha que ser percorrido através de “concursos de beleza”.

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Meu fado é de não entender quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.

Manoel de Barros

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Uma mangueira é uma coisa cara. Não é qualquer um que pode ter uma mangueira. Um empresário com uma cobertura nos Jardins não pode ter uma mangueira. Se ele realmente quiser vai ter que investir: Reforma, adubo, tempo, atenção, cuidado e, mesmo assim, corre o risco de não dar certo. Ter uma mangueira que dê manga todo ano é coisa chique, pra lá de chique! Sim, pois a não ser que o tal empresário da cobertura esteja disposto a transformar sua piscina em um vazo gigante de terra e plantar uma mangueira enorme, ele nunca vai poder ter uma dessas. É muito mais barato pra ele investir em bens menores como uma esteira ergométrica ou numa TV de plasma nova.

Aqui na rua de casa existem várias mangueiras. E de graça. Têm também pé de acerola e de caju. Tudo for free! Mas o fato é que ser “de grátis” não torna a mangueira menos cara. Sim, pois mesmo de graça o tal empresário não pode pagar pra curtir uma sombrinha no meio-dia agitado da metrópole. O camarada pode almoçar no restaurante mais caro de São Paulo, mas o luxo de sentar numa cadeira de tira depois do almoço sob a sombra de uma mangueira ao lado de um rio, ah, é um luxo caro demais até para o Bill Gates.

É por isso que acho que sou um desses sujeitos que caminha a passos largos para a riqueza. Primeiro que não trabalho loucamente. Às vezes, durante à tarde, vou até o parque passear; recolho umas acerolas no caminho e vou mascando vitamina C. Leio o jornal à tarde, assisto o pôr do sol todos santo dia e tomo um suco de graviola. Quando chove dá pra passear no calor úmido, pegar uns cajus, sentar a toa no meio fio. Às vezes, dependendo da disposição, dá pra ir nadar no rio.

Mato Grosso é um estado de gente muito rica. Como uma senhora que conheci em Diamantino. Ela acordava cedo, passava um café, arrumava o casebre e ia pra rua curtir um cigarrinho de palha. Embaixo de uma mangueira, sentava em uma cadeira de tiras e esperava o tempo passar soltando fumaça. Eu, recém chegado da pobreza, jornalista foca de um semanário perdido no médio norte, admirava com bons olhos essa rotina. Era, sem dúvida, a senhora mais rica que conheci na vida.

Quanto você pagaria por uma sombrinha e umas mangas?

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Dizem que o editor do Jornal Hoje mora numa cobertura no Morombi. Me parece que o editor do Jornal Nacional é vizinho dele. Ouvi dizer que o do Bom Dia Brasil tem uma cobertura no Leblon e o do Jornal da Globo uma nos jardins. Quatro dos sujeitos mais poderosos do jornalismo da Rede Globo moram assim: em torres luxuosas há alguns quilômetros da realidade da população brasileira. No calar da noite, o quarteto deve vislumbrar as maiores e mais importantes cidades do Brasil de cima, com milhões de luzinhas acesas, imaginando os televisores ligados e a influência que exercem sobre essas infinitas cabecinhas. (mais…)

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Claro que a primeira imobiliária seria a tal MT Imóveis. No momento em que essa parte da narrativa se passa, já tinha alugado um apartamento em um outro ponto da cidade há meses. Mas o gostinho da vingança ainda permanecia alí, escondido em algum canto. Na entrada percebi que trocaram a recepcionista. Lá dentro a corretora também era outra, mas reparei nos cantos que a cúpula permanecia: o gerente, o chefão da salinha de vidro e o gordão; provavelmente com a mesma camisa, palitando os dentes. (mais…)

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