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Archive for the ‘Cotidiano’ Category

Ser Indignado!

Tenho um pouco de saudade dessa veia paulistana de falar mal dos lugares. Taí uma coisa difícil de tirar do bom paulistano: o mau-humor! Não é aquele mal-humor folclórico, de faces carrancudas e gestos brutos. É mais uma casmurrice típica, inerente, contumaz. O paulistano é praticamente um gourmet do mau humor. Ele aprecia a ruindade das coisas pra exaltar o melhor. Tenho um amigo que quando dirige um forasteiro pela capital faz questão de apontar os pontos turísticos dizendo: “ta vendo aquela estátua do Borba Gato , ali? Pois então, foi escolhida a mais feia da cidade pela Folha de São Paulo”. “Olha esse templo da Universal, foi eleita a obra mais tosca do ano pela revista de arquitetura”. Agora diga: em qual lugar do Brasil você encontra eleição para obra mais tosca? Só em São Paulo!

O paulistano tem orgulho do seu faro apurado para coisa ruim. As criticas são sempre muito mais pesadas do que os elogios, o que transforma a esculhembação numa ode ao intolerável. Um paulistano típico anda pelas ruas da cidade com orgulho de xingar os 200 quilômetros de congestionamento e se enche de brios com a força que tem de esbravejar contra as enchentes, a miséria a desigualdade. O paulistano é antes de tudo um ser indignado!

Não existe prazer mais secreto de um paulistano do que detonar o prefeito. Não importa partido, sexo, cor, nacionalidade, quem estiver na cadeira, vai ouvir. E a arte da indignação paulistana é cheia de retórica. Geralmente numa padaria, buteco, farmácia, é possível ver um ser indignado, com fala ríspida, gesticulando, com as mãos na cabeça como se a coisa não tivesse mais jeito. “É um filho da puta esse prefeito”.

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Após entrevistarmos o delegado da Delegacia de Roubo e Furto de Veículos, fomos até a cela onde estavam presos os membros da quadrilha. Franck, o cinegrafista; Wanderson, o auxiliar; Malu, a repórter e eu, fotógrafo do site, mal conseguíamos conter a curiosidade: Queríamos ver a jovem de 25 anos que era usada como isca para seduzir e depois roubar velhos senhores de posses de Cuiabá.

– Vira a cara PORRA! Na hora de roubar é muito macho, né! – gritou o investigador batendo na grade com um cassetete. O jovem líder da quadrilha até mostrou o rosto, mas as lentes das câmeras não tinham muito interesse nele, apenas na jovem que ajeitava o cabelo e tentava parecer bela.

O delegado já havia nos alertado para os baixos dotes físicos da “sedutora” alguns minutos antes: “É foda, se for pra aprontar podia ser pelo menos com alguma coisa que preste. Tá na cara que é bandida! Ô bichinha judiada!”. Malu a repórter, não gostou do comentário, mas o delegado não deu importância e continuou a falar olhando para a ala masculina da equipe. “Eu até podia dizer o nome da vítima, mas isso ia acabar com o casamento dele. A gente não quer uma coisa dessas, né?”. Câmera e microfone ligados, ele se ajeitou na cadeira: “Os meliantes foram presos em Várzea Grande. Trata-se de uma quadrilha perigosa, que já era investigada há muito tempo por nós” – Sempre que a polícia prende uma quadrilha a versão oficial é de que eles já “eram investigados há muito tempo”. Na maioria das vezes é balela.

– Faz uma pose sensual – disse para a jovem. Ela sorriu e ajeitou o cabelo.

– Sensual? – repetiu entre o brava e o lisonjeada.

Fazê-la sensual era uma tarefa difícil. A jovem era como um cão sarnento. A pele, judiada pela droga, pulsava em manchas brancas, o rosto, talhado pelo sofrimento, era reto e duro. Tentei descontrair um pouco para ver se ajudava: “Então você que é a sedutora de rapazes?”. O sorriso e a fala revelaram parte da verdade: “Falar até papagaio fala”, disse no melhor linguajar malandrístico. “Quero ver é provar!”.

Clicava a moça na esperança de obter uma foto minimamente digna. Talvez os olhos, sim, os olhos poderiam dizer alguma coisa. Se conseguisse capturar toda a essência sedutora da jovem. Queria imprimir em uma imagem toda a magia que fez o senhor de 70 anos se entregar. Se ela tinha algo que enfeitiçou aquele senhor, queria que os leitores descobrissem, olhassem para a foto e entendessem. Só mais tarde, quando o editor olhou a foto e perguntou: “Cara, isso é homem ou mulher?”, descobri que falhei na missão.

No carro, a caminho da redação, tentávamos entender o que leva um homem de posses a se envolver com uma jovem daquele tipo: “Com a grana que ele tem, podia ir na Cristal e pegar a menina mais bonita”, argumentou Franck, o cinegrafista, citando um famoso e caro puteiro de Cuiabá. “É um safado, pilantra, tinha mesmo é que se dar mal. Foi bem feito!”, disse Malu, a repórter.

Já na redação a história correu como rastilho de pólvora. Todo mundo queria dar pitaco: “ô velho é safado”. “Que burro!”. “Com a grana dele podia pegar coisa melhor”. A matéria foi uma das mais acessadas do site no dia. Por algum estranho motivo as pessoas gostam de ver histórias como essa. Dá ibope! A cena da redação deve ter se repetido em milhares de outras salas e departamentos de Mato Grosso, todo mundo querendo entender porquê um homem de tanto dinheiro foi se envolver com uma bandida sarnenta se podia pegar coisa muito melhor na “Cristal”.

Eu, já acho que o caso é mais uma prova de que dinheiro não é tudo nessa vida. O velho até poderia conseguir peitinho mais durinhos e pele mais sedosa na Cristal, mas e toda a emoção de estar sendo “amado” e “desejado” novamente? Talvez ele já tivesse se frustrado na compra do seu Citroen C4 Pallas, no fundo não era bem aquela satisfação que procurava. Também não queria mais transar com prostitutas que só pensavam no seu dinheiro. Queria sentir o frescor da juventude novamente. Queria sentir-se selvagem. E essa era a essência da foto que eu não consegui capturar… Essa era a essência da sedutora!

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A memória humana costuma se subdividir em períodos históricos. Já tivemos o feudalismo, o iluminismo, o modernismo, o pós-modernismo e agora vivemos o pré-apocalipse. Não que eu creia e propague essa besteira de 2012 e calendário Maia; abstrações desse tipo só confundem ainda mais o entendimento da realidade. Na verdade, nem acredito em apocalipse e nem que o mundo vá, de fato, acabar. Quando digo que vivemos o período pré-apocalipse quero dizer que esse é nosso espírito, nosso zeitgeist, nossa motivação.

Independente se você é do time do Nostradamus ou da Pollyanna, o fim do mundo é o que nos move. Todo o pensamento humano contemporâneo é voltado para um possível fim ou recomeço da humanidade como um todo. Tudo bem que essa história de fim de mundo é antiga, já se discutia isso lá nos porões da Bretanha medieval, mas a paixão e desdém que envolve o tema hoje em dia é deveras peculiar. O apocalipse nos fascina e nos entedia. É uma espécie de voyeurismo obtuso, onde nos deliciamos em telas de LCD sem saber se o que vemos é Hollywood ou o Jornal Nacional.

Enquanto o assunto deveria despertar pânico em tempos idos, hoje em dia a gente literalmente caga pra ele. “É o fim do mundo”, dizemos enquanto imagens de alagamento passam na TV. Mas e daí? No fundo a gente se acostumou com esse fim. Somos como um senhor velho com um câncer diagnosticado. Somos um José Alencar da vida. Um sujeito que segue vivendo, sorrindo pra morte, crente de que de uma hora pra outra pode bater as botas.

Nossa doença já foi diagnosticada. Aquecimento global! Os que negam são apenas parte da nossa própria negação, já os ambientalistas são apenas parte daquela consciência dizendo que somos velhos o bastante para continuar fumando e enchendo a cara. O fato é: a doença existe! Pela primeira vez na história da humanidade temos de lidar com a nossa própria: possível morte em espécie. Durante séculos especulou-se e filosofou-se sobre o apocalipse e nós temos o bizarro privilégio de ser a primeira geração a talvez presenciar o começo dele. “É o fim do mundo”, repetimos como um mantra em nossas salas de estar com ar-condicionado vendo cenas de São Luis do Paraitinga alagada pulsando em HDTV.

E é por isso que até acharem outro nome melhor eu continuo a chamar nossa época de Pré-apocalipse. Onde igrejas desabam, a terra aquece, a chuva alaga, os morros deslizam e o Big Brother Brasil se prepara para bater novo recorde de audiência…

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E eis que me encontro em uma mesa de jurados para um concurso de beleza. O tal Miss Peladão. Não entenda mal, caro leitor. Não se trata de peladões, propriamente dito. Miss Peladão foi o nome encontrado pelo prefeito para homenagear as musas dos times locais da pelada oficial promovida pelo município. Logo, peladão é referente apenas a pelada futebolística. Eram mulheres, e estavam vestidas. Ou parcialmente vestidas.

Não sei bem como fui cair ali. A Dorian, editora de esportes que me arrumou essa. Ligou no meu ramal e disse: “você foi convocado para ser jurado do miss peladão”. É aí que está a armadilha. “Convocado”. Ela usou bem a palavra. Ser convocado para alguma coisa é gratificante. Você imagina chegando um convite em seu nome, requerendo a sua presença. Balela. Provavelmente o pessoal da organização ligou na redação e disse: “temos umavagas para jurado, manda alguém”, e ela ligou pro primeiro ramal que veio na mente. E eu atendi o telefone. “Você foi convocado”.

Não sou afeito a concursos de beleza. Sou até meio contra. Afinal, pra que servem concursos de beleza? Umas mulheres desfilando de maiô, empinando o bumbum, e um bando de jurados bobos dando nota para a “simpatia” ou “carisma” das candidatas. Além do mais, o que você faz com um título de Miss Peladão? Claro, tem a grana, sete mil reais saídos diretamente dos cofres públicos, mas fora isso, qual o prazer de chegar e dizer: “oi, eu sou a Miss Peladão 2009”. É tão sem sentido quanto dizer: “Oi, eu sou a ganhadora da sétima edição do BBB”. É pura perda de tempo! A não ser para os sujeitos que comem as misses peladões e as ex-BBBs. Ah, esses podem tirar onda. Nos meus tenros 20 anos fiquei com a garota mais linda que jamais um mortal do meu porte poderia almejar. Obviamente que ela rapidamente se deu conta da besteira que estava fazendo, mas, no entanto, bem mais tarde, quando provavelmente já tinha me esquecido, ela concorreu para ser miss brasileirão pelo São Paulo F.C. Não sei o que ela ia ganhar com isso, mas eu, sem dúvida, ganhei mais respeito dos meus amigos. Se ela ganhasse eu viraria lenda na turma: o cara que comeu a miss brasileirão no passado. Mas ela perdeu. E eu voltei a ser aquele sujeito que nunca vai traçar uma ex-BBB, capa de playboy ou miss qualquer coisa.

Mas enfim. Meu nome foi anunciado para compor a mesa de jurados. Sentei ao lado de uma arquiteta gostosa, loira, com anéis, correntes de ouro e um sorriso artificialmente branco e vazio. Do outro lado um sujeito estranho, que colocava as notas no papel e escondia com a mão, com medo de alguém pudesse conferir o que estava escrevendo. Era uma pastinha com a lista dos nomes das candidatas e três quadradinhos ao lado: um para a simpatia de biquíni; outro para a simpatia de vestido e o último para a soma de ambas simpatias. Tivesse aquele sujeito ao meu lado escrito normalmente, sem frescuras ou preocupação, acho que não ligaria. A arquiteta do outro lado deixou a lista com as notas à mostra o tempo todo e não lembro de ter espiado nenhuma vez. Mas daquele sujeito mascarado, que escrevia e logo em seguida colocava a mão para ocultar, ah… as notas dele eu precisava ver. Gastei boa parte da minha atenção espiando seus movimentos, o que restava eu concentrava nas bundas… ou melhor, na simpatia, das candidatas. Fiquei um tanto indignado dele ter dado 8 para a mais “simpática”.

No fim ganhou a que queria. Uma negra de grande porte e sorriso cândido. Dei 10 para ela em todas as categorias. Votei mais pela atitude étnica do que pela “simpatia” propriamente dita; a maioria das candidatas negras tinham o cabelo alisado, mas ela não. Conservava cachos portentosos, selvagens e negros. Era, sem dúvida, a beleza natural mais atraente por detrás das toneladas de maquiagem obrigatórias. De bunda não era tanto, mas como sinal dos novos tempo achei por dever exercer um voto político e não bundístico. Ana Paula Suribi, era seu nome. Beleza pura. Confesso que fiquei feliz dela ter ganhado. Sinais dos novos tempos, em que, se deus quiser, cachos orgulhosos surgirão para derrubar a ditadura dos alisamentos. Pena que esse caminho tenha que ser percorrido através de “concursos de beleza”.

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Uma mangueira é uma coisa cara. Não é qualquer um que pode ter uma mangueira. Um empresário com uma cobertura nos Jardins não pode ter uma mangueira. Se ele realmente quiser vai ter que investir: Reforma, adubo, tempo, atenção, cuidado e, mesmo assim, corre o risco de não dar certo. Ter uma mangueira que dê manga todo ano é coisa chique, pra lá de chique! Sim, pois a não ser que o tal empresário da cobertura esteja disposto a transformar sua piscina em um vazo gigante de terra e plantar uma mangueira enorme, ele nunca vai poder ter uma dessas. É muito mais barato pra ele investir em bens menores como uma esteira ergométrica ou numa TV de plasma nova.

Aqui na rua de casa existem várias mangueiras. E de graça. Têm também pé de acerola e de caju. Tudo for free! Mas o fato é que ser “de grátis” não torna a mangueira menos cara. Sim, pois mesmo de graça o tal empresário não pode pagar pra curtir uma sombrinha no meio-dia agitado da metrópole. O camarada pode almoçar no restaurante mais caro de São Paulo, mas o luxo de sentar numa cadeira de tira depois do almoço sob a sombra de uma mangueira ao lado de um rio, ah, é um luxo caro demais até para o Bill Gates.

É por isso que acho que sou um desses sujeitos que caminha a passos largos para a riqueza. Primeiro que não trabalho loucamente. Às vezes, durante à tarde, vou até o parque passear; recolho umas acerolas no caminho e vou mascando vitamina C. Leio o jornal à tarde, assisto o pôr do sol todos santo dia e tomo um suco de graviola. Quando chove dá pra passear no calor úmido, pegar uns cajus, sentar a toa no meio fio. Às vezes, dependendo da disposição, dá pra ir nadar no rio.

Mato Grosso é um estado de gente muito rica. Como uma senhora que conheci em Diamantino. Ela acordava cedo, passava um café, arrumava o casebre e ia pra rua curtir um cigarrinho de palha. Embaixo de uma mangueira, sentava em uma cadeira de tiras e esperava o tempo passar soltando fumaça. Eu, recém chegado da pobreza, jornalista foca de um semanário perdido no médio norte, admirava com bons olhos essa rotina. Era, sem dúvida, a senhora mais rica que conheci na vida.

Quanto você pagaria por uma sombrinha e umas mangas?

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ADAPTAÇÃO

O calor de Cuiabá é lendário. Acho que não existe nada parecido no mundo. Você não pode simplesmente: dar uma andadinha por aí. É um lugar de clima extremo. Deve ser como morar na Sibéria, você não sai de casa sem antes colocar um capote, luvas, gorro, botas. Aqui, sair com sol a pino requer a mesma preparação prévia: óculos escuros, filtro solar, chapéu.

Mas a verdade é que com o tempo você se adapta. Claro, a não ser que você seja como aquelas flores silvestres inadaptáveis que morrem a uma diferença de temperatura de dois graus – até existem algumas delas por aqui, mas todas vivem em estufas de ar condicionado, sem derreter e fundir as células do corpo no solzinho de 40 graus. Mas é como digo: adaptação é fundamental.

Pretendo viver sem ar-condicionado por um bom tempo. Não só por questões financeiras e ambientais, mas por adaptação mesmo. Todas as noites frito na cama rolando de um lado para o outro expelindo suor, girando como um frango em assadeira de padaria, sendo cozinhado por um pequeno ventilador que funciona mais como ventoinha do que como refresco. Mas o que me consola é que em algum lugar minhas células lutam bravamente para manterem-se vivas. E isso é adaptação!

Às vezes é difícil. A água que saí do encanamento já vem quente  (um sujeito que vai ganhar um bom dinheiro em Cuiabá é o que inventar um chuveiro elétrico que resfrie água encanada).  Mas com o tempo você descobre que existem vários níveis de calor. Dizem que na Groelândia eles têm mais de 300 palavras pra definir o branco por causa da neve, se eu tivesse tempo e disposição criava o mesmo tanto para definir níveis de calor. Você aprende a identificar temperaturas, sabe que acender o fogão vai te fazer sofrer, que colocar uma toalha molhada em cima do ventilador ameniza, que passar de bike em frente ao parque refresca, que o asfalto é quase carvão em brasa e que o valor de uma árvore não tem preço.

Adaptação

Adaptação

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Este texto foi escrito em 06/06/2007 e nunca havia sido publicado anteriormente.

Existem muitas figuras carimbadas aqui na região do Médio Norte de MT. Algumas são do bem, outras são do mal, tem a irmã Terezinha, o tenente Taborelly, o prefeito Chico Mendes, os irmãos Guaraná, Márcio Mendes, Bilú o prefeito, Terno o fotógrafo, enfim, são inúmeros. Já tinha pensado em registrar algumas delas, mas o fato é que não quero ficar novamente refém da escrita como aconteceu em minha última viagem à Nova Zelândia; confesso que esse é um vício que me consome e me atrapalha um pouco. No entanto, existe um sujeito que acabou de sair aqui da redação, e, juro, se não contar sua história agora acho que vou ter espasmos epiléticos.

Tudo começou com uma afta na língua. Ela surgiu na véspera da viagem e me acompanhou desde então. No avião, no ônibus, nos primeiros dias de trabalho, nas primeiras semanas, o tempo passava e a merda da afta não fechava. Nessa época o telefone tocou e do outro lado quem falava era um famacêutico. Disse que queria que um repórter fosse entrevistá-lo. “Qual é o assunto”, perguntei com cuidado de não bater a língua nos dentes. “Te digo quando chegar”. Achei meio suspeito, mas contei pra Marcio Mendes, o dono do jornal: “vai lá, é aqui perto”. Tudo é perto em Diamantino. Mas, peguei a caneta, o gravador e sai sob o escaldante sol mato-grossense. Terno, o fotógrafo, veio junto.

Ao chegar, molhado de suor, me deparo com um homem idoso, de camisa branca aberta mostrando uma barriguinha saliente, ao lado de um ventilador e com as mãos sobre o balcão a mirar sob pesados óculos de grau. Ele não nos viu. “Olá, é o senhor que é o seu Braga?”. “Sim, sou eu, que bom que vieram”, disse já reconhecendo que eramos da imprensa. “Por favor, me acompanhem”, disse indicando uma porta aos fundos.

As farmácias do interior nada têm a ver com as Mega Stores decoradas em neon, lotadas de cremes, shampoos, camisinhas e modes que vemos nos grandes centros urbanos. Farmácias dos rincões são lugares ermos, com cheiro de álcool, misturado com acetona, mais iodo e éter e que dão até um certo barato. A reunião secreta seria na salinhas de aplicar injeção, com três cadeiras de madeira e um cavalete para apoiar o braço. Seu Braga ligou um ventiladorzinho que rangeu um pouco antes de pegar o ritmo. Por fim se aconchegou na cadeira, cruzou as pernas e começou a falar:

– Veja bem, eu chamei vocês do jornal pra dizer que eu tenho intenções de ser o próximo prefeito da cidade de Diamantino. Pode escrever ai nesse bloquinho que eu estou dizendo isso.

Fiquei parado com a caneta em riste tentando entender do que se tratava aquilo. Olhei para Terno que mastigava um chiclete e mantinha sua cara de paisagem sob seus óculos escuros.  Resolvi ligar o gravador.

– Parai, deixa eu entender. O senhor nos chamou aqui para dizer que quer concorrer nas próximas eleições municipais?

– Exatamente, vou entrar para a política!

Respirei fundo, apertei a caneta e comecei a escrever:

– Oook!! Então vamos lá… deixa eu ver… por onde começar…bom…qual é o seu plano de governo, seu Braga?

– Não tenho plano!

– Não tem plano?

– Não.

– E qual o partido do senhor, seu Braga?

– Esse é um ponto importante, é uma ótima pergunta meu jovem… Não tenho partido também! Por enquanto! Mas espero que depois dessa matéria no jornal algum partido possa me fazer um convite.

– Então o senhor não tem partido?

– Não!

– Mas o senhor segue alguma linha ideológica?

(Ele ficou meio desconcertado com a pergunta)

– D-desculpa, pode repetir?

– Se o senhor, seu Braga, tem alguma linha ideológica?

– Olha meu amigo, eu não te entendo.

– Se o senhor acredita em alguma vertente política, tem algum ideal, possui um pensamento filosófico… ou… (eu estava só piorando as coisas ele me olhava cada vez mais com cara de interrogação)… na verdade minha pergunta, seu Braga, é: o que motiva o senhor a entrar para o política?

– Ótima pergunta meu amigo! Eu te digo que depois de muitos anos vivendo nessa cidade chegou a hora de eu dar algo em troca. O que me move a ser prefeito é que eu amo aos pobres e despossuídos, amo de coração os pobres.

– O senhor ama os pobres?

– Amo!

– O senhor crê que está preparado para assumir uma prefeitura?

– É ai que eu te pergunto… O que é estar preparado? Estes que estão aí estão preparados?

– Quais são as principais virtudes do senhor, Seu Braga?

– Posso dizer que se for eleito serei um sujeito honesto, sem corrupção, sem picaretagem!

Saímos da salinha e caminhamos em direção a rua. Na porta seu Braga continuava insistindo na seqüência de perguntas que começou no exato segundo em que desliguei o gravador: “Acha que falei bem? hein, como me sai? Como vai ser a matéria?”. Não tinha muito que dizer, apenas baixei a cabeça e disse: “Foi bem seu Braga, fez certinho”.

Terno tirou algumas fotos, mas as imagens ficaram ruins demais. Não sei da onde tirei essa idéia de fazer campanha pro Terno virar fotógrafo do jornal, ele é ruim demais! Sempre que vamos a algum evento ou fazer entrevistas acabo fazendo as fotos eu mesmo. Mas o garoto tem potencial, deve estar aprendendo. Gosto dele e de imaginar que um dia, se Deus quiser, vai conseguir sacar uma foto sem cortar metade da cabeça do entrevistado.

Peguei a câmera da mão do Terno. “Ok, seu Braga, faz uma pose aí de vencedor”…

fash!

"Pose de vencedor, seu Braga!"

"Pose de vencedor, seu Braga!"

Só quando estava no meio do caminho que lembrei da dor na língua, a maldita afta. Resolvi acabar de uma vez por todas com aquela situação, voltei à farmácia e perguntei a seu Braga o que era bom para afta. “Usa isso aqui que passa”, ele me estendeu uma caixinha com pedra ume. Saquei a carteira pra pagar e ele empurrou o dinheiro de volta: “não, não, não se preocupa com isso”. De minha parte insisti veementemente dizendo que não podia aceitar, mas ele empurrava com mais veemência: “não, não, não” e sorria fazendo um gesto para eu ir. Por alguns segundos pensei em jogar aquela caixinha na cara dele e gritar: “Ta pensando o que seu filho-da-puta, que vai me comprar com uma porra de remédio?” e sair chutando o estabelecimento para mostrar indignação. Mas não dá pra fazer esse tipo de coisa na vida real.

…peguei a caixinha e voltei para a redação.

A entrevista não rendeu muito, na verdade não renderia nada seu eu não tivesse ficado olhando para aquela caixinha de “pedra ume” sob o computador. Perguntei pro Márcio Mendes, o dono do jornal , o que eu devia fazer com aquela entrevista?”. “Esquece isso! Muito fraco”. “Não dá pra jogar nem no site?”. “Ta bom, joga no site”. Na verdade tinha gostado da foto, achei que daria uma matéria divertida, mas aquela merdinha de pedra ume em cima do monitor me deixava nervoso. Talvez fosse melhor nem publicar nada e mostrar pro farmacêutico que eu era incorruptível. Mais alguns dias se passaram, e minha afta passou. Lembrava esporadicamente do seu Braga, geralmente quando passava em frente a sua farmácia ou quando alguém citava algum nome para concorrer à prefeitura da cidade. A matéria no site não teve muita repercussão, ninguém comentou muito, o assunto morreu. Até que um dia seu Braga veio para a redação conversar com o chefe.

No final da tarde daquele dia Márcio chega pra mim e diz: “Lembra da matéria do seu Braga?”. “lembro sim, que que tem?”. “Então, dá uma aumentada nela que a gente vai publicar no impresso”. Na hora saquei que o incorruptível Braga tinha corrompido o mais-que-corruptível jornal. Apenas olhei para Márcio e ele disse o que sempre dizia: “É ué, aqui funciona assim! Já te disse isso milhões de vezes!”.

Nessa hora você lembra das conversas de bar na faculdade, da época em que você era um idealista de merda, que acreditava no bom jornalismo, na dignidade da profissão. Aí se vê trabalhando num jornal que cobra 400 reais por matéria… então esse era o preço da notícia? Quatrocentos reais?! Sentado em frente ao computador abri o jornal bem na página com a matéria, numa perspectiva mais ao fundo, a caixinha da pedra ume em cima do monitor… então era esse o meu preço!

No fundo senti até um certo orgulho… não é qualquer recém formado que se vende por uma porrinha de Pedra Ume!!!!!!

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