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Archive for the ‘Novela – Um ano sabático’ Category

A gente usava o mesmo uniforme idiota, camisa azul com logomarca em letras garrafais: BLOCKBUSTER. Fazia frio, daqueles de gelar a espinha. Através do vidro dava pra ver Viviam passar as caixinhas de fitas de um cliente no leitor optico. “Bip”; o cérebro disparava sozinho o barulinho. “Mais alguma coisa, senhor?”, dava pra ler nos seus lábios.

Lá fora eu e Leandro limpávamos os vidros da loja. Eu passava o rodo de esponja e ele vinha a seguir com o de borracha.

– Mas ainda não entendi direito qual é a história desse filme.

Eu tentava explicar o roteiro de um filme que eu e meu amigo Zé tínhamos começado a escrever quando estávamos no colegial. O título era: “Raposas Miseráveis”. Tínhamos trabalhado um bocado naquele projeto. O roteiro, apesar de simples, deu um puta trabalho. Chegamos até mesmo a matar aula algumas vezes para terminar. O Zé alegava pra sua mãe que era muito melhor ele se dedicar às artes cinematográficas do que aprender matemática. Dona Lourdes, que sempre acreditou no filho e nas escolhas que ele fazia, deixava a gente usar o porão. Ficávamos lá jogando vídeo-game até ela chamar pro almoço.

– Mas é isso que eu te falei, tem esse cara e essa mina, e o português, dono desse bar no meio do mato.

– Sim, mas e o que eles querem com ela afinal?

Como se tratava de um roteirno inacabado eu ainda não sabia a resposta. Na verdade não sabia respostas para um monte de coisas. Só tinha montado essa introdução de um filme de suspense. Um cara que viajava num escort velho para num bar no meio de uma estrada, lá tem dois caras, eles trocam tiros, ele mata os dois e pergunta sobre a garota para o dono do bar, um português. Meio que acabava aí, apesar de mais algumas idéias de cenas pro meio e final do filme.

– Mas por que o nome Raposas Miseráveis?

– Porque eles são umas raposas!

– E por que são raposas?

– Porque são espertos!

– E por que você fala “eles”, não é só um cara?

– Não, são dois.

– Você disse que era um cara. Um cara que chega num escort velho e mata dois que estavam no bar.

– Então… esses dois que são os raposas.

– E por que são espertos? Por que dar o nome de um filme pra dois caras que morrem logo no começo? E o português, o que ele faz na história?

O roteiro deveras era fraco. Mas eu tinha esperança que na medida que fosse sendo feito o filme a história viria naturalmente. Na minha cabeça era só começar a filmar. Eu já tinha um sujeito perfeito pra interpretar o português. Tinha também os dois sujeitos que iriam trocar tiros e morrer no bar. O Zé, meu amigo, co-escritor do roteiro, ia ser o sujeito que procura pela moça, o personagem principal. Já a moça era uma menina da sala… uma que o Zé tava pegando. A gente não precisava de roteiro, estava tudo acertado, iamos usar uma câmera de um amigo e a estrada ficava no sítio do tio do Zé, no interior, a gente só precisava acabar com as lacunas do roteiro e combinar a filmagem com o dono do bar… até o carro, um escort velho, eu já tinha arrumado emprestado.

– Não tem sentido. Esses dois caras, o que eles estavam fazendo no bar, o cara chega matando ou eles discutem antes?

– Olha, o roteiro não tá pronto, ok? Eu estou pensando nessas coisas. Só quero saber o que você acha?

– O que eu acho do que? Não tem nada pra achar?

– Do título, o que achou do título?

– É, o título tá legal.

Esta foi a época na qual tinha certeza que um dia seria diretor de cinema. Não costumava jogar na loteria, mas, se existia uma certeza na minha vida, era a de que se eu ganhasse alguns milhões eu investiria tudo na produção de um filme. No Raposas Miseráveis! Durante as aulas de matemática eu ficava pensando nos créditos iniciais do filme. Faria algo a là Tarantino, com uma trilha doida e meu nome aparecendo bem na hora que a música explode. “Direção:” e meu nome bem grande embaixo.

Assistia todo dia um filme diferente. Podia levar uma fitas pra casa. Na minha folga dava pra pegar até três; eu levava e ainda ia no cinema à tarde. Era viciado em filmes, garimpava coisas antigas tipo Welles, Bergman, Felini, Ed Wood. Costumava pegar lançamentos só para reclamar. Só pra dizer que o roteiro era uma bosta, o diretor um incompetente e os atores todos uns ridículos. Dormia sonhando com os créditos iniciais do filme e com aquela cadeira de cineasta.

– Ok, mas eaí? Por que o filme não deu certo?

– O cara não quis emprestar a câmera.

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As aulas de árabe serviram apenas para engrossar meu complexo de sísifo. Mas dessa vez tinha um bom motivo, uma nobre razão. Sim, eu iria me dedicar exclusivamente ao vestibular. Debruçaria-me com vontade sobre aulas de física, química, matemática e mergulharia a mente na literatura. Coloquei a cafeteira para funcionar, abri os livros, sentei na poltrona do meu pai e comecei.

Parei vinte minutos depois. Não estava dando certo! Precisava procurar outro lugar. Fui até a biblioteca da Vergueiro, sinônimo de estudante vestibulando. Eles estavam sempre lá, saiam dos inúmeros cursinhos das redondezas e confluíam com seus uniformes para os bancos e cadeiras da biblioteca. Japoneses e suas calculadoras, maconheiros e seus cabelos, ninfetas e seus seios brotantes. Sempre frequentei o Centro Cultural e sempre tive vontade de fazer parte dessa nobre classe de estudantes aplicados.

Mas, logo desisti. Não era muito estimulante ver aqueles jovens rabiscarem contas infinitas nos cadernos. Era melhor estudar em casa, sozinho com minha ignorância. Além do mais, quem precisa de biblioteca quando se tem banda larga?

De Certa maneira o Telecurso 2000 é interessante. O conteúdo é meio chato, como toda aula, mas as interpretações até que são legais. Descobri por acaso, no youtube, quando procurava alguma coisa sobre retículo endoplasmático rugoso. Percebi que dava pra fazer o curso todo por alí, sem sair de casa e nem gastar um puto. E tem todas matérias lá disponível: física, quimica, biologia, matemática. Aquele ator com cara de bobo, que fazia o Castelo Ratim-bum, protagonista dos vídeos, o sujeito não é nada menos que fantástico. Ele fica o tempo todo se perguntando: será isso, será aquilo, o que é uma mitocôndria, o que acontece se eu misturar coca-cola com mentos? É interessante, acho que nunca haviam me ensinado a questionar; e aqueles vídeos, aparentemente bobos, me despertaram uma série desses “questionamentos”. A principio eram mais na linha: “por que diabos eles falam assim, por que me tratam como retardado, será que eu sou tão imbecil?” Mas depois os questionamentos ficam mais elevados: “Quem será que banca essa porcaria, qual tipo de idiota perde tempo assistindo isso, será que eu to aprendendo ou ficando mais burro?”

Estudar no youtube é uma das maravilhas modernas. Você encontra de tudo lá. É só digitar: “sabinada” e eis que um jovem moreno com sotaque baiano te explica tudo, tranquilooo, sem pressa. Imagine se cada professor do Brasil tivesse um canal no youtube? Ia abacar a escola. Todos lá, fornecendo conteúdo de graça, o tempo todo, de suas casas. O problema é que a rede tem muito lixo. Dá um trabalho danado peregrinar nessa internet aloprada. Sim, pois a maioria dos conteúdos são trabalhos de estudantes sem noção do colegial com um péssimo gosto musical. Eles fazem qualquer porcaria no moviemaker, colocam uma trilha sonora e jogam na rede. Já encontrei Canudos ao som de Britney Spears e Descobrimento do Brasil ao som de Leandro e Leonardo. Não estou certo ainda sobre os limites da internet, mas alguém deveria fiscalizar essas coisas.

Mesmo assim, decidi que estava no caminho certo. Livros são objetos do século passado. Estudante hoje em dia aprende é no youtube.

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Café. Mais café. A cafeteira não parava de funcionar. Era um tentativa frustrada de dar um tapa nos neurônios, fazer funcionar no tranco. Mas, nada. O pauzinho do word piscava na minha frente. Ensaiava alguma coisa. Escrevia uma frase…“<= Backspace”.

Mais café.

O cachorro me olhava. Às vezes trazia uma bolinha de tênis na boca. Atirava em algum canto e ouvia ele arranhar o piso correndo atrás. Se ao menos o cão pudesse ler alguma coisa, se ao menos pudesse me dar uma opinião, se pudesse conversar. Dizem que cães são ótimos para enfrentar a solidão. Ficava me olhando, mexendo o rabo e apontava a bolinha com o focinho. Pegava do chão. E lá ia ele de novo correr atrás.

Por que eu não conseguia escrever? O que estava acontecendo? Era a bagunça, sim, a bagunça. Eu precisava de bagunça. Aquela casa era organizada demais pra mim. Tentava deixar o lugar com minha cara durante o dia: louça suja, cama desarrumada, roupas espalhadas, mas lá pelas quatro ou cinco da tarde já tinha que começar a arrumar de novo. Não, nunca conheci ninguém tão organizado como meu pai. Ele chegava fazendo uma inspeção, olhava a pia, a sala, o banheiro, qualquer coisa fora do lugar e ele resmungava em algum canto da casa: “mas que bagunça, que bagunça!”, enchia a boca, dando ênfase no gu: BaGUnça. Acho que a palavra que mais ouvi ele dizer na vida foi bagunça. Bagunça, bagunça. Não, nunca conheci ninguém com pavor tão grande de bagunça. A ciência deveria criar uma categoria, tipo bagunçofobia, pra explicar.

O único espaço que tinha para exercer um pouco da arte da desordem era um armário na sala. Não era bem um armário, era mais uma espécie de cômoda, com uma porta, uma prateleira e um lugar pra pendurar cabides. Como não tinha muitas roupas “penduráveis”, jogava tudo na prateleira de baixo. Era um monte aleatório de tecidos. Gostava de mergulhar o braço lá e puxar uma peça de roupa; e era assim que meu dia começava, com uma escolha aleatória do que iria vestir. Achar um par de meias era praticamente uma pesca esportiva.

Nunca dobrei uma camisa, ao menos não nesse estilo tradicional de dobrar. Enrolava de maneira que não ficasse muito esgarçada e jogava lá dentro. Nunca entendi esse negócio sistemático de “dobrar”, com as manguinhas pra dentro, tudo igualzinho, em pilhas. Perda de tempo! Por mais amassada que esteja sua camiseta bastam dez minutos com ela no corpo para ficar mais ou menos assentada.

Meias e cuecas em gavetas distintas, organizadas por tons. Camisetas cuidadosamente dobradas e separadas em pilhas de cores e tipo de tecido; sapatos alinhados no armário em pares, separados em categoria social e esporte. Meu pai tinha também uma sessão só com kits de roupas de ginástica e outra especial para viagens, tudo devidamente dobrado, separado e compartimentado. Tudo no seu devido lugar, quadros bem alinhados, enfeites bem colocados. Aquário limpo, cachorro cheiroso, livros em ordem, pastas, fichários, gavetas temáticas. A moça da limpeza ia duas vezes por semana, mas não tinha muito trabalho. Talvez meu pai seja o maior conservador da lei e da ordem desse planeta. Matava o tempo à noite organizando fichas, pastas, livros, revistas. Gostava também de lavar roupa, pendurar, passar umas camisas. Apreciava cozinhar, mas mais do que isso gostava de lavar a louça depois e colocar tudo no lugar. Lavava, secava e guardava. Graças a Deus ele nunca serviu o exército. Fico imaginando que se tivesse pisado num quartel uma unica vez na vida estaria então vivendo com um desses generais cinco estrelas aposentados. Era como se ele tivesse nascido para isso: para a disciplina. Mas a vida tratou de moldá-lo diferente. Pra começar nasceu no Brasil, viajou, separou, faliu, amou, fugiu, lutou, trabalhou… o destino bagunçou um pouco o general e então ele virou um simpático vendedor, bom de papo, de riso fácil, cuja batalha diária passou a lhe rende mais amigos do que inimigos. Isso, é claro, se não bagunçassem sua casa. “Que baGunça, que bagunça!!”

Mais café. Tinha vontade de fumar um cigarro. Não deveria fumar cigarros. Todo mundo dizia para não fumar. Faz mal, dá câncer, ataque cardíaco, entope as veias, deixa broxa. Só um idiota fumaria cigarros com tanta gente dizendo pra não fazer. Dei um trago, tomei mais um gole de café.

O grande mal desse mundo é a ansiedade.

O cachorro me olhava com a bolinha na boca…

Mais um dia com a página em branco.

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A publicidade se apossou de tudo. Vivaldi, por exemplo, morreu sem receber um centavo pelos milhões de sabonetes que sua opera vendeu. Gorbachev derrubou a União Soviética e hoje aparece em anúncio de marca de grife da américa capitalista. John Lenon, morto, faz figuração em propaganda de carro e Cheguevara continua vendendo mais camisetas que a C&A, Riachuelo e todas lojas de departamentos juntas. Isso fora quando não usam Jesus Cristo ou Buda.

Eles compraram o futebol no atacado. Estamparam o rabo do juiz com logotipos e deram um troco pro Ronaldinho levantar o dedinho na hora do gol: “é a número um, brasil-sil-sil”. Eles se apoderaram da espontaneidade dos nossos comportamentos. “Deixe sua energia mudar o mundo”, diz a propaganda de refrigerante. Aí eles colocam um vídeo de um sujeito fazendo um ritmo com a latinha no metrô e todo mundo sendo “contaminado” pela energia. Coisa que até poderia acontecer na vida real, mas essa “energia”, esse momento mágico, essa confluência divina, não passaria de mais um reforço publicitário. Mudar o mundo. Que grande bobagem. A publicidade se apoderou até dos nossos antigos anseios juvenis, aquele ímpeto setentista hippie de “mudar o mundo”. Quem hoje em dia quer mudar o mundo quando uma porcaria de refrigerante diz pra você fazer isso? Eles nos roubaram a espontaneidade e querem nos vender de volta…

Se o pessoal do hip-hop tá reclamando demais, incitando a desordem. Vamos fazer vídeo-clipes milionários, dar carros potentes, mulheres gostosas, cordões de ouro, assim a gente mantem mais gente nessa rodinha de hamster. Tá vendo, se os negões podem, você também pode. É só se dedicar, acreditar, comprar, consumir. E assim a piramide continua e as vendas de uísque importado aumentam.

A nova mania na aurora do fim do mundo é se apoderar dos nossos mais ancestrais medos apocalípticos. Um senhor com cara de sábio anuncia no vídeo: “um dia estranho, o mais estranho dos dias estranhos” e aí ele conta que o sol não apareceu, que todos tiveram que enfrentar o desconhecido e que não foi nada fácil. Enquanto isso, cenas da caminhonete pra cima e pra baixo, trabalhando. No final o narrador diz: “Nova Ford Ranger, pra enfrentar o que você conhece e o que ainda não conhece”.

Outra propaganda mostra um ator de filme de ação dirigindo por ruas vazias. Uma música clássica, uma loira gostosa do lado, bancos de couro, ar-condicionado, tudo funciona maravilhosamente bem até ele parar, abrir a porta e sair do carro. Lá fora é pura bagunça, gente brigando, acidente, sirene, poluição. O valente Jack Bouer então volta rapidamente pro carro, olha pra loira e diz: “It´s fine”. A música volta e o narrador diz: Novo Citroen C4 Pallas, com ele tudo fica diferente…Sim, a publicidade consegue nos vender até mesmo nosso próprio egoísmo.

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Durante o curso de árabe achei que pudesse ter um talento especial para línguas. Na verdade não estava fazendo muito progresso, mas é que às vezes sou desse tipinho que se empolga rapidamente e acredita ter talento pra qualquer coisa que se proponha a fazer, já outras vezes me acho o pior dos seres humanos.

Dois meses se passaram e eu já sabia desenhar todo o alfabeto, por outro lado ainda não tinha ideia de como posicionar a língua corretamente e emitir o som do Alif, a primeira letra do alfabeto; e por consequencia todas as demais. Comecei a achar que no fundo tinha um talento especial para desenhar. Desenhar letras árabes. Era isso que eu deveria fazer na vida, virar desenhista de alfabeto árabe.

Olhava para Omaima, a professora, e desenhava no caderno, ilustrando a suavidade do seu sotaque em linhas musicais arábicas. Era tão doce, tão meiga.

Mas então ela passava para o árabe.

– Máçal kheir, arranhava o ouvido de todo mundo com uma fisionomia horrível, como se fosse outra pessoa. Logo depois emendava docemente: “E esta é como diz a Bom dia”.

Conheci um sujeito que usava um pulôver e óclinhos de intelectual. Costumávamos pegar metrô juntos na saída do curso. O sujeito fazia letras na USP e era um desses tipos raros que você encontra por aí; desses que sabem de tudo. Conheci poucos como ele. Era um baú de informação e não fazia questão de guardar nada para si. Me explicou a prosódia russa, a história do latim, as facilidades do grego, a semiótica de Saussure. O problema de pessoas como aquele rapaz é que raramente encontram um bom ouvinte nesse mundo raso. É verdade que qualquer um que não assista novela, Big Brother ou futebol, goza de certa falta de atenção nesses tempos ignóbeis, mas um cara que consegue discorrer da estação Consolação até o Paraíso sobre as origens eslavas do russo, ahh, certamente essa pessoa vive na mais profunda e sombria solidão.

Devo dizer, eu era um bom ouvinte. Ainda sou. Em fato, sempre fui um bom ouvinte. Na verdade tudo o que aprendi na vida foi ouvindo os outros. Não sou do tipo que lê. Até leio um pouco, leio bastante pra média brasileira, mas aprendi muito mais coisa ouvindo dos outros. No bar, no metrô, no ônibus, as pessoas precisam falar, tem necessidade de falar e não custa nada ouvi-las. Já pensei em ser mais seletivo, ouvir só a quem me interessa, ou quem pode me acrescentar algo. Mas a melhor coisa é deixá-las falar. Sim, pois com apenas uma palavra o bom ouvinte, aquele que presta atenção de verdade, pode mudar radicalmente o curso da proza. “E o corinthians hein?”, pronto, e de repente a conversa sai da seara da política para o futebol. Geralmente o falador é um rio que segue implacável, discorrendo, discorrendo, discorrendo. O ouvinte é apenas o catalizador,  que diz pra onde essa água toda vai.

– Você deveria tentar fazer letras, disse o rapaz segundos antes do apito anunciar o fechamento das portas. Era a minha estação, já estava do lado de fora quando ele disse aquilo. Acenei com a mão em despedida. Ele seguiu viagem.

Outra verdade nos faladores é que eles geralmente se identificam nos ouvintes. Eu por exemplo, não tenho qualquer especial interesse por carros ou motores, mas certa vez me pus a ouvir um sujeito apaixonado por veículos. Ao final da conversa ele me tinha como um grande entendedor e uma vez até me ligou pra perguntar algo.

“Você deveria fazer letras”. Fiquei com aquilo na cabeça. De fato eu já havia pensado em tentar uma segunda faculdade. Todo mundo que se formou em jornalismo pensa em fazer uma segunda faculdade. Além do mais, eu estava me dando bem no árabe; já sabia escrever todo o alfabeto.

Fazia tempo que eu já pensava em uma segunda faculdade. E tinha que ser Letras! Já tinha isso em mente desde de quando conheci Aline, aquela gatinha de letras que gostava do meu blog. Aliás, até mesmo antes dela, quando Ritinha Vitae abandonou o curso de jornalismo e a virgindade para se dedicar às letras e a promiscuidade. Aliás, muito antes disso, quando namorei com Manoella, estudante de letras e dona de um bumbum incrível. Sim, todos os caminhos me levavam à Letras. Todo mundo dizia que era o curso mais fácil de passar. É fácil, dizia Aline. É fácil, dizia Ritinha. É fácil, dizia Manolla. É fácil disse o rapaz de pulôver e óclinhos.

E então, naquele momento, eu aposentei de vez a ideia de ser garçom em Dubai e comecei a pensar no vestibular. Poderia retomar a ideia de ser escritor. Sim, seria um escritor com diploma de escritor. Se fosse um fracasso viveria de dar aulas ou de fazer críticas literárias a outros mais bem sucedidos. Além do mais, que diabos! Um sujeito que fala várias línguas e entende de semiótica não precisa se preocupar com mais nada nesse mundo. Dinheiro, mulher, sucesso, era tudo consequencia. Sim, dali em diante estudaria com afinco para a prova de Letras na Universidade de São Paulo. O curso mais fácil de passar!

Caminhos

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Não parece ter ninguém presente. Os corpos são meros avatares desprovidos de realidade, zanzando com sensações anestesiadas sem saber se o clima está quente ou frio ou se é o ar condicionado do carro (shopping-casa-trabalho) que está desregulado. Vagam anônimos por entre avenidas e ruas da babilônia tentando desesperadamente serem notados. A maior parte da atenção é para sí, em como andam, como vestem, como falam. No mais, são todos sequestradores.

Cada centímetro, cada esquina, cada parede é planejada cuidadosamente para sequestrar um breve segundo dessa falta de atenção. E, devo dizer, eles tentam de tudo. Slogans, logotipo, camisetas, adesivos, banners, telas LCD, bandeiras, bundas, jornais, revistas, etiquetas, preços, números, letras, mamilos, cifras, telefones, www, @s, promouters gostosas, cor, luz, som, ursinho de pelúcia cuidadosamente colocado em frente a vagina em uma foto sensual na revista da banca de jornal. Alguns param, repousam os olhos, vão.

Na rua, buzina e motor. Nas galerias, conversas e ringtones. Tento escapara. Subo pela Padre João Manoel e a Paulista se descortina por entre prédios. Lá está ela, enorme, escura. O sol da manhã tenta achar brecha entre os prédios. Para quem vem de fora parece tudo agitado, mas é um dos momentos mais calmos do dia. Garçons servem tranquilos num café em frente ao metrô, garis conversam mostrando fotos no celular. O dono da banca lê as notícias do dia.

Meio dia, sol a pino, avenida ilustre, grande, iluminada; hora dos imensos cupinzeiros de concreto liberarem trabalhadores famintos que zanzam em busca de comida. O café enche; garçonetes suam entre indas e vindas forçando sorrisos, olham o relógio torcendo pra hora passar. O jornaleiro larga o jornal, os garis desaparecem, a rua é um mar de rostos, todos diferentes, cores, cabelos, roupas. Todo mundo precisa ser diferente, os carros na avenida também; exibem suas marcas, estilos e calotas, parados no tráfego. Todo mundo quer ser diferente mas faz todo dia a mesma coisa.

Todo mundo quer ser livre. Todo mundo quer fazer o que quer. Todo mundo quer ter um cartão de crédito.

A bolha prossegue. Todo dia um pouco diferente. Todo dia um pouco mais. Todo dia um pouco mais rápido. Todo dia um pouco maior. Ploc!

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Ela fumava um cigarro e me olhava com olhos fraternais. Fazia isso sempre. Não que fossem verdadeiros ou falsos, sabia fazia o olhar que quisesse. O problema é que sempre contrastavam com o boca. Lábios carnudos, como um filé de picanha cru, com aquele sorriso irônico, pronto para desferir o mais mortal dos comentários. “Eu acho que você escreve mal. Não é que escreve mal, talvez escreva até bem, mas é que você quer ser beat, e você não é beat de verdade. Você não sabe o que é uma vida beat de verdade”.

A noite havia transcorrido bastante após a cerveja com Jaimovsky e Ritinha Vitae. Estava em algum ponto da Rua Augusta, eu, ela, Bea Tnik, e mais um grupinho de amigos que seguia na frente, incluindo ali seu novo namorado, o benê, um sujeito que não conhecia, mas que não ficava muito confortável ao vê-la bêbada se escorando em mim logo atrás. “Ele é ótimo, sabia. Amo ele, de verdade. Sabia que to namorando dois, thi? Ele e mais um carinha da alemanhã que conheci no facebook… Mas não é esses namorinhos virtuais não, ele já veio pra cá, transamos pra caramba, uns 30 dias sem parar. Nossa thi, o alemão mete bem. Na verdade não é bem alemão, é macedônio, chamo ele de lesmão. Ele vai me levar pra lá, pra europa, em julho. Vou morar com ele. E o mais legal é que o benê sabe disso, nosso namoro tem prazo pra terminar.”

Ela estava mais magra. Bem mais magra do que a última vez que nos vimos. Disse estar com anorexia nervosa; o mais novo item na sua coleção de problemas. Mas o sorriso era o mesmo, sempre irônico, emblemático, como se estivesse escondendo um comentário feroz e devastador. Estava com seus cabelos vermelhos de sempre e uma blusa de frio cobrindo a tatuagem gigante da fênix que tem nas costas. “Você tá gordo. Olha sua postura tá horrível. Qué isso meu, que absurdo, você sempre foi um cara preza, agora virou um jeca? Faz uns exercícios thi. Pára de comer”.

Cruzamos a Luis Coelho e baixamos no BH, ela entrou, pegou duas cervejas da geladeira, aproveitou a movimentação e saiu sem pagar. “Sabe, eu te amo thi. Eu casaria com você, você é a melhor pessoa que já conheci na vida. Mas acho que você não me comeria direito. Gosto de homens que me jogam na cama e transam comigo como se eu fosse uma puta, me arregaçam e depois me tratam como uma princesa, sabe esse tipo? Você não tem muito esse perfil. Sim, eu sei que eu não faço seu tipo também, mas eu te amo, de verdade”. Dizia isso baixinho, com voz sedutora, próximo ao meu ouvido. Logo depois, saia dando risada, falando alto, entrando na conversa de outro grupo.

Descemos a Augusta sentido meretrício. Paramos para comprar mais cerveja, fiz um comentário sobre um ex-namorado dela. Ela riu alto e me deu um tapa na cara. “Como você é besta. Seu filho-da-puta”, disse ainda rindo, meio nervosa. A marca ficou no rosto por algum tempo.

“Desculpa thi. Não estou bem, sabe. Tenho problemas. Estão cada vez piores. To sem grana nenhuma, meus remédios são todos caros. Não é loucurinha tipo coisinha pouca, é loucura mesmo, diagnoticada, problema sério, ando tendo direto sindrome do pânico”

O resto da noite ela tentou ser espontânea, mas não conseguiu mais. Aquele tapa incomodou mais a ela do que a mim. “Porra meu, vai ficar aí de cara só porque te dei um tapa? Desculpa thi, não devia ter feito isso. Você tá certo. Faz quanto tempo que a gente não se fala? Tempo pra caralho né? Também, você fica perdido lá longe. Porque nos abandonou? Volta pra cá? Me perdoa”.

Não tinha muito o que perdoar. No fundo entendia Tnik. Talvez eu não soubesse de verdade o que era ter uma vida beat. Ela perdeu o pai na véspera do natal de 1995, quando tinha 15 anos. Foi assassinado na sua frente no interior. Tudo o que veio depois foi consequência daquele dia. Não que isso tenha qualquer coisa a ver com ser ou não ser beatnik, mas ele encontrou nessa literatura uma espécie de remédio pros traumas. Podíamos ler os mesmos livros, mas nunca leríamos da mesma maneira.

O céu já mudava de cor quando nos despedimos no cruzamrnto com a paulista. “Você devia voltar pra São Paulo. Faz falta aqui, sabia?”. Me abraçou, sorriu e virou as costas andando pela cidade com seu cabelo vermelho fogo. Era pura paisagem paulistana.

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