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Archive for the ‘contos’ Category

Dessa vez tinha ido beber perto da estação Vergueiro, na Aclimação com meu grande amigo Vinícius. Era entremeado de Junho de 2008, período de pré-crise econômica mundial. O mundo ia bem, o país batia recordes de emprego, era uma época em que ninguém esperava perder dinheiro nos fundos da Petrobras nem muito menos ser assaltado em plena Aclimação.

Mas aconteceu. Saí do bar, subi a escadaria, peguei a Apeninos e então dois sujeitos passaram me encarando, um deles voltou, pegou no meu braço e disse soltando fumaça de cigarro na minha cara: “Quieto! anda, tira o celular do bolso e me dá, agora!”. Devo reconhecer, a abordagem paulista é bem mais agressiva.

O sujeito estava até que bem vestido; camisa listrada azul, cabelo penteado, sapato marrom. Era alto; não dava pra reagir. Tirei o celular do bolso e sem dizer nada, entreguei.

Ele olhou, girou, apertou algumas teclas:
– Tem dinheiro aí?

Mais uma vez tinha deixado todos meus fundos soberanos em outro lugar. Dessa vez, no bar. Minha última nota de dez reais amassada e suja:
– Não tenho, acabei de sair do bar, deixei tudo lá.
– Abre a carteira.

Abriu calmamente e outra mosca saiu voando. Zero, necas, liso! Esse sou eu, jornalista, pobre, fudido, sem a dignidade de ser assaltado como um cidadão de bem.
– Toma essa porcaria – disse o meliante empurrando o celular de volta.

Para piorar, mais à frente um homem me esperava, parado, na esquina, dentro de um Peugeot.
Ele abaixou o vidro. Segurava um celular:
– Ei garoto! Eu vi tudo. Aqueles dois sujeitos estavam tentando te assaltar? Eu estou com a polícia aqui agora no telefone. Me diz, o que eles levaram?

Nessa hora não tem muito o que fazer. É abaixar a cabeça e dizer a verdade:
– Não levaram nada não, senhor…
– Tem certeza? Eles não estavam te assaltando?
– Tentaram, só…
– E?
– E eu não tinha nada…

O homem, orgulhoso de seu Peugeot, ciente do seu papel de cidadão, patrulheiro noturno, não entendeu muito bem…
– Nada?
– Não…

silêncio…

– Ao que parece foi só tentativa, mas os dois ladrões devem estar por aqui ainda, se quiserem enviar uma viatura pra pegar eles…

E levantou o vidro e saiu enquanto falava com a polícia…
…sem nem se despedir!

Continua…

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O tal celular recusado pelo meliante cuiabano tem mais de cinco anos. É um Nokia velhinho, mas que funciona até que bem. Se for pensar, cinco anos não é muito tempo. Não deveria ser o bastante para trocar de celular. Você não fica trocando sua geladeira de três em três meses, nem seu forno microondas, ou o fogão. Como diabos conseguiram colocar na nossa cabeça que temos que trocar de celulare todo natal, ano novo, pascoa, dia das mães, dos pais, da secretária, Iemanjá…?

Isso é coisa das operadoras e fabricantes de aparelhos, que te fazem crer que trocando seu Nokia, Sansung, LG, Shing Ling periodicamente, você vai pegar muito, mas muito mais, mulher! Sim, porque trocar de aparelho é algo sexy, vital, rotineiro, quase um item da higiene pessoal humana. Tome banho, escove os dentes três vezes ao dia, passe fio dental e troque de celular a cada dois meses, pois se não fizer isso você é um hippie sujo dos anos 70 e nunca vai pegar aquela gostosa que trabalha com você e tem um aparelho com ring tone da Bioncé

Bom, eu tomo banho todos os dias, escovo os dentes também, mas não estou a fim de adquirir um celular novo a cada lançamento. Até porque, li uma matéria certa vez que fala sobre a contaminação do solo por conta das baterias dos aparelhos, parece que são uns trinta metros quadrados de contaminação, ou quase isso.

Mas, depois daquela tentativa de roubo, pensei seriamente em comprar outro aparelho. Sei que parece ridículo, mas senti uma espécie de fracasso social, do tipo: pô, se nem um bandido quer te assaltar mais, a coisa ta feia! 

Voltei para Sampa. Engoli o orgulho. Fiquei com o celular. E aí…

…aconteceu de novo…

Continua…

 

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A primeira vez aconteceu quando eu morava em Cuiabá, Mato Grosso. Estava voltando do trabalho, peguei o último ônibus, madrugada quente, abafada. Desci na Avenida Beira-Rio, onde estava hospedado. O bairro não era dos mais seguros, divisa com Várzea Grande, região metropolitana com altíssimos índices de homicídio, latrocínio, roubo, furto, atropelamento e doenças cardiovasculares.

Nem percebi, mas estava do lado errado da rua, a sem postes de luz e com terrenos baldios mal-assombrados. Vale dizer que Cuiabá é uma das cidades mais mal iluminadas do país, existem dados concretos para isso, se eu fosse um bom jornalista poderia citá-los, mas basta dizer que na alta madrugada cuiabana toda cidade vira um beco escuro. Se bem que a avenida Beira Rio (que tem esse nome por margear o rio Cuiabá, rio que por sua vez não passa de um projeto de Tietê) não pode ser chamado de beco escuro; tá mais pra um mato escuro mesmo.

E foi ali, naquele cenário bucólico e distante, que fui abordado por um sujeito de bicicleta. Lembro muito bem de seu rosto, era meio gordote, de cabelos ralos, bochechas fartas e pele morena bugre. Tinha um terrível problema com conjugação verbal e queria dinheiro. Muito dinheiro! “Tudo, passa tudo!”

Expliquei ao meliante que estava despossuído no momento, pois havia gastado todos meus fundos na aquisição de um passe veicular coletivo do qual havia recém declinado:
– Tenho grana não rapá, peguei o busão agorinha – ainda abri a carteira para ilustrar a penúria e uma mosca solitária voou em liberdade.
– E celular, tem celular?

Sim, eu tinha celular. Quem não tem hoje em dia? Tirei do bolso e entreguei. Provavelmente não estava armado, nem correria atrás de mim se eu disparasse como louco, mas achei melhor não arriscar, além do mais, minhas pernas doíam de mais um dia cansativo de trabalho, era melhor entregar logo e acabar de uma vez por todas com aquilo.

Mas ele olhou o celular, girou, apertou algumas teclas.
– Tó essa merda! – E saiu pedalando sua bicicleta.

continua…

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GARBAGE CAN…

E então o homem se fez e multiplicou. Primeiro Adão, depois Eva, depois Caim e Abel, depois mais uns, e outros; o homem fez família, irmãos, primas, tios, avós; abriu fazendas, construiu templos, arou a terra; plantações, construções, aldeias, vilas, cidades; abriu estradas, lapidou pedra, domesticou animal; inventou crenças, rezou para Deuses, depois um, depois vários, depois nenhum; o homem cresceu, criou consciência, estudou o céu, o mar, o fogo; aprendeu a desenhar, pintou quadros, coloriu paredes, desenhou projetos, inventou palavra; e o homem continuou, crescendo, crescendo; cidades, Estados, países; colocou navios no mar, aviões no céu; comeu da carne, comeu do mar, comeu da terra; cresceu; fermentou e brotou nos mais diversos cantos; no frio, no quente, no seco, no molhado; o homem não parou de crescer; represou rios, cavou a terra, queimou petróleo, plastificou montanhas.

E então Deus voltou de férias. Bronzeado, de óculos de Sol, camiseta colorida, protetor solar. Abriu a geladeira e pegou um bolinho azul lá no fundão:

– caceta! Tá embolorado…

E o homem morreu na lata de lixo…

será ele voltando de férias?

será ele voltando de férias?

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Eram uma Sociedade Secreta, um dos braços da maçonaria internacional, cuja especialidade era a penetração de festas e eventos sociais. Chamavam-se Ordem dos Ébrios Cavaleiros Urbanos. A diretoria consistia em cinco membros, que organizavam e entravam secretamente nos festejos mais longínquos e distantes em busca de diversão e mocinhas indefesas.

A tarefa naquela noite era arriscada. O prolixo legionário responsável pelo departamento estatístico fez as contas e alertou sobre um possível desastre: “Certamente há grande chance de nos encontrarmos em desvantagem pelo baixo número de fêmeas, mas, caso isso não ocorra, as chances de sucesso crescem na mesma proporção, pois, para cada mulher a mais, o que se segue é um número de concorrência negativo”. Apesar das poucas chances de sucesso, o espírito mercantilista do grupo foi mais forte e todos assumiram os riscos da empreitada.

Passaram antes no Carrefour para, num ritual iniciático, adquirirem um bem precioso. O segredo para todos os males estava naquele litro de cerveja importada. Era o elixir que curaria e fortificaria o grupo em caso de um grande revés – o tesouro secreto da maçonaria.

Montaram em seus cavalos, engataram a quinta e saíram em peregrinação à Terra Prometida.

Na chegada, tensão. Entraram em fila indiana; silvos tensos de: “ihhhh fudeu”, eram proferidos pelos que atravessavam a porta. A situação era pior do que esperavam. Eram como uma matilha de leões famintos numa estufa de flores, ou, para melhor ilustrar a metáfora, como Tacoberry e Moses Hightower adentrando sem querer o Blue Oyster Bar em “Locademia de Polícia”.

O grão-mestre do grupo perímetrou a área. “É o seguinte, existem duas ou três disponíveis, não vai dar pra todo mundo, mas em compensação a concorrência no local é nula”. Fizeram o cumprimento secreto da Ordem dos Ébrios Cavalheiros e juraram pelo Grande Pegador do Universo honrar a noite com pelo menos uma bitoquinha heterossexual.

A cerveja importada, arma secreta do grupo, foi levada a um esconderijo pelos braços de um dos membros da Sociedade Secreta aliada da Ordem do Arco-Íris da Lua Gay. Era algo que deixava a todos tranqüilo, pois, caso tudo desse errado, podiam ainda contar com o geladinho liquido sagrado para curar os males.

Acuados estavam os Cavaleiros. Eram como espartanos se defendendo de um exército de Xérxes rodrigo-santorianos. Fechou-se o circulo, decidiram traçar estratégias. “Ok, uma parte fica aqui dando porrada nesse saco de pancadas, coçando as genitálias e cuspindo no chão, enquanto isso eu e mais dois vamos até a sala onde tá rolando o som. Se não voltarmos em 5 minutos, vocês já sabem… sumam daqui”.

A arte da balada é como a arte da guerra, a virtude principal de um homem de campo nos dois casos é a mesma: Atenção! É necessário atenção, principalmente por parte dos generais. A diretoria da Sociedade é um organismo único, de idéias uníssonas, com harmonia de ordens e atitudes. Mas sempre existe um animal mal-informado, como o assessor jurídico, que com suas tendências homer-simpsinianas saiu perímetrando a área sozinho atrás de espólios hetero-feminino, mas, quando de face com o tesouro secreto do grupo, abriu-o sem cerimônias, tomando por conta própria uns goles.

No front, a situação era complicada. A Ordem dos Cavalheiros Ébrios estava cada vez mais acuada. Um dos ilustres membros sofria pesadas cantadas gentis de difícil esquiva. Acuado num canto com uma lata de cerveja nas mãos, ele se viu rebaixado na cadeia alimentar do sexo; estava agora em condição de presa. Uma comitiva de resgate foi organizada, mas acabou desestruturada durante o trajeto.

As luzes apagaram. Gritinhos de “uhuu” foram ouvidos no salão. Alerta vermelho. Era hora de reunir a todos e verter o liquido mágico. Uma comitiva especial foi enviada para trazer o tesouro e refestelar os ânimos. Mas, na volta… só más notícias. Alguém havia consumido grande parte e não daria mais de um gole para cada.

Raiva, fúria, dor. Os sentimentos eram os mais intensos. Uma fagulha de guerra surge no ar. “Vamos dar porrada nesses viadinhos! Eles roubaram nossa cerveja!”. Ao que a ala jurídica chega, totalmente desinformada, e confessa o crime: “Ah, a cerveja era de vocês?”.

Combalidos pelo fogo amigo, sem ânimo e cansados, os membros resolvem se concentrar na oferenda aos céus para poderem partir de vez daquele perigoso local. Em uma rápida deliberação decidem usar Aquiles, o guerreiro de emergência.

A vítima é uma morena, alta, sensual de tendências hétero. O grupo chega para Aquiles, que dorme bêbado numa cadeira. O grão-mestre joga água em seu rosto, desfere uns tapas motivacionais, arma-lhe com uma lata de cerveja e diz: “Vá Aquiles! Que haja glória em vosso combate”…

A casa toda se transforma num grande Coliseu, com rufares de tambores e gritos de incentivo: Aquiles, Aquiles, Aquiles!

Sem muita conversa a vítima é derrubada. Aquiles inicia uma seqüência de golpes fatais. Porrada, soco, ponta-pé…

Não, não Aquiles! Não era pra bater…

templars

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A MULHER DE DORIVAL

Que situação! Logo eu! Logo eu que tive por Norte nunca me envolver com a mulher dos outros. Eu, homem de caráter ilibado, digno da mais fina aristocracia inglesa. Homem sério. Sim! Correto. Logo eu, por que meu Deus? Diga-me nobre leitor, de que adiantam tantas horas lapidando a moral nos mais garbosos quilates éticos, se ao redor só o que há são ladrões de costumes? E logo Tina Monteiro, a mulher de Dorival. Podia ser qualquer outra. Podia ser a esposa de Teodoro, aquele paspalhão! Mas a mulher de Dorival era demais. Não, Dorival não! Homem ético, tão apaixonado pelo direito quanto eu. Só de pensar quantas horas perdemos discutindo as relações humanas, arquitetando um caráter modelo. Tudo isso para ser roubado por uma vigarista, uma usurpadora.

E agora me vejo nessa situação, nobre leitor. Imagine só. Fim de festa na mansão de Dorival, maioria dos convidados já ausente, só alguns poucos embriagados de champanhe e Tina Monteiro, com sua mini saia e pernas escandalosas. Ela se insinua, chega mais perto, encosta, fala no meu ouvido. “Vem pro quarto, vem!”. Cuspo longe o champanhe em puro sobressalto. “Cara Tina, por favor, creio que a senhorita bebeu demais”. 

E então, num ato violento, vejo-me sendo puxado pela mulher de Dorival em direção ao quarto. Debato-me desesperadamente tentando pensar no assunto. A mulher havia me pegado de surpresa. Não houve conversa, nem acordo, nada. E onde ficam meus direitos como homem? Hein? O que ela pensa que eu sou? Arrastar-me assim para o quarto? Penso em usar de violência, mas seria estranho explicar ao amigo aquele vergalhão no olho direito de sua esposa: “Desculpe Dorival, mas ela estava descontrolada”. No entanto, talvez fosse mais fácil do que explicar o flagrante em sí. E se nos pegasse na cama? O que dizer? Eu, nu, sobre ela tentando me explicar: “Desculpe, mas eu sempre disse que ela não prestava. Eu sempre disse! Olha só, tá vendo?”.

Usando de força bruta ela consegue me arrastar pelo corredor, ao que derrubo todo champanhe em cima da minha camisa de cetim branca. Maldita, ainda me custou uma peça caríssima! Ela interrompe a agressão e começa a lamber minha vestimenta. Louca! Só pode estar louca! Num ímpeto exagerado rasga minha camisa e passa a língua pelos meus músculos fortes. Sim, eu malho. Horas na academia, mas, porra, não era exatamente pra isso. Pelo menos não pra mulher do Dorival. Logo a mulher do Dorival! Que puta mundo cruel.

Fico a pensar nos anos de amizade, no risco de pôr tudo a perder. Nesse momento verto uma lágrima, mas não sei se é de tesão ou de tristeza. Tomo então uma resolução: usarei de força bruta se necessário, mas não hei de comer essa mulher! Não, de jeito nenhum! “Vem aqui gostosão, quero você todinho, agora!”.

Eu bem que alertei Dorival. E não só eu, todo mundo! Não é bom pegar essas mulheres mais novas. Ainda mais ele, um homem de posses, influente na sociedade, com ótimo trânsito entre as mais altas  esferas econômicas. Mas ele queria, queria porque queria. Agora deu nisso. Só podia dar nisso. “Gostoso, sempre te amei em segredo”, dizia a mulher de Dorival já colada ao meu pescoço.

Não vou negar que estava sexualmente excitado. A dureza de meu caráter rivalizava com a de meu pênis. Não queria ter ereção com a mulher de Dorival, mas eram curvas generosas. É, no fundo é isso que fode… qualquer mulher com esse aposto não deveria me fazer sentir tesão: Fulana, mulher de Dorival. Seria a mesma coisa que dizer: Fulana, a assassina, ou Fulana, a mulher com herpes. Mas certas coisas o homem não tem controle. Não podemos influir no tempo, no clima, no universo e muito menos em nossos próprios pênis. E para meu desespero, quando ela descobriu toda minha rigidez, avançou como um cavalo para a batalha. Ainda sorriu, crente de que podia contar com a lança do inimigo para o derrubar.

Claro que não fiz nada e depois contei tudo para Dorival…

 

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A POSSE

Queria estar lá, sentir o vento gelado de Washington e sua pele arrepiar com as promessas de um mundo totalmente diferente. Mas, para Tadeu seria só mais um dia singelo na capital paulistana, sozinho, em casa, junto apenas de seu cão e uma televisão com sinal digital e tradução simultânea. Tentou a internet, New York Times, BBC, CNN, mas tudo estava congestionados. Lá fora, uma leve chuva tropical alivia o calor de janeiro. Chá, biscoitos, cão, TV e sofá.

Dava para ver tudo, cada detalhe, os sorrisos, olhares encharcados de lágrimas, fumacinha de frio saindo pelas bocas, toucas, luvas, casacos de lã. Pensou em cada um deles, ali, no frio, como seria a sensação de estar lá? Lembrou de uma amiga que estava, uma brasileira, cearense, jornalista. Devia ser o dia mais importante da vida dela; a tadinha devia tremer no frio como acarajé no freezer.

Globo, Band, Record, três transmissões simultâneas. Jorge Pontual fala ao vivo do meio da multidão. “É um momento muito emocionante”, voz embargada, parece que a qualquer momento vai largar o microfone e chorar como uma criança. Na Band a posse é seguida por notícias de última hora e a cotação da bolsa de valores. Na Record, a chamada não poderia ser mais Record: “Posse do primeiro presidente negro dos EUA”.

Os repórteres anunciam que John Willians vai tocar uma música composta especialmente para o dia da posse. Tadeu se ajeitou no sofá! John Willian? Essa ele tinha que ver. Seria a primeira vez que a grandiosa música da posse de Obama, composta por John Willians, o mestre das trilhas sonoras do cinema, seria ouvida. Era um dos momentos especiais! Aumentou o volume.

A câmera filma George W. Bush, um ser horripilantemente cômico. Bush tem o olhar perdido, vazio, talvez no fundo torcesse por um ataque terrorista de grandes proporções – quem sabe se explodissem o Capitólio, ou jogassem um avião na multidão. Ele queria uma desgraça, qualquer desgraça! Tudo o que almejava naquele momento era poder levantar da cadeira e gritar: “Eu não disse? eu não disse?”. Ou quem sabe se um de seus assessores ligasse dizendo que membros do exército tinham encontrado Bin Ladem numa caverna do Iraque junto de toneladas de armas químicas prontas para serem detonadas. Sim, seria sua glória empurrar Obama e gritar para a multidão: “YES galera! Acharam o homem! uhuuu”, e então se jogar nos braços do povo ao som de “gonna fly now”, do filme Rock.

Na Venezuela, Hugo Chavez também olha para a cara de Bush. Cercado de assessores e companheiros faz graça. “Mira lá cara del diablo hiro de puta, safado,menteroso!” Todos a sua volta riem, mas ele mesmo, no fundo, esta triste, inconsolável. Perder um inimigo às vezes é tão triste como perder alguém da família. Logo Bush, que era tão perfeitamente caipira, tão perfeitamente fácil de assustar, de odiar. Como pode ir embora assim? Hugo Chavez ria, mas estava triste; ainda tinha aquela delirante esperança do dia que invadiria os Estados unidos e traria o cowboy do Texas enlaçado, arrastando-o elegantemente pelas ruas de terra da Venezuela com seu cavalo.

John Willians termina. Decepção geral. Sem encanto, melodia, força, nem nada. Não chega aos pés de Star Wars! E todos esperavam no mínimo a trilha do Super-Homem. A explicação e o boato de que talvez o compositor seja republicano corre como rastilho de pólvora entre os presentes. Vai saber?

Um pastor inicia uma oração. Conclama a todos se unirem nessa nova fase. “Brancos, negros, amarelos, vermelhos, não importa mais a raça”. Enquanto reza, uma parte da multidão observa Bush. Alguns ali acreditam que é agora o momento dele derreter e sair um diabinho em forma de fumaça prometendo vingança…

…Mas isso não acontece.

Um câmeraman recebe ordens pelo fone de ouvido do diretor de transmissão. “Atenção Mike. Quero uma imagem ilustrativa do sermão. Pode ser japas, índios, árabes, aborígenes, qualquer coisa étnica, menos negros. Negros não! Negros já não são mais étnicos. Agora são o status-quo”.

Um quarteto de japinhas na plenitude dos 15, aparece no telão. Uma delas aponta pra cima se reconhecendo, todas dão pulinhos, mandam tchauzinho e por quinze segundos ficam famosas. Horas depois, quando a maioria já esqueceu delas, os gritinhos e as mensagens no celular, provavelmente, continuam.

Tadeu também reserva alguns minutos para sua singela oração de boa sorte. Queria mesmo é estar lá, quem sabe sua prece valeria mais; afinal, quem sabe o valor de uma reza? Mas no fundo ele se conforma com o fato de estar vivo para assistir ao evento. Já tinha ficado puto de perder o fim do império Romano, a festa pelo fim da Segunda Guerra, a queda do muro de Berlim, a geração de 68. Era um rapaz novo, estava na hora de presenciar algo histórico. Mesmo que fosse pela televisão.

Hora do juramento. Tadeu vê todos os detalhes pela TV. Cada ruga, cada espasmo, cada brilho nos olhos de Obama. Parece estar nervoso. Confunde-se nas palavras, engole em seco. E por fim: “So Help me God”

Tiros de canhão. Hino presidencial americano 

No Irã, Mahmoud Ahmadinejad, sentado com assessores e líderes xiitas, fuma um narguilé de morango e maldiz essa mania que os americanos têm de jurar tudo encima da bíblia: “porcos infiéis, bastardos! O alcorão é muito melhor! A bíblia é uma obra menor, de teor literário chulo e de metáforas pobres e falhas. Um dia saberão apreciar a grandeza do nosso alcorão. Alá, meu bom Alá! Mohamed. Ah Mohamed. Esse sim escritor de talento! um absurdo que o Ocidente não lhe tenha conferido um Nobel de literatura”. Seus assessores xiitas concordam com a cabeça, mas no fundo se emocionam com Hussein, o novo líder da paz.

O mundo prende a respiração. É hora do discurso. Jorge Pontual chora como criança. A amiga cearense esfrega e assopra as mãos tentando revivê-las. Chavez xinga Bush. Ahmadinejad xinga o Ocidente. Bill Clinton pára de olhar para a estagiária. Um censor chinês fica apreensivo com o dedo no botão que suspende a transmição. Obama tenta não pensar em atiradores ou ataques terroristas. Ataques terroristas e atiradores é tudo o que Bush pensa. Tadeu corre pra cozinha pegar mais chá. O Cão tem os olhos fixos na TV.

E o homem fala.

Fala com propriedade. Fala ao vivo. Fala para a multidão. Cada palavra é como um sopro de vida, cada frase é uma injeção de coragem. É como ópera, suas palavras são música, embalam o sonho de paz de milhões. Não, não é mais um discurso comum ao povo americano. É algo para todos. Para muçulmanos, judeus, comunistas, ateus, cristãos, negros, brancos, amarelos, índios. Fala de rios, de ar, de vida, do planeta. Promete uma era de responsabilidades.

Tem algo ali que é especial, todos sabem, apesar de não saberem exatamente o que. As palavras saem com força e giram as torneias dos olhos. A multidão fica estática, hipnotizada, como mosquitinhos atraídos pela luz. Difícil crer que são palavras. Apenas palavras. Pode-se duvidar de palavras, diriam os mais céticos. Mas daquelas, custariam caro.

Se fosse um filme de Hollywood, provavelmente os primeiros acordes de One, do U2, começariam junto com a frase final do novo presidente. Ele pularia no meio da galera no refrão: “In the name of Love”, enquanto os créditos finais subiriam pela tela, prevendo um futuro de “feliz para sempre”. Depois, quando a música e os créditos cessassem, George Bush, já no alto, dentro do seu helicóptero, olhando a multidão carregar Obama nos braços, daria um sorrisinho e diria: “Ok, você venceu Obama”.

Talvez em algum lugar a coisa possa ser vista desse angulo. Uma versão do real, com trilha sonora e efeitos especiais. Televisão, cinema, política. Ninguém sabe exatamente como funcionam essas coisas. O que move a humanidade? Talvez tudo não passe de uma curta encenação universal, cujo período histórico represente apenas uma cena. Eras inteiras que se encapsulam em frases. Impérios pintados em quadros. Milhões que se condensam em um.

A coisa toda foi como um filme. Tadeu, no seu sofá, junto de seu cachorro, só pensava: “Uau! Que demais!” Era a mesma sensação de quando assistiu Matrix pela primeira vez. Com a diferença de que aquilo, ao menos ao que parecia, era real… Era real! Só podia ser real…

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