A cobertura de um fato ou evento pela internet tem de ser imediata. Claro que a apuração é o principal, mas o grande negócio de um veículo online é jogar primeiro a informação na rede. Não que isso faça muita diferença para a empresa ou para o leitor, a maioria não está nem aí se quem jogou primeiro a notícia foi a Globo ou a Record. É um lance de jornalista, coisa nossa, joguinho corporativista. Se você não é da área não tente entender. Deve ser como ser corintiano fanático: não leva a nada, pois é alguma conjunção astral-biológica-neuronal-sexual não explicada pela ciência. Furar no jornalismo é uma catarse social pós-moderna sem sentido algum de um profissional mal-remunerado e semi-respeitado. É bom não tentar entender.
Tive um estralo. A melhor solução seria cobrir por SMS. O editor lá na redação colocaria as mensagens no Twitter e pelo menos na twitttosfera a gente furava geral. Não é a mesma coisa, é claro. É como ganhar o primeiro mundial de clubes. Até é reconhecido pela Fifa, mas sem dúvida um tanto sem mérito. O certo seria colocar tudo no site de uma vez, mas nosso sistema tem algumas deficiências. Se o editor publicasse sem antes dar login e logout duas vezes, não apertasse o Crt+v+a+i mais cinco e esquecesse de rezar os dois pai-nosso estralando os dedos, a matéria saia toda desconfigurada.
Mandei umas quinze mensagens para o editor enquanto ele tentava desesperadamante entrar no Twitter. Eu já estava bem mais tranqüilo, rindo da própria esperteza, quando chega a mensagem: “Twitter fora do ar!”. Droga! O jeito era desencanar dessa coisa de online-tempo-real e cobrir como um bom, velho e respeitável senhor de impresso. Sentei-me, cruzei as pernas e pus a pena em tirocínio.
No plenário, o vereador Ralf Leite gritava de braços abertos: “Oh, céus! Oh Deus! o que eu fiz para receber tamanha injustiça?”. Os jornalistas todos vinham abaixo com cada declaração do vereador. Num dos momentos altos do show ele segurou a constituição e disse a plenos pulmões: “Não posso ser cassado. Está escrito aqui, na constituição! E a constituição é a carta magda (sic) da nação”. As risadas na sala de imprensa ecoaram por todo salão e os vereadores puderam ouvir quando um repórter gaiato gritou lá de dentro: “cala boca Magda!”
O erro foi engraçado pela situação toda, mas a sessão inteira transcorreu como um assassinato cruel à língua portuguesa. Em especial um dos vereadores que usou a tribuna. Ele cometeu um genocídio tão grande que poderia ser condenado à morte em um tribunal especial da ABL: “É craro que as denúncia tem de se apurada. Mas a constituição é crara: o voto tem di se secreto. e digo mais: nenhum de nóis aqui é de menas importância que ninguém”, gritava o nobri vereador. Os jornalistas se retorciam de vergonha alheia, alguns até repetiam em voz alta como que grifando os erros do sujeito para o resto, mas a maioria manteve-se mesmo em silêncio. Não sou do tipo que fica arreparando na fluência verbal alheia, mas um camarada que arranja um cargo como aquele deveria ao menos se dar ao trabalho. Sofri com o resto a dor de saber que aquele cidadão era um representante legítimo do povo e tinha salário (fora as comissões) bem maior do que nossos anos de lapidação lingüística podia almejar.
Por fim veio a defesa. O advogado pelo menos tinha um português ajeitado, mas muito mais lavada era a cara do sem-vergonha. Ele montou toda a defesa em cima do fato da Câmara dos vereadores não ter uma constituição própria, o que, na teoria, impedia a sessão com voto fechado: “o voto tem de ser aberto como diz a constituição”, dizia com cara séria. No fim resolveu dedicar um tempinho pra defesa (de fato) do seu cliente. Mas para isso não teve coragem de fazê-lo verbalmente, preferiu exibir o trecho de um vídeo que editou no computador (bem mal-feito) tentando provar a inocência do seu cliente. Mais risadas na sala da imprensa.
Mas não adiantou. Os partidos obrigaram os vereadores a votar pelo pleito aberto pra tentar disfarçar um pouco a evidente sem-vergonhice. Não foi a toa! Uma rápida olhada na turba nervosa que tomava o plenarinho gritando já ilustrava bem a situação. Era a cabeça do pedófilo, ou a revolução.
E tudo correu conforme o esperado. Ralf Leite foi o primeiro vereador de Cuiabá a perder o mandato. Só dois votaram contra: Lutero Ponce e o próprio Ralf Leite. Agora o que é mais curioso. Sabe esse tal Lutero Ponce aí que votou contra a cassação? Pois bem, ele era presidente da casa e foi indiciado pela Policia Fazendária por ter desviado 7,5 milhões de reais da Câmara. Nas ultimas três gestões a mesma quantia foi desviada e ninguém foi cassado. Mas não adianta ficar espantado, não. Convenhamos… desviar dinheiro faz e sempre fez parte do decoro parlamentar brasileiro. Esse negócio de transar com travesti que é novidade…
(Façam suas apostas: Lutera será ou não cassado. Descubram em breve nesse periódico)
Muito bom o texto….não me arrisco a apostar..tudo pode acontecer no Brasil
Thiago
Mandou bem mais uma vez…
Fico imaginando o dia que você chegar na porta do Senado, coitado do Conselho de Ética dos nossos governantes sem-ética…Se eles tivessem ao menos vergonha na cara já seria alguma coisa…
posta + vezes…
Bye
“Deve ser como ser corintiano fanático: não leva a nada, pois é alguma conjunção astral-biológica-neuronal-sexual não explicada pela ciência. Furar no jornalismo é uma catarse social pós-moderna sem sentido algum de um profissional mal-remunerado e semi-respeitado. É bom não tentar entender.”
Que pérola!!!
Maravilhoso seu relato senti nos três textos uma verve humorística crítica e inteligente. Parabéns!
Duas coisas: sem querer ser chato já sendo, o nome do lutero tá no feminino no último parágrafo. E “nas ultimas três gestões” tá sem acento.
Ah, o palpite: não vai ser cassado não apesar de merecer.