Enquanto a coisa toda pegava fogo (literalmente, pois o tenente Lara resolveu incinerar seus apretrechos farrísticos) , eu tentava achar um gabinete de um vereador honesto para negociar um computador. Claro que não estou tempo o suficiente na cidade para saber quem é honesto ou não, por isso pedi ajuda ao repórter Fábio Menegatti, que após pensar um bocado, me indicou um com a seguinte ressalva: “É o menos pior”. O nobilíssimo vereador indicado concordou e pediu para uma secretária me acompanhar até uma salinha contigua onde ligou um monstro eletrônico de filme futurista dos anos 80. “É um pouquinho lento”, lamentou enquanto o processador rugia mal humorado. Um pouquinho? Pelos meus cálculos aquele troço só iria pegar lá pro final da sessão. “Ok, deixa ele ligado aí que quando eu tiver alguma matéria eu venho correndo e mando”. “Ah, precisa de internet? peraaí que eu vou conectar pra você”, e pegou um fio telefônico empoeirado do chão.
Saí dali com a certeza de que não voltaria – se é difícil imaginar um mundo sem internet, pior ainda é imaginar um sem banda larga.Entrei pelos corredores e me perdi da equipe. Subi um lance de escadas e fui parar no plenarinho, lugar de intensa e nervosa concentração popular. Ali as pessoas seguravam cartazes, faixas e gritavam para o grupo de vereadores acuados na parte de baixo. Era como uma arena romana, com torcida por decaptação, entrada de leões e lutas de espada. Uma mulher do meu lado estava indignada e gritava a plenos pulmões: “Isso é um absurdo, como pode? esse presidente da câmara aí também é pedófilo, e bicha!”, era eleitora de Ralf Leite – Destaco aqui o seu depoimento pois era isolado; a maioria queria mesmo é ver a cabeça do vereador pedófilo numa bandeja.
O suor brotava dos poros como torneira ligada. Lá fora a temperatura ambiente devia estar próxima das 40 graus. No plenarinho o bafo era algo como cinqüenta graus de indignação. “Ladrão, pedófilo, filho-da-puta”. Cada espaço ali era disputado e eu fui abrindo caminho dizendo: “imprensa, opa, imprensa, opa, com licença”.
Sem dúvida que eu não devia estar ali, a sala dos jornalistas era lá embaixo, mas por alguns segundos quis sentir o clamor popular por justiça, bater umas fotos e fazer uns vídeos em baixa resolução. Fui contaminado pelo clima de indignação, não a ponto de começar a quebrar tudo, mas o bastante para desejar que isso acontecesse. Poderia ficar alí até o final, mas entrou aquele sujeito gordaço, esbarrando em todo mundo e causando tumulto. Ele virou pra parede, colocou o polegar na narina esquerda, e chuuuu, mandou bala jorrando uma punhado de catarro que ficou grudado na parede. Depois disso ainda esfregou o que ficou pendurado nos dedos e voltou a assistir a cassação tranquilamente. Nessa hora não pude evitar as constantes dicas de saúde da Sandra Anemberg para evitar a tal gripe suína. Achei melhor me retirar para a sala dos jornalistas.
A câmera e a câmara funcionavam a todo vapor: Fotos, vídeos, depoimentos, poses, xingamentos, flash. A intenção era montar uma galeria de fotos ou um vídeo com os bastidores. Eu e o editor Neto gostamos de inovar e trazer uma visão diferente do que é apresentado nos jornais. Nem sempre conseguíamos. Cada vez que usava a câmera um risquinho da bateria ia embora. Nem percebi quando o troço começou a piscar. Desliguei. Era bom economizar.
Na sala da imprensa cinegrafistas e jornalistas disputavam a cotoveladas cada centímetro disponível. O problema é que ali não dava pra usar o truque da “imprensa, opa, com licença”, mas mesmo assim fui cavando lugar até encontrar Walcir, nosso cinegrafista, disputando espaço com mais cinco ou seis concorrentes. Nesse momento, quando as leis da física estavam prestes a serem quebradas, uma assessora entrou e liberou só os cinegrafistas para entrarem no plenário. A saída de câmeras e tripés aliviou o lugar. E foi nessa hora, quando o horizonte da sala se abriu, que tive o primeiro grande choque do dia. Meus olhos não podiam acreditar no que estava vendo. Era uma mesa, mais ao fundo, onde os jornalistas de sites concorrentes estavam sentados com notebooks, rede sem fio e máquinas digitais. Sempre soube que nosso site tinha problemas de estrutura, mas achava que era uma coisa da situação política e econômica do estado, ou da cidade. Mas que nada! Aquela visão só me deu uma certeza: íamos tomar furo!
Continua…
Thi, adoreeeeeeeeeeei. adrenalina na veia hein !! não sabia que a vida era assim tão animada por ai.
bjs
[...] DE CASSAÇÃO – parte 1, parte 2 e parte [...]
Parabéns pelo Blog e pelo bom texto.
Também sou de Cuiabá.
Sucesso, amigo!