A cobertura de um dos fatos políticos mais importantes de Mato Grosso começou cedo, por volta das 07h00 da manhã, quando todas as redações de sites, jornais, revistas e TVs se agitavam para ir a Câmara Municipal, no Centro Geodésico da América Latina. Era dia de cassação de vereador. Muito provavelmente o primeiro em toda história do município.
Ralf Leite foi eleito com 3.115 votos pelo PRTB. Político de primeiro mandato, parente de gente importante, filho de PM, ex-bombeiro, chegado de figurões da alta sociedade. Não fez nada de diferente do que se costuma fazer na Câmara, ou seja: nada! Não apresentou projetos, não resolveu problemas, não atendeu a sociedade, mas, em compensação, se envolveu com esquemas, fez alianças escusas, enfim, foi um vereador exemplar. Até aquela noite no bairro Zero Quilômetro de Várzea Grande (região metropolitana de Cuiabá) na qual foi flagrado pela PM cometendo o que a imprensa chamou de “ato libidinoso com um menor de idade”. O tal ato libidinoso os jornais imprimiam como “felação”, ou como é mais conhecido pelos populares: boquete, gulosa, bola-gato ou chupeta. O tal “menor de idade” era um travesti; um guri de 16 anos com prótese de silicone, coxas roliças e um gogó (entre outras coisas) saliente. Naquele momento ele recebia 30 reais para deixar o nobre vereador, representante do povo de Cuiabá, meter a boca onde não devia… Foi um escândalo!
A imprensa cobriu o caso por meses. A população indignada pixou os muros da cidade: “Fora Ralfenômeno!”. Por algum tempo o vereador conseguiu escapar. Várias sessões foram suspensas pela justiça e a velha tática de cobrir escândalos com a pá do tempo já estava quase dando certo. Mas o nobre vereador se envolveu em mais um escândalo: bateu na mulher! Aí não deu. A cena da sua esposa saindo da delegacia de olho roxo correu os jornais e televisão e reacendeu a polêmica. Não tinha jeito. O povo até que é meio bobo (como eles mesmo pensam), mas o tal Ralf realmente abusou. Aquela sessão só saiu por pura pressão e necessidade social.
O carro da TV já estava pronto. Eu ainda procurava a filmadora do online na redação, e nada! Reviramos armários, gavetas, portas e o equipamento não aparecia. É sempre assim. O site não tem lá muito estrutura e a coisa é sempre feita com improviso, gambiarra e paixão. Pra se ter uma idéia, a câmera nem era do nosso departamento, mas acabamos por adotá-la após uma série de empréstimos sorrateiros. E justo naquele dia, uma das coberturas mais importantes do ano, o pessoal do marketing deu um jeito de sumir com o equipamento. Não dava mais tempo, o editor pegou uma máquina fotográfica e disse: “se vira com essa”. Saí afoito com um bloquinho debaixo do braço e uma câmera quase sem bateria no pescoço.
Chegando lá o clima era de revolução; bandeiras vermelhas do MST e integrantes de movimentos sociais agitavam a entrada da câmara enquanto um carro de som tocava músicas de Gabriel Pensador, Geraldo Vandré e Bezerra da Silva. Um caminhão-pipa com oito mil litros de água lavava a parte da frente da Câmara e alguns manifestantes com água e sabão realizavam o ato simbólico. Mas logo a impressão inicial de “revolução” deu lugar a boa e velha jocosidade do brasileiro. Alguns personagens clássicos da fanfarronice municipal estavam lá, como o ex-vereador Tenente Lara (que você já deve ter visto nesse vídeo). Vestido de … de… de alguma coisa, ele colocava fogo, batia com um porrete, xingava e interpretava as mais diversas espetaculosidades. Tinha também um sósia do falcão apelidado de Cumpadre Banga e um integrante do MST que não fez questão de esconder sua homossexualidade desfilando de batom, maquiagem e distribuindo beijinhos envolto na bandeira vermelha do movimento.
No Brasil, desgraça de um é show de outro.
Continua…
[...] DE CASSAÇÃO – parte 1, parte 2 e parte [...]