Para a maioria essa é uma pergunta simples, basta olhar o verso do RG. Mas não deveria ser. A pergunta “de onde você é?” envolve muita coisa. Suas origens, raízes, sotaque. Poderia ser apenas uma questão geográfica; sou dalí, daqui, acolá, nasci longe, ou perto. Mas a geografia não é só um detalhe, é tudo.
Nasci ali, nas montanhas, perto do rio, respirando monóxido, no ar campestre. Sou da floresta, da selva de pedra, do carpete, da grama. Eu vim de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia, Amazonas, Nova Zelândia. E agora estou aqui, em Mato Grosso, pra, quem sabe, um dia no futuro dizer que vim daqui.
Mas no geral tomei a resolução: sou paulistano. Na verdade gaúcho de RG, mas fora o gosto por chimarrão seria injusto me proclamar gaúcho. Em casos como esse, ser paulistano é melhor. É uma cidade relativamente livre de tradições pétreas ou orgulhos bairristas. Não dá, por exemplo, pra olhar e dizer: “você tem cara de paulistano”. Paulistano não tem cara! Paulistano é árabe, japonês, negro, vermelho, branco, mas principalmente: cinza. É um tudo de um monte de coisas todas. Por isso já decidi que sempre é um alívio dizer que sou paulistano.
Isso que por um triz não nasci manauara. Poderia ostentar um RG com naturalidade de Manaus, Amazonas. Mas não deu certo. Minha mãe não confiava nos hospitais de lá e minha avó bateu o pé para que todos os netos fossem gaúchos! (e ela sempre diz isso batendo na mesa ou bradando o braço como colocando um ponto de exclamação depois do: gaúcho!). Mas sei lá, se nessa época me perguntassem e tivesse discernimento pra responder diria que não faria questão de ser gaúcho, podia nascer ali mesmo na selva, sem problemas. Não que não goste de ter nascido lá, mas é que essas coisas, no fundo, pouco importam. Por isso ser paulista é melhor.
Dizem que tem qualquer coisa de especial no primeiro ar que você respira. O primeiro contato dos pulmões com o clima externo, o sopro de vida invadindo o peito e encharcando os alvéolos com o ar úmido do Guaíba. Isso tudo pra semana seguinte se embrenhar no ar amazônico até os três anos de idade. De fato o ar de Porto Alegre tem qualquer coisa de especial pra mim, ou tinha. Lembro bem do cheiro da cidade quando desembarcava na rodoviária. Talvez, inconscientemente, aquele ar remetesse ao instante exato que o sangue borbulhou com o oxigênio do mundo exterior. Essas primeiras impressões do mundo ninguém te tira, nem tampouco explica. O fato é que tanto o ar na beira do Guaíba quanto no coração da floresta já não são mais os mesmos. Sinto falta do ar da Nova Zelândia, por exemplo, mas mais falta sinto do ar dos anos 80.
Morei os três primeiros anos da minha vida em Manaus. Não me lembro de nada daquele lugar, mas, de certa maneira , Manaus gerou meus primeiros padrões cerebrais. Rios, florestas, animais, umidade, calor, por alguns anos o entorno amazônico me moldou como um ser da floresta. Isso até meu pai resolver se mudar para São Paulo e eu adotar a selva de pedras como novo meio ambiente. Desde então subir em prédio e atravessar avenidas passou a ser meu modo habitat…
Talvez eu esteja apenas procurando outro bioma.

Você é Manaura criado em Selva de Pedras.
Muito bom o texto. Tua Vó é que não vai gostar de Vc se dizer Paulistano.
1 abraço
Ô, primo, finalmente você voltou a escrever. Favoritei O Rolo Compressor aqui e voltava toda hora pra ver se tinha post novo, já estava perdendo as esperanças.
Gostei muito do texto novo, mas acho que no fundo você não é de lugar nenhum, né? É do mundo todo! hahahaha