Três e vinte e cinco da manhã, Aclimação, São Paulo, madrugada de um sábado de janeiro de 2008. A crise econômica mundial é o grande hit do momento. O número de desempregados cresce na mesma proporção ao de novos ladrões nas ruas da região central.
- Aí playboy, já era, passa o dinheiro!
Fui pego de surpresa, parte por caminhar cansado e bêbado, parte por não acreditar que aquele garoto estava de fato tentando me assaltar. Era um pivete bem vestido, cabelinho raspado, negro, olhos redondos, um típico bom morador da periferia, bem cuidado por no mínimo três mulheres: mãe, tia, avó.
- Não tenho dinheiro.
- Que não tem dinheiro porra nenhuma. Passa a grana!
- Não tenho mesmo, olha…
- Então me dá o celular?
Era o grande momento; a estréia do meu novo modelo Sony Ericson S500 no mundo do crime. Pensei em dar uns tapas naquela careca jovem e dizer: “rapaz, tua mãe sabe que tu ta aqui?”, provavelmente seria o certo a fazer, com certeza ele não estava armado e não era perigoso. Mas olhei com calma para aquele garoto. Hum, mais bem vestido que eu, calça jeans, sapatinho marrom, relógio da 25 de março no pulso. Pensei no tremendo bom gosto que aquele pivete deveria ter e puxei o celular, dei na mão dele e observei suas feições.
Apreensão.
Analisou por alguns segundos, girou, olhou. Não era possível. Estava em dúvida! Decidi ajudar:
- Ele tira foto.
- Ah é?
- É, 1,5 mega pixels
- Tem MP3?
- Até tem, mas não grava muitas músicas.
- Rádio?
- AM e FM…
- Bom, não sei…
- Perai, com licença… Olha só esse painel, dá pra trocar a tela de proteção…
- Isso não quer dizer nada.
- Ah, mas é um bom celular.
- É, interessante.
- É bom sim, ganhei faz algumas semanas, só.
- Pode crer. Quer saber, já era mano! Vou levar…
Emocionante…
O primeiro assalto a gente nuca esquece…
É o que dizem, alegria de pobre dura pouco…
Quando descobrir quem está pagando por tudo isso, me avisa, porque essa aula eu também perdi…