Dessa vez tinha ido beber perto da estação Vergueiro, na Aclimação com meu grande amigo Vinícius. Era entremeado de Junho de 2008, período de pré-crise econômica mundial. O mundo ia bem, o país batia recordes de emprego, era uma época em que ninguém esperava perder dinheiro nos fundos da Petrobras nem muito menos ser assaltado em plena Aclimação.
Mas aconteceu. Saí do bar, subi a escadaria, peguei a Apeninos e então dois sujeitos passaram me encarando, um deles voltou, pegou no meu braço e disse soltando fumaça de cigarro na minha cara: “Quieto! anda, tira o celular do bolso e me dá, agora!”. Devo reconhecer, a abordagem paulista é bem mais agressiva.
O sujeito estava até que bem vestido; camisa listrada azul, cabelo penteado, sapato marrom. Era alto; não dava pra reagir. Tirei o celular do bolso e sem dizer nada, entreguei.
Ele olhou, girou, apertou algumas teclas:
- Tem dinheiro aí?
Mais uma vez tinha deixado todos meus fundos soberanos em outro lugar. Dessa vez, no bar. Minha última nota de dez reais amassada e suja:
- Não tenho, acabei de sair do bar, deixei tudo lá.
- Abre a carteira.
Abriu calmamente e outra mosca saiu voando. Zero, necas, liso! Esse sou eu, jornalista, pobre, fudido, sem a dignidade de ser assaltado como um cidadão de bem.
- Toma essa porcaria – disse o meliante empurrando o celular de volta.
Para piorar, mais à frente um homem me esperava, parado, na esquina, dentro de um Peugeot.
Ele abaixou o vidro. Segurava um celular:
- Ei garoto! Eu vi tudo. Aqueles dois sujeitos estavam tentando te assaltar? Eu estou com a polícia aqui agora no telefone. Me diz, o que eles levaram?
Nessa hora não tem muito o que fazer. É abaixar a cabeça e dizer a verdade:
- Não levaram nada não, senhor…
- Tem certeza? Eles não estavam te assaltando?
- Tentaram, só…
- E?
- E eu não tinha nada…
O homem, orgulhoso de seu Peugeot, ciente do seu papel de cidadão, patrulheiro noturno, não entendeu muito bem…
- Nada?
- Não…
silêncio…
- Ao que parece foi só tentativa, mas os dois ladrões devem estar por aqui ainda, se quiserem enviar uma viatura pra pegar eles…
E levantou o vidro e saiu enquanto falava com a polícia…
…sem nem se despedir!
Continua…